Entrevista
Entrevistado: Soninha Francine
Entrevistador: Camila Oliveira e Olavo Neto
Data: 21-07-2006

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Fomos recebidos –Camila Oliveira e eu-, em pleno corredor da Câmara Municipal de São Paulo, em frente à porta do gabinete 307, pela própria entrevistada.


Para nosso gáudio, logo que entramos, Soninha nos fez um convite para que pulássemos por uma das janelas e fossemos à grande marquise adjacente ao seu andar -o que, prontamente, fizemos (e onde Camila fez fotos espetaculares, com o Vale do Anhangabaú, na região central da megalópole paulista, ao fundo).


Soninha, uma multimídia, com todas as suas muitas atividades, ainda encontra tempo para se dedicar à família, ao budismo e, tão importante quanto, crer que é possível fazer “a” diferença, através de uma intensa atuação política. Também é digno de nota o fato de haver tanta gente trabalhando -pra valer, mesmo- num escritório de assessoria política –e com tanto alto astral.


O papo aconteceu numa tarde de Quarta-feira, 19 de julho de 2006.


A produção do PROGRAMA PAINEL muito agradece:


- a Ronaldo Paixão, à Dalva e à toda a Assessoria de Soninha;
- ao Nilson “Doqueiro”, que nos levou até lá.


 A transcrição ficou a cargo de Camila Oliveira e Amy La Scala. A revisão foi feita por mim, que também fiz a edição do áudio.
As fotos são de Camila Oliveira.
As Notas Explicativas são de minha autoria.


Boa diversão!
Saúde & Paz,


Olavo Dáda.


PAINEL


Você ainda tem a sua Vespinha estacionada? Ou é uma moto agora?


SONINHA FRANCINE


Eu já tive muita vontade de comprar uma moto de verdade (risos), principalmente porque a Vespa é muito boa em pequenas distâncias, no trajeto urbano normal ela é excelente. Mas, se você precisar dela para ir um pouco mais longe e andar um pouco mais rápido, ela não é a mais indicada. Então, você pegar uma Marginal em São Paulo, ainda que seja na pista da direita, mas com um caminhão no seu encalço, e com a buraqueira que é isso aqui, era melhor ter uma moto. Mas eu não consigo largar minha Vespa.
 
PAINEL


É a primeirona ainda?


SONINHA


É, primeira, eu comprei na faculdade. Comprei em 90, do meu irmão. Meu irmão já tinha comprado usada. Então eu sou, no mínimo, a terceira dona.


Mas ela é muito prática. Ao mesmo tempo em que ela tem desvantagens comparadas com uma moto, ela tem vantagens importantes, do tipo não ser cobiçada. Ninguém rouba Vespa. Então eu não preciso me preocupar de largar ela em qualquer lugar.


Até aconteceu uma coisa esquisita uns meses atrás, que eu achei que a tinham roubado.


Ela estava meio ruim, falhando o motor, tava chovendo pra caramba. E eu pensei “não vou arriscar ficar na mão no meio da chuva”. Fui de Vespa até o metrô Barra Funda, e parei ela lá. O metrô Barra Funda, à noite, é um lugar meio ermo. Durante o dia é super movimentado. E eu voltei no dia seguinte para buscar a Vespa e ela não estava lá.
Eu falei “não acredito que roubaram a Vespa. Ninguém rouba Vespa. Como assim?”.


Fui na delegacia fiz o B.O. E aí o que aconteceu? Sobrou só ela à noite, e o cara que tem uma barraca ali  viu que só estava ela, ficou preocupado e guardou a Vespa. Arrastou para outro lugar e escondeu. Querendo ajudar, entendeu?


Eu cheguei no dia seguinte e achei que tinham roubado.


Então ela não é não é cobiçada e isso é muito bom. E eu também sei que posso andar com ela de madrugada e ninguém vai querer me arrancar de cima da Vespa para levá-la embora.


PAINEL


Podem querer levar o que está contigo, mas a Vespa não.


SONINHA


É! Podem talvez querer levar a minha mochila, mas a Vespa não vale nada .


PAINEL


Em compensação, só andamos de bicicleta, Camila e Eu, e bicicleta estão levando bastante lá em Santos.


SONINHA


Cara, e a gente tava falando de bicicleta agorinha, porque eu acabei de voltar da Alemanha...


PAINEL


E lá todo mundo anda.


SONINHA


Impressionante como todo mundo anda de bicicleta lá e tem condições para isso. Tem estrutura.


PAINEL


Andam mais que na China.


SONINHA


Mas organizado certamente, mesmo porque são os alemães.


Mas é impressionante como as pessoas trocam outro tipo de transporte por bicicleta com a maior naturalidade, e não é uma alternativa exótica, sabe? Não é uma coisa underground. O diretor da empresa...


PAINEL


De terno e gravata...


SONINHA


...Vai de bicicleta! Com a maior naturalidade. E ele tem uma faixa para ele, um semáforo para ele. Tem onde estacionar.


PAINEL


É o que você falou: tem toda a estrutura para optar por isso.


SONINHA


Se ele quiser combinar bicicleta com outro transporte ele pode. É fácil. Se ele quiser pegar o trem com a bicicleta ele pode, é só ele pagar duas passagens. Se a bicicleta for dobrável ele paga uma só.


Aqui, se você quiser combinar a bicicleta com o metrô, tem que tirar a roda da bicicleta. A roda da bicicleta! Imagina o que não é você carregar a chave de roda, parar na estação, tira a roda. Porque daí você carrega a bicicleta como se ela fosse... (pausa)


PAINEL


...Como se você tivesse acabado de comprar.


SONINHA


Comprar! É!!!


Imagina se tem cabimento uma coisa dessas? Eu preferiria pagar duas passagens e entrar com a minha bicicleta.


Ainda que não fosse em todos os horários...


PAINEL


Em todos em vagões...


SONINHA


...Em todos os vagões. Ou em todos os trens, sabe? Se eu soubesse que de vinte em vinte minutos vai passar o trem que tem vaga para a bicicleta...


PAINEL


...Você já programa para aquele horário.


SONINHA


Claro! E vale a pena. Mas como a gente tá longe disso.


PAINEL


Bom, já que nós começamos aqui descontraídamente, boa parte da minha família torce muito para que você seja Corinthiana.


SONINHA


Ahhh!!! Lamento.


PAINEL


Inclusive eu (risos). Algumas pessoas ainda têm dúvida que você seja Palmeirense mesmo. Para dirimir essa dúvida de uma vez por todas: Soninha Francine é Palmeirense mesmo?


SONINHA


Eu sou Palmeirense mesmo! Eu só não posso disser que sou de nascença, porque a minha família, por incrível que pareça, não da a mínima para futebol. Quem mais gostava de futebol na família era meu avô, que era torcedor da Portuguesa.


E não fazia muito esforço para converter a descendência, porque ele mesmo sofria tanto. E eu cresci assim, filha de pai Santista, mas que só era Santista porque tinha o Pelé lá. Era mais fácil torcer pelo Santos do que para qualquer outro time. Então se alguém perguntasse para ele, ele dizia q era Santista. Mas pede para escalar o Santos ele não saberá, hoje menos ainda.


PAINEL


Mas, hoje, está meio difícil de escalar o Santos.


SONINHA


É! (risos). Hoje também tá, de qualquer jeito.


Mas aí, quando eu comecei a gostar de futebol e acompanhar por minha conta, sem nenhuma influência familiar, eu escolhi o Palmeiras!


PAINEL


E Soninha, eu (Olavo) tenho alguns amigos editores de esportes dos jornais locais e daqui também. E alguns têm essa postura que eu respeito, discordo, mas respeito, de não revelarem para que time torcem.


Até que ponto você acha legal isso de parte dos seus colegas e até que ponto você acha que não é legal?


SONINHA


É... Eu também, respeito, mas discordo. Eu não vou obrigar ninguém a dizer o time. Até porque quem cobre muito jogo, quem vai ao estádio muito frequentemente às vezes não diz, até por uma questão de segurança. É comum ser ameaçado por torcida, sabe? Aquela coisa de ir para cima e chacoalhar o carro. Ou coisas mais assustadoras ainda. Então, eu entendo. Tem muita gente que não diz porque tem medo mesmo de ser sacaneado depois, ou perseguido por causa disso.


Tem gente, é o caso de um colega meu do Estadão (jornal o Estado de São Paulo), que acha que não é obrigado, que é uma sacanagem exigir do comentarista esportivo que diga para que time torce. E ele diz assim: “Pergunta lá para o Clóvis Rossi em quem ele votou. Pergunta para fulano de tal, pergunta para um comentarista político se ele é simpatizando do PP, do PSDB ou do PFL. Ele não é obrigado a dizer. Por que querem que eu diga? Eu sou jornalista, não importa o time que torço. O time que eu torço é pessoal. E o meu trabalho é o meu trabalho”. O que eu também acho super respeitável.


Eu, em todo caso, sempre prefiro dizer.


PAINEL


Mesmo porque você já tinha dito antes. Você já trabalhava em TV antes de ser comentarista.


SONINHA


Mesmo porque eu já tinha dito antes. Mesmo que eu quisesse, as pessoas já sabiam. Algumas, né?


Mas é o seguinte, quando você não diz, as pessoas ficam sempre tentando adivinhar de qualquer jeito.


“Ahh... Ela falou isso, só pode ser Corinthiana”. “Olha essa São – Paulina o que está dizendo”.  Eu acho mais fácil estabelecer: Eu sou Palmeirense. Não é por isso que eu critiquei o Corinthians, não é por isso que eu elogiei o Palmeiras. Não é por isso que eu critiquei o Palmeiras, entendeu?


Acho legal também as pessoas terem o direito de saber, emocionalmente e afetivamente, qual time que te diz respeito.


PAINEL


Você sabe Soninha que tem um argumento, nós entrevistamos o Heródoto Barbeiro recentemente, a entrevista está lá no site, foi nosso segundo entrevistado... E tem um argumento dele que, pra mim, foi cabal para eu admitir e assumir esse ponto de vista. Ele disse: “Realmente, numa entrevista, eu não vou ficar perguntando coisas, dando dicas de em quem eu voto. Agora, se o ouvinte, o leitor, ou alguém me perguntar na rua, eu tenho a obrigação de dizer em quem eu vou votar”.


SONINHA


Olha que interessante.


PAINEL


Até porque é muito mais fácil que está do lado de lá, palavras do Heródoto, saber: “olha está indo lá, tá puxando a brasa pro lado dele”. Ele terá muito mais parâmetro crítico.


SONINHA


É, foi o que aconteceu nas últimas eleições para presidente. Em que  a (revista) Carta Capital disse que escolhia entre os candidatos o Lula, então a partir disso, vocês já sabem, essa foi escolha nossa, né? Dos editores da revista. Aí você vai avaliar nossa cobertura e avaliar se é boa, ou ruim, se é equilibrada, ou desequilibrada justa ou injusta, sabendo.


Até porque, as pessoas sempre têm uma preferência.


PAINEL


Lógico.


SONINHA


Não existe, o jornalista esportivo, política têm uma preferência. Isso não faz, não dá o direito de ser injusto. De ser desequilibrado, de ser mais tolerante para um lado do que de outro. Não dá.


Agora, ele admitir que tem um preferência e dizer qual eu acho melhor.


Nos Estados Unidos é super comum o jornal dizer “Apoiamos o candidato democrata”. “Apoiamos o candidato republicano”.


PAINEL


Fica uma maneira mais honesta...


SONINHA


Eu acho mais honesto. Eu acho mais honesto.


PAINEL


É o que o Heródoto disse é exatamente isso: “tem gente que não se posiciona, mas por debaixo dos panos fica manipulando informação”. Isso é horrível.
 
SONINHA


Não é muito pior? Não é muito pior? Bom, eu acho.


PAINEL


Bom Soninha, você nas suas colunas na Folha, nos comentários na ESPN Brasil, suas posições fogem bastante desse metiezinho, desse senso comum da imprensa esportiva. O que a gente acha muito legal. Dessa sua ida para a Alemanha, tem alguma história que você releva mais, que você ache mais interessante para contar para a gente, dessas de bastidores?


E também outra curiosidade do pessoal, como você estava lá, como foi o sentimento daquela tragédia do Bussunda que era teu colega lá?


SONINHA


Ah! A história do Bussunda é uma daquelas que... Toda história de morte, por mais que a gente devesse estar preparado, pega a gente de... É, sempre pega a gente desatento.


E foi tão, ele tava tão perto da gente. Muito louco isso. Se eu tivesse no Brasil e ele na Alemanha e falassem o Bussunda morreu, eu já ficaria chocada. O cara estava ali do lado. A gente ia para o treino do Brasil e ele estava lá.


Eu achei quer era piada. Eu achei mesmo. Sabe? Dessas piadas bestas.  Assim: “Sabe quem morreu? O Bussunda. O Ronaldo vai entrar no lugar dele!”. Então eu achei quer era uma piada do tipo.


Então, foi muito chocante e muito triste. O Bussunda não é só o cara engraçado do Casseta, ele é um cara muito legal! Ele é um cara legal no trato, um cara muito divertido. Ele num é um palhaço, que faz piada o tempo todo. Aquele é o jeito dele. Até meio blasé de fazer humor.


Então, foi muito chocante, muito chocante!


A gente fica projetando tudo que ele não vai ver. “Mas a Copa nem começou, e ele já morreu?? Ele não vai saber de nada do que a gente vai saber!!!”. Aquele raio que cai na cabeça de vez em quando, e a gente lembra que as pessoas morrem e a gente num sabe quando.


E... Da cobertura... É... Por um lado, assim... A gente tava lá, né? A equipe na ESPN, às vezes remando um pouco contra a maré. Porque a mídia esportiva, as outras também, mas na esportiva isso fica muito evidente, tem muita tendência de jogar para a torcida. De dizer o que as pessoas querem ouvir. Então, tem ali meia dúzia de conclusões prontas que ela, a mídia, sempre usa.


PAINEL


Para alavancar a audiência?


SONINHA


É... Eu até tenho dificuldade de saber se é deliberado, vamos lá, vamos dizer o que a torcida quer ouvir, ou é inadvertido, o cara quer agradar e acaba falando o que a torcida que ouvir.


Então, o que acontecia, o Brasil ganhava os jogos, e a gente na ESPN dizia: “gente! Ganhou, mas a chance de perder era a mesma. Não foi superior. Não jogou bem”.


Como é que Gana chuta 26 vezes contra o Brasil, e a defesa ainda foi o destaque, a NOSSA defesa foi o destaque e, ainda sim, Gana teve 20 e tantas finalizações. Aí você é acusado de antipatriota, de azedo, invejoso.


PAINEL


Quinta-coluna...


SONINHA


ÉÉÉ!! Vocês falam isso porque é ressentimento contra a CBF, contra a Globo, vocês não querem que o Brasil ganhe! (risos).  Não. A gente adora futebol, e adoraria que o Brasil ganhasse bem, dando gosto.


Como é com o nosso time?? Entendeu?


Legal, ganhou, beleza! Mas quando joga bem é mais legal. E a gente via os treinos e não se convencia.  Não eram só os jogos.


E eu fui. Eu nunca tinha ido a um treino de seleção. É...


PAINEL


 E logo em uma Copa.


SONINHA


Caramba! É muito legal! É muito legal.


E não é que eu estava lá vendo o treino e achando uma meeerda! E eu pensava, eu não acredito que eu estou aqui, vendo um treino da seleção brasileiro e não consigo prestar atenção! Porque era tão fraco o treino, que se você se distraísse, você ficava conversando com o cara do lado.


PAINEL


Mas, ruim por falta de motivação ou o Parreira era...


SONINHA


Fraco, pela maneira que ele era conduzido mesmo. E, assim, num era fraco porque puxava pouco dos atletas fisicamente. Não. Acho que isso não foi mal feito. Realmente num podia cobrar demais dos caras nesse ponto da temporada. Tudo bem. Esse não era o problema. O problema era o que e como treinava. E não se treinava uma mísera situação de jogo.


Uma coisa muito impressionante. Não era o rachão, quer dizer, tinha o rachão também, mas rachão não é treino. Rachão é...


PAINEL


É mais lazer...


SONINHA


É... Antes do rachão, era assim: o Parreira escalava o time e botava para treinar naquele campo reduzido, cujo o único objetivo daquela atividade era tocar a bola rapidamente e se movimentar. Então, os jogares ficavam ali naquele espacinho tocando bola e se movimentando. “Olha agora é um toque só. Agora, é dois”. E tocando bola e se movimentando, e tocando bola e se movimentando. Não tinha nenhum sentido tático, sabe?


Ou de reproduzir uma situação de jogo. E se fosse uma parte só do treino tudo bem. Mas aí terminava aquilo e você pensava: -agora, vai! Não! Aí, vinha uma coisa de chute, cobrança de falta, levantamento na área para cabeceio, uma jogadinha muito bê-á-bá, assim, sabe? Duas fileiras de jogadores, um pivô, esses aqui tocam para o pivô que levanta na área e esse aqui toca de primeira, sabe? Uma coisa, assim, que também não reproduz uma situação de jogo.


Aí uma hora eu perguntei para o Tostão, eu pensei, vai ver seleção é assim, não tem comparação com o um treino de time.


- Tostão, é assim mesmo?


E ele falou: “não é assim. Não é assim! O Treino é ruim mesmo. Você tem razão!”. E ele falou que os treinos do Felipão, na Ásia, na Copa de 2002, e o Felipão não é o do tipo estrategista, o perfil do Felipão é outro. Mas, que o treino do Felipão, era melhor. Era mais tático. Era mais aproveitável do que o do Parreira.


Pó! Uma hora, quando ele ensaiou uma jogada, ele criava uma situação de ataque contra a defesa, aí ele escalava na zaga... Ele colocava sempre seis contra seis. Só laterais, meias e atacantes. Aí, ele colocava na zaga de quem defende o Luizão e o Juan. E na outra zaga o Lúcio e o Cris. Que não era a zaga titular! Sabe coisa que você não entende? Por que que na hora que ele vai treinar uma jogada ele não treina a zaga titular?? E corrige, fala “não, pera aí, você saiu ele fica. Você vai para cá ele vai para cá”.


Então, era muito... A impressão era muito ruim. E a derrota do Brasil não foi uma surpresa. Ninguém ficou chocado, arrasado, meu Deus que tragédia. Tava na cara...


PAINEL


Foi crônica de uma tragédia anunciada...


SONINHA


... Que uma hora ia acontecer isso. Mas eu lembro disso, de perguntar para o Tostão “mas é assim mesmo? Sou eu?”.


PAINEL


Você acha que a Seleção é reflexo do País?


SONINHA


Não em todas as coisas. Não é um espelho perfeito. Mas é o reflexo de muitas coisas sim.
É... Por exemplo, de um tipo de ambição, né? Que leva as pessoas a cuidarem de si mesmas. E da sua vida.


É essa coisa do jogador de futebol aceitar uma boa proposta financeira porque ele fala “eu tenho que pensar em mim e na minha família”. E vai embora, entendeu? Então, não é que eu acho que os jogadores tinham que ficar todos aqui e recusar uma proposta de milhões de dólares para jogar o Campeonato Paulista, entendeu? Não é isso. Não estou querendo que eles sejam franciscanos a este ponto. Mas isso é simbólico, o cara pensa onde pode chegar profissionalmente para se garantir.


Então, infelizmente, esse é um traço nosso que você pode transformar para outras áreas. Nos Estados Unidos, que talvez não seja o melhor exemplo do mundo de solidariedade, o cara se forma e se torna um profissional bem sucedido, ele vai lá e doa um prédio para a Universidade. Doa um laboratório, doa 100 bolsas. Então, mesmo lá que tem essa cultura do “self-made”, do você se esforça você consegue você merece, ainda assim o cara vai lá e devolve, sabe? E compartilha.


PAINEL


Isso quando não deixa a fortuna inteira, quando está perto de morrer. Há pouco tempo aconteceu um caso desses... 


SONINHA


... Até porque valoriza o “self-made”, então, ele quer que os filhos construam. Não que herdem.


PAINEL


É a ética protestante.


SONINHA


É a ética protestante.


Agora, na Seleção, tem um pouco isso também os caras que vão cuidar da sua carreira, da sua vida. E aí se reúnem para defender a Seleção que é uma atividade à parte. Ao mesmo tempo em que é uma atividade profissional, não é como eles ganham a vida. É meio contraditório.


PAINEL


Deixa eu pegar uma carona extra-pauta aqui na pergunta da Camila: você crê, pode ser divagação, viagem, que a Seleção Brasileira, o comportamento dela, reflete –se é que isso seria possível- exatamente o estágio do capitalismo no qual o Brasil se encontra?


SONINHA


Ah! É uma boa interpretação. Acho que sim. E, até, tem um pouco de mérito no fato dos caras estarem lá, lógico que tem, pelo amor de Deus. O fato de o cara ser um jogador profissional, já é resultado do mérito, do esforço, no mínimo. Porque sempre tem aquele papo de “na minha rua tinha um moleque que jogava muito melhor do que esses e não chegou lá”. Não chegou lá porque, em algum momento, ele desistiu.


PAINEL


Na minha rua tinha: eu (Olavo)!


SONINHA


(risos)


É. Mas é isso assim. E uma grande dose de sorte. Sabe? De acaso.


PAINEL


E as panelinhas no meio do caminho?


SONINHA


Favoráveis. O Cara deu sorte. Então, hoje em dia ele é super bem sucedido na carreira dele, ele tá no topo, é referência, mas o caminho dele só serve de exemplo até a página 10. O resto, ele se deu bem. Ele se deu bem, ele teve sorte, ele ganha muito bem.


E até aquela coisa da declaração do Thierry Henri, se esses caras não tivessem o futebol, seriam muito mais parecidos com os outros, que vêm do mesmo lugar que eles, que moram onde eles moravam. Então, eles ganharam na loteria.


PAINEL


Um “up-grade” deles, lá.


SONINHA


É... Ganharam na loteria, não no sentido de que caiu do céu. Não caiu do céu. Os caras se esforçaram muito para chegar nisso.  Mas é para muitos poucos assim. A sorte agraciou a esses e eles se deram bem.


Enquanto isso, milhões de outros iguais a eles não tiveram a mesma oportunidade e se deram mal.


Então, a pirâmide do futebol é super simbólica desse nosso capitalismo desajeitado. Que não oferece oportunidades iguais para todas as pessoas, e o mais esforçado e o mais capacitados vencem. Não, as oportunidades são muito diferentes. O cara é capaz de um esforço sobre humano até que apareça a sorte que ele procura. É o cara que chega lá.


PAINEL


Agora, voltando a este assunto da Copa, você ficou um pouco irritada com as pessoas te criticando porque você tirou a licença não-remunerada da Câmara, deu para ver na sua resposta no seu blog para o pessoal que entrou e te perguntou, questionou, tanto aqui quanto os seus eleitores, que alguns ficaram chateados. Isso te incomodou?


SONINHA


Olha, o que me incomoda, não é a discordância e a crítica. Sinceramente. O cara que me pergunta “e aí? Você está recebendo como vereadora e está aí na Alemanha?” Eu falo “não. Claro que não. Não estou recebendo como vereadora. Eu tirei licença e me afastei, eu não sou vereadora aqui. Eu estou trabalhando para a TV.”.


E aí ele diz, como aconteceu várias vezes, o cara fala: “você me desculpa, mesmo não remunerada eu acho que você não devia ter feito isso. Você tinha que honrar o seu mandato que é a coisa mais importante, do que cobrir a Copa do Mundo”.


Pô! Normal. O cara tem a sua opinião, ele tem direito, eu posso discordar da opinião dele, se eu concordasse com ele eu não ia para a Copa. Fui porque eu discordo, não acho que por causa de 30 dias ausente que eu não deveria nem ser vereadora, como alguns disseram. Não! Por causa de 30 dias eu não vou nem ser vereadora? Imagina!?! Claro que não. Mas tudo bem, faz parte.


O que me tira do sério é o cara que fala assim: “aeê! Essa safada! Só podia ser petista mesmo. Sem vergonha do caramba. Tá aí na Alemanha às custas do erário, né? Bonito! Passeando com o dinheiro público”. E, ou seja, não importa o que você diga. Não adianta você responder, argumentar.


PAINEL


A crítica que não é política.


SONINHA


É quando não é nem crítica. É quando é ataque. Criticar, o cara tem todo o direito de criticar. O cara pode falar “desculpa, discordo, acho que você não devia, acho que você está sendo irresponsável”. Acontece.


PAINEL


Têm alguns que até falam ”eu te admiro, mas eu gostaria de saber por que você está indo cobrir a Copa”. E na sua resposta, onde parecia meio irritada, você falava: “queria ver se estão cobrando os outros que nem aparecem na Câmara, tanto quanto estão pegando no meu pé!”.


SONINHA


Mas é uma loucura. A gente vive implorando para as pessoas prestarem atenção no que acontece aqui na Câmara. Implorando atenção. Não é para mostrar o meu lindo trabalho, mas mostrando até quando você não consegue trabalhar, sabe? E aí ninguém vem, sabe? Você chama, você manda e-mail, você pede assinatura, apoio, presença, qualquer coisa. E ninguém vem. Aí justamente quando eu não estou sendo vereadora as pessoas vêm me cobrar, como vereadora. É uma loucura. Enquanto isso a Câmara aqui sem ninguém olhar. Vocês estão tomando conta de mim, eu não sou vereadora agora, tem 55 vereadores em ação nesse momento. Alguns assíduos, outros ausentes. Assiduidade, só, não é prova de um bom trabalho. O cara pode ser super assíduo e tomar mil atitudes nocivas ao interesse público, entendeu?


Então, essa avaliação preguiçosa é que me mata. Dá trabalho fazer avaliação para valer. Não adianta nem só ver se o cara estava presente na sessão plenária ou não. E  nem mesmo se ele votou contra ou a favor. Mas por quê? Porque que ele votou contra, sabe? Por que ele votou a favor? Às vezes o cara vota a favor de um bom projeto por interesses escusos. Você entende?


Então dá trabalho fazer uma avaliação criteriosa.  E as pessoas, preguiçosamente, vêm pegar no meu pé, no blog, quando eu nem vereadora estou sendo. Estou afastada 30 dias na Alemanha. Agora eu estou aqui e tem reunião da Frente Parlamentar da Agenda 21 e o diabo e cadê todo mundo?


É incrível. Normalmente, eu não me abalaria tanto. Mas, quando você está cansada, dorme pouco, trabalha muito, longe da família, longe de tudo e indignado com a política -que é o meu caso, entendeu?-, e as pessoas ainda vêm ficar é... Pegando no meu pé, sem nem topar discutir. Nem querer saber, pouco importando a informação correta...


PAINEL


... É um ataque gratuito...


SONINHA


É difícil agüentar.


PAINEL


Soninha é óbvio que existe um preconceito contra você, não só pelo fato de você ser mulher, mas, também, pelas suas posturas... É...


SONINHA


Heterodoxas?


PAINEL


Pessoais, heterodoxas, pela sua opção política, isso é evidente. Onde você tem encontrado mais preconceito? É na sua atuação como vereadora ou lá no nicho machista do esporte, mais especificamente no futebol brasileiro?


SONINHA


Mas com certeza é por ser da política. E é isso, não é nem pela sua atuação como vereadora, as pessoas não querem nem saber da sua atuação como vereadora. Você é político, você provavelmente não presta ou certamente você não presta. Aí, é dose. Aí, num é porque eu sou mulher, porque eu tenho posturas heterodoxas. É o preconceito geral.


PAINEL


Pela própria condição.


SONINHA


É. O que é pior do que no futebol, eu acho. No futebol, tudo bem, tem aquela resistência inicial, as pessoas estranham ver mulher trabalhando na mídia esportiva e eu acho até muito natural. Em primeiro lugar, ainda não é comum mesmo. Um dia ser. Uma hora vai ser a coisa mais comum do mundo. Como hoje você tem dezenas de colunistas mulheres falando de política e economia.


PAINEL


E chefes de cozinha do sexo masculino e feminino...


SONINHA


É, e ninguém acha estranho. As pessoas discutem se concordam ou discordam da Miriam Leitão e não porque ela é mulher. Então, eu acho que é uma questão de tempo. A gente ainda vai chegar nisso. As pessoas vão ver as comentaristas e vão gostar não gostar, concordar, discordar sem nem levar em conta o fato de ser mulher.


Mas, na política é pior, né? É de alto a baixo. E as pessoas também têm motivo para desconfiar, é lógico que elas têm. Não é um preconceito inventado do nada. Mas como em todo preconceito, você tem que dar uma chance para os fatos. Para os fatos se apresentarem. E aí eu acho que tive muito mais chance como comentarista do que um político tem. Quais são as chances que um político tem, seja ele quem for, do partido que for, da esfera que for? Quais chances dão para ele, para ele mostrar o trabalho dele? Se você é um parlamentar, por exemplo, um entre tantos. A sua chance é muito pouca. Sendo comentarista de futebol, de um jeito,ou de outro, você está lá falando, você estar lá escrevendo e sua coluna sai. Na política, como você consegue provar que você é decente, cara?  É difícil, é difícil. Muito complicado.


PAINEL


Soninha, para qualquer pessoa com um mínimo de bom senso está cada vez mais difícil de explicar o planeta, os povos da Terra. Como budista, como você analisa a atual situação global? E é possível não enfocar, quando você analisa, à partir da sua ótica religiosa, no caso o budismo.


SONINHA


Ah! Muito bom muito interessante. Aliás, um pouco religião é isso, é visão de mundo, é como você explica ou tenta explicar as coisas do mundo. Não é à toa que quando rola um tsunami as pessoas se voltam para os seus líderes religiosos e perguntam por quê??? Sabe? E agora? E agora? Qual é o sentido disso?


Ou que o Papa vai visitar um campo de concentração e diz: “Deus, onde estavas?”. Então, religião é um pouco isso. È um pouco seu código de conduta e um pouco a explicação do mundo. A Explicação de todas as coisas. O budismo tem algumas coisas que se aplicam ao mundo que vivemos, que são... Uma é: todo mundo quer ser feliz. Todo mundo. Toda forma de vida busca sua própria realização e felicidade, por mais primitiva que seja.


A idéia de felicidade de uma ameba é existir e se reproduzir. Mas, está lá. Ela tem mecanismo de defesa de reprodução, sustentação etc. e tal. E todo mundo sai atrás da sua própria felicidade atribuindo a felicidade a fatores externos sempre, cada um tem o seu. Dinheiro, poder, amor, o que seja, relacionamento, filhos, seja lá qual for. Mas, todo mundo tem seus motivos de felicidade e os mecanismos que acham que vão trazê-la. E tá todo mundo procurando.


Cada um por si. Todo mundo crente que tem razão. E nessa busca acabam fazendo coisas totalmente contraproducentes que não vão trazer felicidade, nem para elas mesmas, e nem para mais ninguém. Muito pelo contrário, na verdade querendo ser felizes. Causando sofrimento para si mesmo e para as outras pessoas. Então, nesse ponto você olha para o Bush para o Bin Laden, para o Saddan, sabe? Para Hisbollah, para Israel seja para quem for, todo mundo tá crente que tem razão, tá crente que está fazendo o certo para garantir a felicidade sua e dos seus, e tá todo mundo fazendo tudo errado. Nunca vai dar certo.


Então, por um lado, é isso. Estamos meio que fadados ao sofrimento enquanto agirmos dessa forma. Não é que não tem outro jeito, mas agindo dessa forma, não tende; cada um procurando a sua felicidade não vai rolar, não vai rolar. Não funciona nem num casamento nem numa relação entre duas pessoas, nem numa relação entre dois milhões. Então, o que você precisa? Mudar o foco, mudar a postura, mudar a tua atitude, não sair procurando o seu bem individual, simplesmente porque é impossível. Hoje, não existe, não tem como cada um procurar o seu bem individual e o conseguirmos. Então, é aquela coisa de verso de música até, né?: “é impossível ser feliz sozinho”.


Não tem como... É assim que explica, todo mundo imerso em ignorância, mas sempre com a possibilidade, a partir do momento em que cai a ficha, que tem um momento de lucidez, de sabedoria, que você consegue agir de outro jeito e aí, sabe, é desde os grandes Martin Luther King e Mahatma Gandhi da vida, até o cidadão, né?, comum, que muda o jeito dele de viver e faz toda a diferença.


PAINEL


Agora, por exemplo, numa análise aqui pra São Paulo, em que existe o PCC, como é que você analisa o sistema penitenciário, o que você acha que deveria ser feito: mudança na legislação? Mudança no sistema? O que você acha que poderia ser feito?


SONINHA


A gente sempre pode discutir um monte de coisa na mudança de legislação, mas a nossa legislação não é tão ruim quanto a prática. Claro que tem problemas, mas, também, se ao menos a lei existisse, sabe, de verdade? Então, tem alguns erros de conceito assim... A gente precisava sentar e discutir muito seriamente para que serve a prisão, que tem várias possibilidades: a prisão serve pra tirar o cara de circulação e assim nos proteger, quer dizer, enquanto ele está encarcerado ele não está causando mal, então serve pra isso? Claro que até uma finalidade inicial: tira esse cara de circulação, esse cara sai matando, entendeu? Mas uma vez encarcerado...


 É só isso? É só tirar de circulação? Então todas as prisões deviam ser perpétuas, sabe? Não... O cara vai sair, e aí?! Então serve pra quê? É um castigo? Também é, não tem como negar que é uma punição, “amigo você infringiu as regras da sociedade”... Não pode ficar por isso mesmo. Agora, a prisão não é o único castigo possível, né? Óbvio que têm outras maneiras, proporcionais ao tamanho do erro que o cara cometeu. Isso, na prática, é muito pouco realizado.


Mesmo esse isolamento “ah tira o cara de circulação para ele parar de nos fazer mal”, é mal realizado, porque o cara tem celular e comanda o crime de dentro da cadeia, e a última, né?, a que seria a mais difícil, a mais complexa das funções de uma prisão que é ressocializar, aliás, não é nem re-educar, é educar, é preparar o cara pro convívio em sociedade, isso então é totalmente fictício.


Então, a gente tem problemas super complexos, a gente fabrica criminoso nesse mundo, a gente fabrica criminoso em massa, assim, dá todas as condições pra isso, mas coisas muito práticas que é um absurdo que tenham chegado ao ponto que chegaram, como um estado que não conseguem impedir um bandido de usar um celular na cadeia é um estado doente, muito falido. Assim, se corrupção é difícil de combater, mas se você nem tenta de verdade, não vai rolar.


PAINEL


Até porque essas escutas aparecem depois, né?...


SONINHA


Sim, tem as escutas, né? É assim, mas tem O problema sério do Judiciário também, né?... Muito grave, muito sério, que diz respeito tanto à Febem, que não é sistema penitenciário, não deveria ser e, na prática, é quase isso. E as penitenciárias propriamente ditas, assim, porque tem muita gente aguardando julgamento, pelo amor de Deus! Você tem cara detido há mais tempo do que a pena a que ele faria jus se fosse condenado, sabe? Você tem muito pouca aplicação de penas alternativas efetivas.


Então, você tem uma morosidade dos processos, você tem critérios pouco claros e muito diferentes e você tem, às vezes, o uso mesmo da Justiça como instrumento de pressão contra o Executivo. Isso é uma coisa abominável, entendeu? Então, não, vamos lotar a Febem de infratores que é pra ver se eles tomam uma atitude e dão um jeito nisso; eles o governo. Não, peraí, não é assim que se deve avaliar um caso, pelo amor de Deus... Sabe? “Não é problema do Executivo o que eles fazem com a superlotação, vamos encher de gente mesmo que é pra...”, não, peraí, não é esse seu papel como juiz. Sabe, essas coisas acontecem na prática, então tem coisas gravíssimas, mas tem coisas muito simples tipo superlotação e celular, que tinham que ser atacadas com um pouco mais de convicção.


PAINEL


Soninha, recebendo os e-mails que a tua assessoria produz, muito bons por sinal, muito interessantes, a gente depreende com clareza que você luta, você e tua equipe, vocês todos, numa frente muito ampla, são muitos assuntos, muito difíceis e vocês atacam coisas que tem gente aí que com 5 mandatos nunca sonhou em fazer. Agora, especificamente na questão da cultura, quais que são os teus maiores anseios e os anseios da tua equipe?


SONINHA


O básico é facilitar o acesso à possibilidade de produzir e consumir cultura. Os termos “produção e consumo” me desagradam um pouco, mas é o jeito mais fácil de referir ao que a gente pretende fazer. Ou seja, você criar condições para que as pessoas escrevam, leiam, cantem, toquem um instrumento, cantem, façam uma peça de teatro, façam um vídeo, um filme, jornal, fanzine, e o acesso ao consumo, à possibilidade de ver um filme, ver uma peça de teatro.


Então, você tem que ter um investimento em estrutura e a gente briga muito por isso, né? E aí, a briga vai indo pro Legislativo, você tem muito essa possibilidade, você briga por orçamento, você briga por emenda, emenda é o detalhe né? Mas, por uma diretriz orçamentária mesmo, que dê mais atenção pra cultura, que a cultura ocupe um espaço maior no orçamento da cidade, e você briga cotidianamente assim, às vezes é pra não fechar uma casa de cultura, às vezes é abrir uma biblioteca, pra aparelhar uma biblioteca, às vezes é para consertar o banheiro da biblioteca, sabe?,


Uma coisa tão maltratada, tão dilapidada, mas circula em torno dessas duas idéias assim e é importante dizer que a gente vai citando acesso à possibilidade de produzir cultura, porque é um pouco diferente do conceito -que não é de todo errado-, mas ele é, como se diz, “desfalcado”, e a gente têm que levar a cultura pras pessoas, você leva cultura pra pessoa consumir simplesmente. Então, é muito legal levar uma orquestra pra tocar no C.E.U. na periferia, ou trazer as pessoas pro Ibirapuera pra ver uma apresentação de música clássica.


É muito legal, é muito importante, mas não é só isso. O cara tem que ter o direito também de tocar violino se ele quiser, ou de tocar berimbau também se ele quiser, sem ter esse conceito de que a cultura de qualidade é aquela que nos chamamos de qualidade, sabe? Então a gente briga muito por aí, sabe...


Nota: Quando Soninha fala em “...CEU na periferia”, ela está se referindo ao projeto criado durante a gestão da ex-prefeita Marta Suplicy (PT-SP), o C.E.U. (Centro Educacional Unificado), que são unidades públicas municipais de ensino dotadas de piscinas, teatros, cinema, quadras poli esportivas, bibliotecas, centro de informática etc.


Após paralisação de quase um ano, o ex-prefeito José Serra (PSDB-SP) retomou o projeto e novas unidades passaram a ser construídas, com pequenas alterações no projeto original.


PAINEL


Em essência, Soninha, parece que isso seria a questão da democratização do acesso, da produção, da distribuição, da divulgação etc. Lá de longe, parece que essa experiência do C.E.U. aqui é muito interessante, tem locais onde 80% das pessoas nunca haviam ido ao cinema, 100% ao teatro,então, de longe, lá da Baixada Santista, parece que teve muito gosto ruim em cima disso. Agora, me parece que o projeto era tão bom que um ano depois foi retomado e, antes disso, só se falava de quanto custa e não se fala “pô, é um investimento que tá se fazendo no ser humano!”. Como é que você, independentemente de ser do partido da ex-prefeita, avalia essa, que para mim, é uma revolução feita pelo C.E.U.?


SONINHA


Cara, eu sempre fui tão fanática pelo C.E.U., e sempre defendi tanto que eu cansei de dizer, quando eu era candidata, que se o C.E.U. fosse obra do Maluf eu aplaudiria do mesmo jeito, entendeu? E eu também tive má vontade em relação ao C.E.U.quando ele foi anunciado... Por quê?!


Porque eu conheci o C.E.U. pelo jornal, e o jornal falava mal do C.E.U.. Entendeu? Colocava nesses termos: “Quanto custa o C.E.U.? Pô, com esse dinheiro dava para...”. E se você pensa nesses termos, então sai caro mesmo. Acontece que não é esse o cálculo que você tem que fazer, entendeu? Se tá falando de vaga em escola, e tem vaga em escola, porque às vezes parece até que o C.E.U. é tudo menos escola... Não! É escola, é creche, é educação infantil, e é ensino fundamental, além de ter, à noite, turma de jovem/adulto.


Então, é escola sim, com milhares de vagas. Milhares de vagas foram criadas no C.E.U.. Só que não é só escola. Ou não é a escola mais ou menos como a gente oferece na periferia, só pra dizer que se tiver aula já está bom demais. Claro que não, cara! Não é se tiver aula de matemática e geografia que já tá bom demais. Educação é muito mais do que isso.


Pra mim cultura é parte fundamental do processo educativo, esporte é parte fundamental do processo educativo. As boas escolas particulares têm isso, investem muito nisso, entendeu?, nesse enriquecimento. Na periferia, você precisa muito mais, porque o aluno da escola particular ainda tem dinheiro pra ir ao shopping, sabe?, tem TV a cabo em casa, e na periferia o cara não tem isso.


Então, ou você oferece na escola ou ele não vai ter acesso em lugar nenhum Então, o C.E.U. é uma revolução na relação das pessoas com o espaço público, com o poder público, porque é o poder público dando um produto de topo de linha, sabe?, de primeira qualidade, não uma coisinha mais ou menos já que vocês não têm nada, sabe?


Uma outra relação com o espaço educativo com a escola, uma relação super de mão dupla, as pessoas usam o biblioteca do C.E.U.
No dia que eu fui ao C.E.U. da Zona Norte, aí há 2 meses, tinha de tudo na biblioteca do C.E.U., tinha a vó de uma aluna pegando uma revista e tinha um agente de saúde aproveitando ali, um agente do programa saúde da família, aproveitando o sossego da biblioteca pra passar a limpo a planilha de visita, sabe? Então é uma biblioteca dentro de uma escola que é um espaço de convivência, isso é perfeito assim.


Então, eu sempre fui fanática defensora dos C.E.U.s. Quando eu me elegi, na primeira oportunidade que eu tive, eu pedi uma audiência com o Serra para falar de 3 ou 4 assuntos e o C.E.U. era um dos assuntos da pauta. Eu tinha umas coisas urgentes pra resolver, uns problemas graves assim de pagamentos, de projetos, umas coisas assim e eu pedi uma audiência sem saber se ele ia me conceder a audiência ou não, mas eu tô aqui, eu sou vereadora, eu quero tentar tudo que eu puder e foi muito legal que ele me deu ouvidos, nessa e em 3, 4, 5 outras questões, desde o show do Pearl Jam no Pacaembu, Tendal da Lapa e essa do C.E.U. e outras coisas que ele pretendia acabar, ele manteve.


Ele se deixou convencer, e voltou atrás em relação ao conceito que ele tinha do C.E.U., de que o C.E.U. era caro. Ele não falava isso como ataque de campanha simplesmente, ele realmente acreditava nisso, ele realmente acreditava que o C.E.U. era caro e eu fiz um esforço descomunal pra provar pra ele que não era caro e ele se deixou convencer e encomendou um levantamento dos terrenos que a Marta tinha deixado e que já tavam mais em condições, realmente, de receber a obra, questão de desapropriação, impacto ambiental, essas coisas todas... E, em princípio, ele determinou que fossem feitos três novos C.E.U., mas aí eles reformularam o projeto, tiraram algumas coisas, que eu acho aceitáveis, assim, eram três piscinas são duas, entre outras coisas. Tinha elevador, e agora não tem, é térreo, então o projeto barateou de um jeito que ele pode mandar fazer 5 ao invés de 3. Então, eu tenho maior orgulho disso, de ter ajudado a descumprir uma promessa de campanha.


PAINEL


Falando de cultura, você fez faculdade cinema... E ai, você não queria trabalhar em televisão, acabou conseguindo um emprego, tomou gosto pela coisa... Abandonou esse projeto? A Marina Person, sua ex-colega da MTV ,ela é cineasta, vocês nunca pensaram em fazer algo juntas?


SONINHA


Ainda na época da faculdade, a gente fez parte de uma mesma cooperativa. A gente fundou uma cooperativa de cinema porque naquela época, cara, o recém-empossado Collor presidente...


PAINEL


Acabando com a Embrafilme logo de cara...


SONINHA


Acabou com a Embrafilme... Então, tudo bem, a Embrafilme tinha problemas, distorções imensas, agora, era o caso de fazer a Embrafilme funcionar direito, né?, uma agência de fomento, não acabar, não extinguir... Então, foi um desastre, assim, a perspectiva antes já não era boa, você não se forma em cinema achando que vai ter a maior facilidade para trabalhar.


Mas, ai piorou de vez, e a gente chegou à conclusão que não tem um tipo de emprego, que é tudo empreendimento individual mesmo, que seja coletivo, sabe? Então a gente chegou a fazer um curta-metragem e meio nessa forma de cooperativa, junta os recursos de todo mundo, cada um usa suas melhores qualidades e tenta realizar a produção e depois eu acabei desistindo de cinema porque não dá sabe...


É como eu desisti de jogar basquete, entendeu? Não tem a menor condição, adoraria, talvez um dia eu faça um filme, talvez um dia eu termine os dois curtas que eu filmei e nunca finalizei – o que é uma pouca-vergonha, maior não tem... E eu vivo escrevendo roteiro, ou sinopse, ai, o que foi que eu pensei outro dia? Outro dia eu pensei em fazer um filme... Caramba... Pô... Esses dias, mas assim... Esse também não vai sair... Eu vi alguma coisa no noticiário e falei “já pensou? Pegar um personagem assim e  mostrar?”...


É uma coisa meio que de deslocado, assim, sabe?, as pessoas que contrariavam completamente o estereótipo, o contexto, tudo... Qualquer coisa a ver com Líbano e Israel de repente... Já pensou um filme que pegasse essas duas pessoas, mas sem ter nada a ver com a guerra e tal, mas a guerra tivesse ali, na vida delas? No supermercado, e aparecesse de alguma forma? Então, volta-e- meia eu tenho idéias, mas não vou filmar nunca mais na minha vida...


PAINEL


Soninha, você protagonizou, há pouco tempo, um episódio que envolveu drogas e no qual a nossa gloriosa imprensa se portou, mais uma vez, de uma maneira lastimável...


SONINHA


Uma parte dela... Porque à uma outra parte eu sou bem grata, na verdade...


PAINEL


Essa parcela que sempre vai pra esse jornalismo “marronzista” como diria o Odorico (Paraguassú –personagem de Paulo Grancindo na novela da Rede Globo, “O Bem-Amado”, de Dias Gomes) Tem algum problema pra você em abordar esse assunto?


SONINHA


Não nenhum problema. É engraçado ,assim, como você falou “ah, você se envolveu numa polêmica envolvendo drogas”... É isso mesmo. Mas é muito louco que isso não seja tratado, louco, não é significativo que ninguém trate isso como sendo uma polêmica envolvendo a legislação, né? Porque é disso que se trata... Esse é motivo inicial da polêmica. Eu só concordei em admitir que eu fumava porque eu achei que era, acho ainda, que é impossível discutir honestamente a legislação anti-drogas sem, no mínimo, a gente partir dos fatos reais.


Não tem cabimento! É que nem aborto. Na questão do aborto, já se evoluiu nesse sentido. As pessoas discutem aborto admitindo que milhões de mulheres fazem aborto. Pelo menos isso, né?


E que as ricas fazem no consultório bacana e as pobres fazem no banheiro. Mas quando se fala de drogas, ainda não. Parece que droga, maconha, cocaína, fazem parte ali de um gueto, sabe? E pra combater esse gueto é importante manter a lei exatamente como ela tá. Não, gente, peraí, vamo falar sério sobre quem fuma quem cheira quem é, o que faz, como é, entendeu?


Vamo falar sério sobre o que é ser usuário e ser usuário e dependente, né?... O usuário eventual e o uso abusivo, compulsivo, sabe?! Então, foi por isso que eu topei admitir que eu fumava, porque eu acho que a gente tem que falar as coisas de verdade, ou a discussão sobre a lei não vai evoluir nunca. Aí, a (revista) Época escolheu fazer aquela capa super favorável ao erro, né? Porque as pessoas que viram aquela capa entenderam errado...


PAINEL


Era pra desmistificar...


SONINHA


Exatamente! Então, é compreensível que muita gente tenha visto aquela capa, não viu mais nada e falou “do que essa maconheira tá se gabando?”, entendeu? Mas, quando eu digo que eu fui... E a (TV) Cultura que achou melhor me mandar embora, e foi a Cultura que acabou, no fim,... Foi como se ela confirmasse a leitura errada da capa.


PAINEL


Endossou aquilo.


SONINHA


Endossou, exatamente!


PAINEL


Lamentável...


SONINHA


Mas ai, na hora em que a Cultura me mandou embora, o mundo inteiro me chamou pra falar desse assunto. A Cultura não quis mais que eu falasse de nada. E aí, meu, tudo quanto é veículo impresso, rádio, TV, internet, aberto, fechado, grande, pequeno, católico, evangélico, o mundo inteiro me chamou pra fazer um debate sobre mídia, droga, legislação, ética, e foi muito louco, assim. Eu fui num programa da polícia militar na (TV) Rede Vida, sabe? Eu fui no “Fala...” Como que chama aquele de madrugada da (TV) Record?


PAINEL


“Fala Que Eu Te Escuto?


SONINHA


 “Fala Que Eu Te Escuto”. Eles foram à minha casa gravar uma entrevista comigo, sabe? O Fantástico foi na minha casa e um jornal do Japão me ligou, sabe?! É sério, é sério, então, sabe?, eu não posso falar mal da mídia toda...


Um preferiu fazer escândalo a debate, o outro preferiu manter as aparências a debater, os outros todos, de algum jeito, puseram o assunto em pauta: ou falaram comigo diretamente ou convidaram outras pessoas pra opinar então eu lembro, por exemplo, do (Cláudio) Lembo (atual governador do estado de São Paulo, do PFL), tenho um milhão e meio de diferenças com o Cláudio Lembo, né? Óbvio... Mas ele escreveu no JT (Jornal da Tarde, do Grupo Estado) criticando a minha demissão, ou na Folha (de São Paulo, jornal do Grupo Folha da Manhã)... Enfim... Ele falou “olha, discordo do que ela disse, mas a Cultura mandar embora desse jeito, tá completamente equivocado”. Eu achei incrível ele se dar a esse trabalho e o jornal dar esse espaço pra ele dizer isso, um cara visto como conservador, do PFL, de quem ninguém esperaria uma declaração assim.


PAINEL


Engraçado é que, às vezes, as pessoas que tem essas posturas conservadoras acabam discutindo-as em torno de vários tubos de whisky, e ninguém aborda o álcool como uma droga também...


SONINHA


É... Ou anfetamina, ou calmante, entendeu? E, às vezes, é má vontade mesmo, às vezes é falta de informação, as pessoas não sabem do que tão falando, não admitem, assim, o fato. Você vê muita gente super séria, super bem intencionada que diz “não, o traficante é que é o vilão... O usuário é um coitadinho que precisa de tratamento...”. E não, quem precisa de tratamento é quem tá doente. E nem todo usuário está doente, né?!


PAINEL


Soninha, a gente baixou a bola agora ou subiu, depende do ponto de vista, e começamos a falar de mídia... Por que a MTV é daquele jeito?


SONINHA


De que jeito, você diz?


PAINEL


Ficou desse jeito...


SONINHA


Ah, ficou desse jeito! Então vou te falar...  Aliás, é uma coisa que vale um milhão e meio de reflexões. A gente sempre fala de mídia, dos veículos, como se eles fossem poderes quase divinos, assim, né?


Tem gente lá dentro. Em qualquer mega-veículo monstruoso, tem gente lá dentro que faz a diferença. Então, você tinha na Globo, na ditadura na década de 70, gente fazendo o “Globo Repórter” de um jeito incrível, sabe?, libertário. Ou você ter um cara fazendo matéria sobre fome no sertão do nordeste, e botando o dedo no nariz dos coronéis e a reportagem especial dele passa no “Jornal Nacional”, entendeu?


Então, a MTV começou com uma proposta, que pra mim era super fútil, assim, sabe?! De “ah, produção... Música POP, sem maiores
compromissos...”. Aos poucos ela foi mudando, foi mudando por iniciativa das pessoas. Então, veio aquela preocupação de falar muito de Aids, muito de violência, né? De descobrir como tratar desse assunto no meio da programação, de como tratar desse assunto com o nosso público e, mesmo em relação à música, assim... Gente que trabalhava lá e queria aproveitar a MTV pra ser um espaço-linha, “olha, tudo isso aqui você já vê na Globo, no SBT, em tudo quanto é lugar, em todas as FM’s”, se na MTV não tiver isso, onde é que isso vai estar?


Então, enquanto eu trabalhava lá, havia uma turma, assim, abnegada em fazer da MTV uma puta coisa legal, significativa, sabe?, uma alternativa mesmo! Claro, vai tocar o sucesso, sempre vai, mas não só o sucesso, e eu acho que hoje em dia isso diminuiu muito.


Ela cresceu muito, tem pouca gente abnegada, ou menos gente, ou menos posições de que é possível reverter esse conformismo, não sei, acho que cresceu demais, se acomodou um pouco, gostou do sucesso...


PAINEL


Você ainda vê originalidade ou senso crítico lá? Você voltaria a trabalhar lá, como ela é hoje em dia?


SONINHA


Ah, se eu ou voltar a trabalhar lá ou trabalhar em qualquer outra emissora, ia depender, basicamente, de: “pra fazer o quê? E com qual liberdade?”. E aí, como é que você se assegura disso, como é que você se certifica?”. Eu descobri que é vendo com quem você vai trabalhar, quem vai ser teu chefe, quem vai ser tua equipe. Então, ainda tem gente na MTV que eu adoro, que eu confio, que eu sei que é gente abnegada, revoltada...
 
Nota: Soninha interrompe para atender telefonema que a convocava para uma reunião que aconteceria em seguida.


Então, é isso, assim, eu ainda conheço muita gente revoltada, indignada, até para comparar com o meu partido, vai... Enquanto tem gente revoltada, abnegada, indignada, eu acho que é uma boa companhia. Então, se eu fosse trabalhar com essas pessoas na MTV, eu trabalharia super numa boa. Mas, se fosse no esquemão do sucessão, aí não teria o menor sentido.


PAINEL


Você falou agora do lance do partido, de gente revoltada, como é que você se viu, sendo filiada ao PT, enquanto uma parcela do mesmo se viu envolvida em tudo aquilo que foi, historicamente, combatido pelo partido?


SONINHA


Tem um sentimento básico, mas com dois motivos diferentes, né?... É muito ruim, muito difícil, é muito triste lidar com as acusações injustas, né?, com cinismo, com hipocrisia, com pessoas que são useiras e vezeiras das piores práticas e ficam fazendo cara de horror, entendeu? “Ai meu deus, como assim? Recursos não contabilizados de campanha”, uma puta cara-de-pau! Só que, muito pior que isso, isso sim é azar, a gente tem que lidar na vida, o tempo todo, com acusações injustas. Mas, quando as acusações são justas, essas é que fazem você quer morrer, né?


Quando as pessoas acusam e tem razão, quando realmente membros do partido ou do governo agem do jeito que a gente sempre condenou...E não vale... Pra primeira parte, vale dizer “pô, peraí... todo mundo sempre fez alianças espúrias baseadas em trocas de favores”. Mas, pra segunda parte, não vale, sabe?, em relação à acusação justa, num vale dizer “ah, é assim que é, sempre foi, não tem outro jeito”. Não vale, não é admissível, eu não aceito assim.


E não precisa nem... Sinceramente, assim, é anterior ao dinheiro que circulou desses empréstimos nebulosos, mal explicados, ou claramente criminosos. É governar fazendo aliança com quem não faz aliança a não ser na base da chantagem. É um desgosto entendeu?


Nota: Soninha interrompe, novamente, para atender a mais um telefonema que a convocava para uma reunião que aconteceria em seguida.


Então, é isso, assim, não dá pra... Já é difícil engolir a aliança com gente que não tem nada a ver com o que você defende. É impossível não saber que uma parte dessas alianças funciona na base da chantagem, da troca de favores, quer dizer, você tá numa arapuca sem saída... Por que o Roberto Jefferson resolveu falar?


Porque romperam com ele, sabe? Então se o que ele quis ele não teve, pronto! Agora, eu acho que, por isso tudo, assim, quem tem que sair do partido é quem agiu mal, é quem agiu errado. Enquanto eu tiver no partido, olhar pro partido e ainda tiver nele... É o que eu falei da MTV: enquanto houver gente abnegada, indignada, revoltada, eu acho que é bom continuar no partido, entendeu? Bom no sentido geral,mesmo, de fortalecer as instituições, porque se quando você tem uma diferença partidária e todo mundo entra no outro, entra no outro, entra no outro, você nunca vai ter o que você pode chamar de partido, com programa, com princípios. Mas, se chegar um hora que não tem ninguém dentro do partido indignado. Não tiver ninguém dentro do partido brigando pra que o partido aja corretamente, então não tem porque ficar lá, né?...


PAINEL


De todas as suas atividades profissionais, além de ser mãe e estar envolvida em todos os seus projetos sociais paralelos, você acha que você fica devendo em alguma delas, profissional ou extra?


SONINHA


Todas. Todas...


PAINEL


Você tem aquele sentimento de culpa de mulher moderna de ter milhões de afazeres?


SONINHA


Eu não fico me torturando de culpa. É frustrante lembrar que nem tudo que eu pensei que poderia estar fazendo agora como vereadora não dá certo. Eu pensei que eu ia ter muito mais tempo pra ver as coisas pessoalmente, pra ver os lugares. Hoje, na ESPN, fico muito menos tempo do que eu gostaria, eu vejo muito menos jogos do que eu gostaria, eu leio muito menos jornais do que eu gostaria...  Não tem como acompanhar futebol do jeito que eu acho que deveria acompanhar...


Não tem como. Eu vou muito menos a jogo de estádio do que eu ia antes. Mas eu tô fazendo outras coisas, Quarta à noite, eu tô numa reunião, é duro... E em casa, nem se fala... Minha casa, minha sala é uma zona... É uma zona... É igual ao escritório, aqui, vocês tão vendo...É deprimente... Não é muito salubre, eu vivo cercada de trabalho, de papéis...


PAINEL


E não te cobram? Marido, filhas, chefe?


SONINHA


Cobram, cobram... Mais do que chefe. Normalmente, quando é trabalho, eu me cobro, sou mais exigente comigo mesma do que qualquer um poderia ser. Então, eu me cobro mais do que eles... Mas, em casa, cobram, reclamam... A Júlia, principalmente, que é a mais nova, fica brava comigo, deixa recado no computador...


PAINEL


E ela tá bem agora né?!


SONINHA


Tá... Tá bem, sim... Ela faz exame uma vez por mês, fez um ontem,
Terça-feira, e conquistou mais uma liberdade: agora ela foi autorizada a usar piscina, que era uma coisa que ela não podia. Então, a cada mês ela conquista uma coisa nova... Tá indo bem, tá indo super bem...


Nota: Júlia, a filha mais nova de Soninha (e da qual Marcelo Terra Saula é o pai), teve diagnosticada, há quase três anos, uma leucemia mielóide aguda.


Das sete variações dessa doença, apenas uma não exige transplante de medula, justamente o de Júlia. Suas chances de cura, que seriam de 25% a 30% sem transplante, passaram para mais de 70%.


Soninha também tem duas outras filhas, com seu primeiro marido.


PAINEL


Legal... Então, Soninha, pra encerrar, Camille Claudel -de quem a gente gosta muito- tem uma frase, que, em meu péssimo francês, é mais ou menos assim: “eu sou cotidianamente... Todo dia, sou atormentada por qualquer coisa de ausente”. Hoje, no teu momento atual, do que você sente mais falta?!


SONINHA


Por mais que isso soe meio ego-centrado demais, da minha paciência, da minha disposição de agüentar, eu preciso adubar um pouco mais, sabe?  Porque não tem outro jeito... Como eu ando muito cansada e impaciente, eu desanimo fácil, e não pode, né? Então, não adianta eu esperar que os outros sejam mais compreensivos, que os outros se informem melhor, que os outros participem, que os outros me entendam... Sou eu que tenho que ter


mais paciência e disposição, então, pelo menos eu já caí na real e eu já lembrei que é disso que eu preciso, não posso ficar esperando apoio e compreensão. Tenho que fazer o que eu sei que tenho que fazer e pronto! Então, preciso ir mais ao meu templo budista -que é onde eu adubo, né?... Não é fazer apologia religiosa, mas as pessoas têm seus recursos... Tem gente que faz ioga, tem gente que corre, faz natação, então, no meu caso, o que funciona pra mim é a prática budista, o ensinamento, a meditação, que eu tô precisando reforçar.


PAINEL


Bom, então, em nome do PROGRAMA PAINEL, a gente lhe agradece muito, Soninha!


SONINHA


Ah, eu é que agradeço! E agradeço a paciência de quem ouviu até aqui...
Se eu não me estendesse tanto em cada resposta...


PAINEL


Imagina!


SONINHA


...Rolava de tudo mais!


PAINEL


Ainda bem que você se estendeu...


SONINHA


Ah, não é nada tão simples... A “relação da seleção brasileira com o estágio do nosso capitalismo”...


PAINEL


Risos gerais.


SONINHA


Boa, essa! Deixa eu pensar!


PAINEL


Valeu!


SONINHA


Valeu!

 
 
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