Entrevista
Entrevistado: 14 Bis
Entrevistador: Roberto Mohamed e Olavo Dáda
Data: 29-06-2006

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Nesses quase trinta anos de vôo, a banda 14 Bis tornou-se “cult” e conta com uma legião crescente e renovada de fiéis seguidores. Onde quer que o 14 Bis pouse (são mais de cem apresentações por ano), adolescentes estão mesclados a jovens senhoras e senhores –coisa que só os artistas com prestígio, e não apenas fama, são capazes de conquistar.


O ano de 2006 marca uma nova fase para a aeronave mais amada do Brasil: o mais que aguardado lançamento do primeiro DVD e um monte de novos projetos. E, sempre, em céu de brigadeiro.


As conversas foram conduzidas, em quase sua totalidade, pelo comandante do nosso PROGRAMA PAINEL, Roberto Mohamed, e aconteceram em duas etapas: na primeira, realizada no Teatro Coliseu de Santos-SP numa noite de Sexta-feira, dia 21 de junho de 2006, entrevistamos o trio Vermelho/Hely/Cláudio Venturini, logo após a passagem de som (são 17 minutos de áudio).


Na segunda, na manhã do Sábado seguinte à apresentação da banda, pegamos o Magrão “de jeito”, enquanto tomava seu café-da-manhã antes de embarcarem rumo a Santo André-SP, onde tocariam no SESC (são mais 30 minutos de papo).


A produção do PROGRAMA PAINEL muito agradece:


- a Carlos Valente, produtor local, e seu assistente Oliver (também baixista da banda Aliados 13);


- a Victor Moreira, produtor da banda, e ao Roninho e equipe técnica do 14 Bis;


- ao Brunetto e equipe do Teatro Coliseu de Santos e


- à equipe do Gonzaga Flat Service.


Nós fomos a ambos os encontros, no carro do Roberto Mohamed –e com o próprio.


As transcrições ficaram a cargo de Camila Oliveira e de mim mesmo (que fiz a edição do áudio no Sound Forge).


As fotos são de Camila Oliveira.


As Notas Explicativas são de autoria do Roberto Mohamed.


Boa diversão!


Saúde & Paz,


Olavo Dáda


PROGRAMA PAINEL


Bom, Vermelho, Cláudio, Hely... 14 Bis... Quando o Flávio (Venturini, irmão de Cláudio) deixou a banda, eu imaginei que a maior parte dos fãs da banda podem ter feito um paralelo com a saída do Peter Gabriel do Gênesis: e agora?


Ele era o compositor da maior parte do repertório da banda, vocalista, figura mais conhecida da banda e ficou um pergunta no ar “quem eles vão colocar no lugar?”.


E vocês arrumaram uma solução caseira, a exemplo do que aconteceu no próprio Gênesis. Você, Cláudio, assumiu o vocal –e com um timbre bem parecido com o do seu irmão-; o Vermelho, que era co-autor de grande parte do repertório, passou a também solar cantando e, pergunto -porque eu acho que já assisti vocês umas 4 ou 5 vezes depois da saída do Flávio-, vocês se sentem, hoje, mais unidos, e a pergunta é um pouco paradoxal, do que no tempo do Flávio? Ou essa saída dele baqueou vocês em algum momento e vocês pensaram até que a banda iria acabar?


CLAÚDIO VENTURINNI


Não! Que fosse acabar a gente sabia que não iria, tanto que a saída dele já tava programada há um ano antes... A gente até já sabia o dia em que ele ia sair... E a gente já tinha gravado um disco... A gente sabia, e se programou totalmente pra isso, inclusive, pra fazer essa modificação estrutural  de toda a banda.


Ao contrário, a gente pensou na sobrevivência da banda e fomos ajeitando tudo. Com o tempo, nós fomos preenchendo as lacunas que, porventura, pudessem vir a aparecer.
Algumas delas acontecem até hoje. Por exemplo: a gente usa alguns vocais eletrônicos no show –porque não tem condição de fazer a quarta voz-, o Flávio fazia a primeira, eu fazia a terceira, o Magrão fazia a segunda e o Vermelho as “walking voices”.


Então a gente usa uma voz eletrônica pra fazer essa quarta voz, pois na apresentação são quatro vozes abertas... Então, três caras... Fica difícil, não tem condições, mesmo... Só se fosse aquele cara, come é  que chama? Aquele que fazia duas notas com uma garganta só?... Só se fosse ele!


TODOS


O Bob MacFerrin... (risos)


CLÁUDIO


É... O Bob MacFerrin... Chamar o cara pra cantar... Mas, fora isso, a coisa até que foi boa pra banda, porque a gente passou a compor mais, né?


VERMELHO


Eu acho, também, que foi o seguinte: a gente colocou, já faz um tempo, o Sergião, que é um tecladista convidado e divide. Porque você fazer as partes de sintetizador e ao mesmo tempo tocar piano, é quase impossível, né?


E eu acho que tá muito bom, porque, também, a gente deixou aberto, assim... Por exemplo, ano que vem, provavelmente, nós vamos fazer um trabalho junto com o Flávio, tanto em termos de composição quanto em termos de curtir, sei lá, pelo simples prazer de tocar juntos de novo, sabe?


CLAÚDIO


É, tá programada uma gravação –depois que a gente fizer esse DVD que a gente tá produzindo agora, que é baseado nesse show que vai rolar aqui, hoje, que, com algumas modificações, vai ser o primeiro DVD da banda-, depois disso a gente vai fazer um com o Flávio.


PAINEL


Vocês têm... Bom, é um palpite... Talvez os dois que mais se apresentem ao vivo com um som mais pesado sejam vocês, Cláudio e Hely... Por que essa “filtragem” no trabalho de estúdio, em que o som é mais leve... Mais... Mais “Clube da Esquina”, mais 14 Bis?


CLÁUDIO


Ah, é fácil responder: é porque aqui ninguém mexe no meu volume, ninguém mexe no meu amplificador!


(risos gerais)


Aqui, quem mexe no volume do meu amplificador, sou eu... Então, não tem jeito (risos).


PAINEL


Vocês não têm vontade de fazer um trabalho mais pesado?


CLÁUDIO


Ó, eu sou metaleiro de nascença...  Eu vim cair aqui por acaso... (risos).


HELY


Eu acho que o 14 Bis é um grupo de estrada, né? A gente faz muito show, então essa característica pesa um pouco mais na mão, né?


PAINEL


Eu tô falando isso porque, por exemplo, no teu trabalho de bateria na “Página do Relâmpago Elétrico”, do Beto Guedes, você é bem pesado... Você é bem um baterista de rock, naquele disco... No qual, praticamente, todos vocês tocaram –menos o Cláudio. E você, Vermelho, uma vez disse pra mim, numa outra entrevista, em 1982 ou 1983, que a “Página do Relâmpago Elétrico” era o início de um grande projeto e que (gravadora) EMI voltou atrás... Aí, no ano seguinte, sai o disco do 14 Bis...


VERMELHO


É... Exatamente...


PAINEL


E se não houvesse essa “filtragem”, por exemplo, num disco ao vivo, vocês iriam soltar esse lado pesado...


CLÁUDIO


Basta ouvir o disco, de 1987, da saída do Flávio, que você vê inclusive isso que você tá falando: a bateria do Hely é muito mais pesado do que nos outros discos. É um som que eu prefiro... É um som mais cheio... Inclusive, o de guitarra, também...


Hoje em dia, a gente grava praticamente todos os nossos shows pra gente ouvir depois e pra se policiar, pra ver como é que estão as coisas... Eu gosto mais, eu prefiro o (som) ao vivo.


PAINEL


Vocês têm um lado instrumental... Nos discos da era do Flávio, os temas instrumentais eram, normalmente, músicas com 10, 8 minutos... E outro dia, ouvindo uma gravação de um show do Terço em Londrina, ao vivo em 1976, você nota “Espelho das Águas” sendo tocada em sua boa parte... E vocês falam, no release do disco, que “Espelho das Águas” começou a ser gestada nos tempos do Terço.


E mesmo você, Vermelho, participou do (disco) “Casa Encantada” com o nome de Zé Geraldo... Quando você tocava no Bendegó...


VERMELHO


É verdade...


PAINEL


Hoje, nos discos, vocês ainda fazem temas instrumentais, mas em número menor e são temas mais curtos... E, ao vivo, só fazem um número...


CLÁUDIO


É, e é logo a primeira.


PAINEL


E o porquê dessa mudança? Porque a gente nota que vocês tocam por tesão de tocar... Vocês são músicos, antes de serem artistas, estrelas ou coisas assim.
Existe o desejo de enveredar mais pelo lado instrumental, ou pelo Progressivo –que é,um pouco mais a origem do Vermelho?


VERMELHO


Eu acho que sim. É que o mercado, partir do fim da década de (19)80, passando pelos (anos) noventa até dois mil e tanto, a qualidade musical, realmente, baixou muito na cabeça das pessoas... A mídia valorizou muito a música de qualidade inferior mesmo...


A música de sucesso é uma coisa sem nível... E isso não foi só uma coisa nacional, não... Foi internacional... Por exemplo: se eu te perguntar, assim, me diz uma grande música, uma música bonita, mesmo, que aconteceu nos últimos dez anos, você vai ter dificuldade de dizer, sabe?  Igual acontecia com o Police, igual ao que acontecia com o U2, sei lá... Aqui no Brasil, o Caetano, o Milton, mesmo o Beto Guedes ou o 14 Bis, você tem dificuldade em responder isso.


Mas o que eu tô notando é que a moçada nova, principalmente por causa da facilidade do negócio da Internet e uma série de coisas que eu tenho visto –e eu tenho uma filha de 19 anos e acompanho muito o que a moçada anda escutando- que o pessoal tá voltando muito a gostar de músicas de bandas que fazem um som, não vou dizer Progressivo,  mas que tinham uma base muito Progressiva tipo Led Zeppelin, Gênesis, tipo Pink Floyd, sabe?


Mesmo o U2 –que não é uma banda Progressiva, mas que tem no instrumental uma parcela muito forte disso... Ou seja: coisa mais elaborada. Então, eu acho que a gente podendo tocar pra esse tipo de gente, a gente pode tocar coisas muito melhores do que simplesmente estar tocando o que fez sucesso...


O que acontece é que a gente toca muito em show de exposição, tipo show em Exposição Agropecuária, essas coisas, e é um tipo de público um pouco diferente... É aquele público que vai mais à música sertaneja, axé e não sei o quê mais... Então, isso molda o seu repertório no sentido de trazer para as pessoas as músicas de mais sucesso... Não dá pra abrir tanto espaço pra –vamos falar assim- tal da “viagem musical” que a gente gostaria de fazer...


CLÁUDIO


E tem o lance da experimentação, né?
Eu acho que é tudo isso que o Vermelho tá falando aí, mas tem o outro lado, né?
Hoje em dia, o negócio é experimentar muito –e bem.
Tem uns conjuntos que tocam uns negócios dos mais diversos. Por exemplo: você vai ver um White Stripes –que é uma coisa inusitada, né? Ainda é o rock and roll, mas é completamente revisitado...


Rage Against the Machine, esses caras tão tocando outra coisa… Cê vê o próprio pessoal mais pesado, o pessoal de Seattle e tal é coisa... Deu uma mudada, deu uma mudada! Eu gosto desse pessoal que tá experimentando, misturando o rock com algumas outras coisas... Os DJs junto com o rock –que vêm com alguns elementos do Hip-Hop e outras coisas... Acho interessante... Tem muita gente que mistura isso bem.


PAINEL


Até o lançamento do “Sete”, vamos colocar assim, vocês eram uma banda que, como a maior parte das bandas, dependia da reação do mercado em relação ao disco, das paradas de sucesso, do acesso às rádios... Há alguns anos, vocês se tornaram uma banda “cult”. Vocês têm uma legião de seguidores que vai se renovando. Nos shows, eu vejo molecada de 17 anos na platéia...


TODOS


É verdade!


PAINEL


O fato de se tornar uma banda “cult” e estarem desvinculados desse compromisso de ter que botar duas ou três músicas nas rádios; de lançar um disco e já saber que ele sai com uma certa vendagem... Isso não dá mais liberdade pra vocês experimentarem?


CLÁUDIO


Não, ao contrário. No nosso caso isso, inclusive, se transforma numa coisa que trava, que fica mais difícil pra você poder fazer uma coisa diferente. Porque, por exemplo, a gente tem uma série de composições completamente diferente do que o pessoal espera da gente. E é muito difícil coloca-la.


Pra você ter uma idéia, no mais recente disco, o “Outros Planos”, a gente foi gravar uma  música do Flávio –que é fundador da banda, que sempre foi um cara que compôs na banda- e essa música, na Internet, deu uma briga de uns seis meses.


A gente colocou  “Até o Dia Clarear”, na Internet, e o pessoal ficou seis meses falando “que era um absurdo”; “que a gente não podia gravar um negócio desse”; o que era que tava acontecendo” e não sei o quê mais... “Que não tinha nada a ver”...


Pra você ver como é que é a gritaria por causa de uma música de um cara que foi da banda e o tempo todo sempre colocou coisas diferentes... Então, não acho que facilite, não! Atrapalha!
Por que, às vezes, você quer mudar e você não pode, porque eles vão se assustar... Aí vão falar “aaaai, eles tão...”... Eles querem que a gente faça outro “Caçador de Mim”; que a gente faça outro “Planeta Sonho”; outro “Todo Azul do Mar”, e isso não vai acontecer nunca!


PAINEL


Você acaba sendo escravo do próprio sucesso, do seu próprio público fiel...


CLÁUDIO


No show, a gente tem que tocar pelo menos 13 ou 14... Você pode fazer o que  quiser, mas 13 ou 14 são as mesmas... Desde a década de (19)80. É bom e não é bom.


VERMELHO


Isso é uma coisa interessante... O Jimmy Hendrix –que é um guitarrista que o Cláudio até deve curtir e conhecer mais do que eu, mas de quem eu sempre gostei muito-, falava uma coisa, assim, mais no final da vida, quando ele tava curtindo muito o Richard Wagner –aquele compositor erudito- e o Richard Strauss, porque os dois têm aquela sonoridade muito forte da música romântica –é o ápice da música romântica-... O Jimmy Hendrix tava curtindo demais os dois caras e disse que ia mandar... Eu não sei nem o que ele ia fazer em cima daquilo, né?...


TODOS


(risos gerais)


VERMELHO


Mas ele disse que tinha que tocar era “Hey Joe”... Que ele tinha que tocar essas músicas dele, né?... E isso não é uma coisa ruim...


CLÁUDIO


Veja bem: a gente luta uma vida toda como músico pra ter uma música reconhecida. Mas eu acho estranho, também, quando um músico chega e se recusa... O Flávio, por exemplo, autor de “Espanhola” com o Guarabyra, o Flávio não gosta de tocar “Espanhola”. Ele não gosta!


TODOS


(risos gerais)


CLÁUDIO


Ele não gosta, mesmo... Ele toca comigo, quando eu tô, às vezes, fazendo algum show com ele, porque a gente toca de uma outra maneira. Mas, com as bandas que normalmente o acompanham, que não tem esse... ele fala que esse  “6 por 8 mineiro”  é meio difícil de tocar... Só quem é da terra é que sabe fazer...


VERMELHO


E é mesmo... É verdade...


CLÁUDIO


Geralmente, músico carioca e paulista não sabe tocar esse 6 por 8...


PAINEL


O Magrão é exceção, então?


CLAÚDIO, HELY e VERMELHO


Ah, mas o Magrão já tá domesticado!


TODOS


(risos gerais)


CLÁUDIO


Aí, então, ele reclama... Ele não gosta de tocar... A última vez eu vi a platéia... Foi até estranho... Desde a primeira hora em que ele pisou no palco, o pessoal gritava, pedindo “Espanhola”... Aí, chegou lá pela décima-quinta música, ele pegou e falou assim: “Olha, gente... A Espanhola, da última vez em que eu a vi... Ela tava no alto do World Trade Center... No dia 11 (de setembro de 2001)...”


TODOS


(risos gerais)


CLÁUDIO


Pra vocês verem como é que é o negócio... Mas é a tal coisa, se você luta pra ter uma música reconhecida, você tem mais é que toca-la... Agora, eu não gosto é quando as pessoas não têm a cabeça suficientemente aberta pra aceitar coisas novas que você tá experimentando e tentando fazer.


Aí que eu acho complicado.


HELY


Eu acho que isso é uma característica do público, né?... A partir do momento em que o artista se propõe a gravar, a sua obra já não mais lhe pertence... O pessoal já se sente dono... Então, eu acho que é perfeitamente...


CLÁUDIO


Isso é verdade... Depois que a música foi composta ela não pertence mais a você, realmente. Mas é difícil para um conjunto como o 14 Bis gravar certas coisas, que nego não deixa, mesmo!
Por isso, que a gente acaba fazendo trabalhos paralelos. Faz lá uns projetos paralelos, encaixa um instrumental que não cabe no show... Talvez pudesse caber, mas por conta dessa questão mercadológica, não passa.


O Flávio, por exemplo, quando você falou de música instrumental, eu tô pra armar um negócio com ele há um tempão, de gravar um disco, praticamente, só de piano e violão. Piano e guitarra... Totalmente instrumental... E não é nem pro mercado daqui.


PAINEL


Vocês fizeram uma turnê –e inclusive saiu um disco ao vivo- com o Boca Livre.
Eu assisti os dois shows do Terço –só não assisti o de Belo Horizonte-, e esse show nasceu de um show do Flávio, em São Paulo, em que você também tocou...


CLÁUDIO


É... Eu tava lá...


PAINEL


E eu tô falando nisso, até porque, mais tarde, a gente vai fazer uma proposta pra produção e... Vocês nunca pensaram... Foi uma idéia que eu tive quando assisti ao show... Que pra fazer o 14 Bis junto com o Terço, só precisava convidar o Sérgio Hinds, mais ninguém... Porque era só trazer o Flávio, que já foi do 14, pois o baixista é o mesmo.


TODOS


É. É verdade...


PAINEL


Tem mais algum encontro desse tipo, ou vocês têm algum plano de, em curto prazo, fazer alguma coisa... Até porque, uma vez, eu ouvi o Sérgio Hinds dizendo que você, desde molequinho, assistia os ensaios do Terço...


CLÁUDIO


Com o Terço, eu acho muito difícil, mas com o Flávio, com certeza.


PAINEL


Então, há ainda um projeto com ele (Flávio)?


CLÁUDIO


Com o Flávio, com certeza. Um projeto de turnê nacional, com gravação de DVD.
E vai ser uma turnê grande, não vai ser uma turnezinha de só dois ou três shows, não!
Vai ser um “revival” bem bacana, mesmo!


VERMELHO


Inclusive, vamos fazer algumas coisas bem “lado B”, como a gente chama... Tipo “Viola e Mel”, “A Qualquer Tempo”, umas músicas assim...


CLÁUDIO


É... E tem, agora, o nosso DVD, aí! Que, provavelmente, a gente vai ter que fazer duplo, né? Porque, uma coisa não adianta... Tá vendo aquele papelzinho lá em cima do palco? Que fica ali no meu pé? Tudo que está escrito ali vai ter que sair no DVD, não tem jeito.


PAINEL


Desse ano, não passa, né?


VERMELHO


Não, não passa (risos).


CLÁUDIO e HELY


Diz a lenda! Diz a lenda... (risos).


PAINEL


Em CD, também? As duas coisas?


CLÁUDIO e VERMELHO


As duas coisas.


CLÁUDIO


Agora, eu acho que tem que fazer duplo, ou seja, lançar um e depois lançar o outro, porque tem muita música sobrando... Tem muita coisa aí que vai precisar colocar, porque são 20 músicas, né?... Hoje, o DVD não pode passar de 20 músicas, assim como o CD não pode passar de 14 –por causa de problemas legais, né?


Então, 20 músicas? Só ali, no palco, tem 18! Aí, cê já viu como é difícil... A gente tinha que lançar um por ano. O ideal seria isso, mas é uma coisa complicada... As gravadoras tão falindo, os piratas chegaram cm muita força, o Mp3 taí –cada dia melhor e, hoje, cê baixa vídeo de todo mundo na Internet, né?


Dá vontade, até, de gravar um e disponibiliza-lo na Internet...


PAINEL


A gente pode até pedir pra vocês, porque o nosso site (www.programapainel.com.br) tem uma seção de música e vídeo.


CLÁUDIO


A gente manda, sim... A gente mandou digitalizar uma série de imagens pra pôr no DVD... Imagens antigas... Então, tem shows, assim, em Boston (EUA), em 1982... Tem um em 1987, logo que o Flávio saiu... A formação no palco ainda era diferente...  Um monte de coisas...


A gente nos programas de televisão da época... Chacrinha... Bolinha... Essas coisas todas... A gente tá colocando tudo em DVD, que a idéia é colocar no nosso próprio DVD algumas pílulas e outras, talvez, na Internet, no nosso site.


E é bacana do pessoal ver... Como era diferente... Quinze anos atrás...


PAINEL


Bom, vamos deixar vocês jantarem... Obrigado pela entrevista...


GERAL


Tchau!
Valeu!
Foi bom o papo... Tinha que ter mais tempo, né?


INÍCIO DA ENTREVISTA COM  MAGRÃO


PAINEL


Magrão, é o seguinte, o Cézar de Mercês deu uma entrevista, logo depois dos shows (do Terço), e em um determinado momento da entrevista, ele demonstra uma mágoa dirigida em relação a você por um motivo: ele conta a história do Terço desde o inicio, porque que eles registraram (o nome) -ele e o Sérgio- com medo do Amigdem, que tava doidão e tal.


Aí, em um determinado momento da entrevista, tudo se dirige ao Sérgio Hinds. O Sérgio Hinds teria registrado o nome à revelia dele e tal. Mas, fica uma mensagem clara, a grande mágoa dele foi uma declaração dada pelo Sérgio na imprensa que ele diz, assim, que tinham convidado o Cézar a cantar duas músicas no show, e o Sérgio teria dito que aquela era a melhor formação do Terço. E aí pegou no ego do cara.


Nota: Segundo Cézar de Mercês, ele e Sergio Hinds resolveram registrar o nome da banda, pois o estado psicológico de Jorge Amigdem era muito preocupante ( Amigdem era uma espécie de Sid Barret do Rock Nacional ). Depois que Amigdem deixou o Terço para formar a banda Karma, eles nunca mais demonstraram interesse em dar continuidade ao processo de registro que se limitou a um protocolo. Segundo Cézar, muitos anos mais tarde, ele se surpreendeu ao saber que Sergio Hinds havia pedido um novo registro do nome da banda para si, o que pode ser comprovado pelas consultas ao Sistema de Marcas e Patentes.


 


MAGRÃO


É, mas não foi isso que ele (Sergio Hinds) falou não. Ele disse que era a formação clássica do Terço. Por que ele falou isso? O Terço teve “n” formações, “n” formações! Agora, veja bem, quem fundou o Terço foi o Sérgio Hinds, não foi o Cézar de Mercês. O Cézar de Mercês já entrou numa outra... A primeira formação do Terço foi Sérgio Hinds, Jorge Amigdem e Vinicius Cantuária. E quem montou, quem fundou foi justamente o Sérgio, com o Jorge e com o Vinicius. 


PAINEL


 E o Sérgio ( Hinds ) era o baixista...


MAGRÃO


Justamente, era o baixista, não era nem o guitarrista.
Então o que acontece? Essa mágoa em relação a ele... Ele falou uma série de coisas... Falou que a gente deixou sair, no caso do Sérgio, alguns CDs  sem ficha técnica. Desde quando a gente tem controle? Eu quando fico sabendo de alguma coletânea do 14 Bis, eu vejo na loja. Ninguém liga para mim e fala “olha qual é a música que o público mais gosta?” -o que é uma burrice das gravadoras. Eles deviam sondar com a gente. E a gente, a partir do momento que está na estrada, a gente sabe quem gosta do quê.


Então, tipo assim, o que acontece, a gente não tem como controlar isso aí.  Outra coisa, a gente fez essa formação porque foi essa que fez mais sucesso, que mais disco vendeu e, que mais show fez.


Então, porra!,  não tem que ficar magoado nada. Eu acho que ele tinha que ficar bem espertinho, no sentido de que ele poderia ter colocado toda a obra dele em um CD bacana, num DVD bacana que vai ficar pro resto da vida, que vai ficar para os filhos deles, para os netos dele.  Ele não pensou nisso.


Ele só pensou que tá magoado porque não foi chamado, que interromperam a carreira dele. Que carreira? Ele virou publicitário! Nós não viramos publicitários. Nós continuamos a fazer música, fazendo show. Ele virou publicitário, então a carreira dele virou de publicitário. E não carreira de músico, compositor. E ele é excelente músico. Eu fiquei mais chateado ainda com ele, porque ele é meu amigo de infância. Eu devia ter conversado com ele...


PAINEL


E você sempre compondo com ele... Várias canções, com ele...


MAGRÃO


Lógico! Eu tenho várias coisas com ele. Eu chego para ele e digo “Cesinha, pelo amor de Deus!”.
Quando nos contrataram, a gente foi contratado por uma pessoa chamada Alexandre, pra fazer aquela formação do “Casa Encantada” e do “Criaturas da Noite”. Com essa formação, que eu quero fazer um DVD. Essa formação, eu nunca vi o Cesinha em cima do palco.


Nota: Magrão realmente está certo quanto a essa formação nunca ter subido no palco junta, mas se esqueceu que ela já existiu e foi registrada em disco, no álbum “Nunca” de Sá & Guarabyra, lançado um ano antes do disco Criaturas da Noite, do Terço. E mesmo não tendo subido aos palcos, Cezar foi o autor ou co-autor de 4 das 8 músicas de Criaturas, além de ser autor de 2 músicas do Casa Encantada, tocando junto com a banda, inclusive.


PAINEL


Ninguém nunca viu.


MAGRÃO


Então tem coisa que a gente não admite. Poderíamos estar com esse material pronto. Você proibir uma obra sua, que vai ser interpretada por uma banda que marcou uma época, cara.


PAINEL


Teve intermediação de vocês, ou teve diálogo?


MAGRÃO


Eu tive com ele, a gente tentou fazer isso.
Você sabe que na realidade, quando você indica sua música, você passa a ter mais um parceiro, que é própria editora. Dividimos dessa forma. Então é a editora, quem fez a música e quem fez a letra. No caso de ficar tudo dividido.
Então, se você for pensar bem, cada um tem 33% da história.


Então, o que acontece? Eu acho que é muito mais importante do que briguinha com o Sérgio Hinds, ou porque sai isso e não saiu aquilo, é a música dele ficar aí pra sempre.


PAINEL


Você chegou a falar com ele como amigo? Ele coloca que você realmente era o melhor amigo dele.


MAGRÃO


Claro! Eu conversei com ele no dia que a gente estava aqui fazendo show em São Paulo. A gente ia fazer o show eu falei “chega aí, Cézinha, vamos participar. Você faz parte dessa história. Vem para tocar, tocar duas músicas, a gente queria fazer isso junto”.


“Não! Num sei o quê!”. Pô, aí já ficou estourado. Eu virei e falei “cara, faz o que você achar melhor. Eu não vou ficar esquentando a minha cabeça. Tô achando tudo lindo, maravilhoso. Eu tô curtindo à beça”. Fizemos três shows maravilhosos, lotados. Tudo lotado, gente vibrando, gente chorando. Uma coisa emocionante!


Vi gente falar “agora, já posso morrer!”. Eu ouvi neguinho falar isso! “Eu vi o Terço 30 anos depois e agora já posso morrer!”, te juro!
Por que que o cara não pode estar participando? Vai ficar de picuinha, de Sérgio Hinds? Aaaaahhhh!
Eu falei para ele uma coisa “O Terço é muito, muito, muuuito, mas muuuito maior do que qualquer briguinha dessa”.


Nota: A relação de Sergio Magrão com Cezar de Mercês sempre foi, publicamente, a de amigos. Magrão, inclusive, produziu o primeiro disco solo de Cezar, chamado Nada no Escuro, onde gravaram juntos a música Pequenas Coisas, parceria dos dois que seria regravada pelo 14 Bis no disco Além Paraíso. Além disso, o 14 Bis já havia gravado Lua de Algodão, composição de Cezinha, no disco anterior, Espelho das Águas. Após a saída de Flávio Venturini, outras músicas de Cezar foram gravadas pelo grupo, como Luz na Escuridão, que estava programada para fazer parte dos shows do Terço. E uma das mais belas parcerias de Sergio Magrão e Cezar de Mercês, a música Gente do Interior, gravada originariamente no disco Mudança de Tempo, do Terço, foi regravada no último disco do 14 Bis.


PAINEL


Inclusive, ontem, eu estava comentando sobre o trabalho do 14 Bis, que tem uma hora que o trabalho não pertence mais à gente, pertence ao público.


MAGRÃO


Lóooogico! Com certeza.


PAINEL


Eu  estive em dois desses shows, e vou engatar uma pergunta agora que leva ao 14 Bis:
Você, no 14 Bis, acumula o cargo de empresário, de  responsável pelo site, músico, compositor. No Terço, você estava ali só como músico?


MAGRÃO


Não, fui empresário do Terço ali, durante uma época.


PAINEL


Na fase do “Mudança de Tempo”?


MAGRÃO


É, na fase do “Mudança de Tempo”.


PAINEL


Não, mas, nessa volta, você estava ali só como músico.


MAGRÃO


Porque senão também não dá! (risos)
Mas eles sempre me perturbaram pra que eu assumisse esse lance de empresário...


PAINEL


Você sempre teve esse lado?


MAGRÃO


Sempre, sempre. Desde o começo, eu já faço isso... No 14 Bis, eu já faço isso há 22 anos...


PAINEL


Então, desde o inicio do 14 Bis era você que cuidava desse lado?


MAGRÃO


A princípio, a gente tinha um empresário. Mas quem fazia prestação de contas em nome da banda era eu, né? Depois que eu passava para ele, e era eu quem ficava... Ali... “Vigiando”... (risos)


PAINEL


Agora, a próxima pergunta, vai à veia:
Nos shows do 14 Bis, eu  não vou nem dizer quantos eu já vi, mesmo porque eu já nem lembro, você costuma ser o mais invocado da banda. Às vezes você está sério demais, às vezes você está travado demais...


MAGRÃO


É que eu sou o pára-raios... O pára-raios...


PAINEL


Nos shows do Terço, o do Rio eu vi distante, mas no do Direct TV Hall eu estava na frente no palco, e você estava rindo o tempo todo. Você estava sentindo tesão de estar ali.  Isso se notava claramente...


MAGRÃO


Com certeza... Eu sinto isso no 14 Bis, também, com certeza.
Mas, como eu estou muito envolvido com a produção, quando eu saio do ônibus tudo começa a cair no meu colo... Sou eu quem pago a conta...


Por isso, que não me  interessa, em um teatro maravilhoso como esse daqui, ter uma luz de quinta categoria. Nem bandinha que está começando em bar tem uma luz como essa.  Isso é exigência técnica, porque eu pedi, e essa luz não foi a que eu pedi.

Nota: Magrão se refere ao Teatro Coliseu de Santos, recentemente reinaugurado, após 12 anos de restauração e que tem encantado todos os artistas que nele se apresentam. O equipamento a que Sergio se refere deveria ter sido providenciado pela Produção do espetáculo, que por motivos não explicados, não cumpriu as exigências da Banda.



A gente tem que seguir um “rider” (detalhamento técnico de luz e som) e eu mando esse “rider” uma semana antes do show. E o que que aconteceu? Eles seguiram o “rider” do som, e ele estava maravilhoso.  Quando eu olho para a luz, não tem nem um nada que tá no “rider”...


Tem é meia dúzia de lâmpadas. Aí, o nosso iluminador é obrigado a acender um panelão branco, horrível. Parecia o Maracanã em dia de jogo, e isso aqui não é jogo de futebol. Fica aquele brancão... Aí, corta totalmente o clima.


Eu, humildemente... E eu até me acho humilde... Mas eu teria que ser ator pra chegar aqui achando tudo lindo. Eu não consigo, cara... O esporro corre solto, né?


PAINEL


Porque, na primeira vez em que eu fiz uma entrevista com vocês, logo depois do “Espelho das Águas”, quando eu trouxe vocês para tocar aqui em Santos, e foi quando eu conheci vocês... Inclusive, quem intermediou aquele show, na época, foi a sua cunhada na época...


Eu te fiz uma pergunta, e o Vermelho estava passando e até falou: “É que o Terço eram três cariocas e um mineiro. O 14 Bis são quatro mineiros e um carioca”. Porque você tinha uma linha como músico, como instrumentista no Terço, muito mais solta... Talvez, até, típica da música Progressiva.


No 14 Bis... E nós fizemos essa pergunta para o Cláudio, e ele nos deu uma resposta que até me surpreendeu... Vocês viraram cult, vocês têm uma legião de fãs, e é só ver o número de comunidades que vocês têm no Orkut, que vai se renovando, e eu cansei de ver, nos shows, gente com idade bem menor...


MAGRÃO


Hoje, 50% do nosso público têm 16, 17 anos...


PAINEL


É molecada...


MAGRÃO


 Isso, em consume de CD, de camiseta.
Agora, isso no show é mais... Aí, são 60%, 70 %.
Obviamente,  que isso tudo acontece nos lugares em que a gente deu manutenção a vida a toda. Claro, se a gente for para Cuiabá amanhã, vai ter gente nova, mas a maioria vai ser mais o pessoal da nossa idade.


Por quê? Porque agente vai para Cuiabá de cinco em cinco anos, de três em três anos.  Agora, Rio, São Paulo, Espírito Santo, Minas até a parte do Sul como a gente tem ido sempre, o público vai se renovando, é impressionante.


PAINEL


Agora, isso faz com que você esteja desvinculado daquela obrigação de cada disco ter duas músicas tocando na rádio. Isso não possibilitaria que vocês ousassem mais?


MAGRÃO


Você diz ousar no sentido de quê? De tentar...


PAINEL


De tentar... Por exemplo, aquela instrumental ... Eu me lembro, até hoje, de estar assistindo o lançamento, no teatro João Caetano, do “Espelho das Águas”, e na hora em que você entra na terceira parte tocando baixo, você derruba o queixo de qualquer um.


Baixista, então, pára e trava... É que você arrebenta no baixo naquela música... Mas aquela música era bem Terço, tanto que tem uma gravação ao vivo de vocês em (19)76, em Londrina, e vocês estão tocando “Espelho das Águas”...


MAGRÃO


É, é. É na época do Flávio, mesmo. Isso era típico no Terço. Era a música preferida do Flávio.
A parte instrumental que o 14 Bis fez em um determinado momento tem muita herança do Terço.



PAINEL


Aí, o Cláudio, ontem, confessou que é roqueiro mesmo, que tem vontade de fazer coisas mais pesadas. Mas a sua formação toda está aí dentro... Mas, ousar mais, que eu digo, seria voltar a tocar mais coisas daquela época, mais instrumental, voltar àquilo que vocês têm e que é notório que você sente prazer no palco fazendo.


MAGRÃO


É... Mas, também, você tem que levar em consideração que o lance do prazer com o Terço, se deve ao fato de que a gente estava sem tocar junto há trinta anos... Não tem como (risos)... A gente já tinha tocado juntos num show do Flávio...


PAINEL


Eu estava lá... Moreno, Sá e Guarabyra... O próprio Cézar subiu ao palco...


MAGRÃO


Isso, isso. Por que não subir de novo? Por quê? (risos).
Isso que eu não consigo entender. Essa história do Cezinha, eu realmente não consigo entender. Poder ser que daqui a um tempo, quando baixar a onda. Agora, o pior de tudo é que a gente está tendo de tirar “Queimada”, “Hey, Amigo”, “Foi Quando Vi a Lua Passar”.


PAINEL


Mas e o disco de (19)76? Ele não poderia proibir.


MAGRÃO


Ele até tentou, depois o Alexandre conversou com ele...


(toca o celular do Magrão)


Então, o que acontece, a gente foi obrigado a fazer isso. A gente teve que ir para o Rio agora, para incluir duas inéditas. Fizemos no estúdio, o cara filmou a gente gravando. Foi bacana. Foi um processo para as pessoas sacarem como é feita uma música. Aí, grava a primeira parte. Isso tudo foi filmado.


Tudo isso pra quê? Para tirar “Hey Amigo” -que era o grande hit- e “Queimada”...


PAINEL


Que é dele e do Flávio (referindo-se à “Queimada”).


MAGRÃO


Mesmo sendo dele, a editora, ficou um negócio impressionante, a editora é a terceira parceira. Claro que ela tinha interesse em colocar, todo mundo ganha muito dinheiro com isso. Aí, a editora falou assim: “Olha, eu prefiro nem forçar a barra para colocar, porque ele (Cézar) vira bicho,  quando se fala nisso aí... Ele fica agressivo”...


PAINEL


Por conta da vaidade?


MAGRÃO


Lógico! Eu sabia. Eu não entendo isso, sabe? Aí ele falou: “Ah, ninguém me avisou”. Mentira, isso! Ele sabia que a gente tava fazendo. A gente já tinha esse projeto quando a gente fez com o Flávio, pô! Quando o Moreno ainda tava vivo...


PAINEL


Inclusive, o projeto era com o Moreno...


MAGRÃO


Claro! Lógico! Então... Sabe?... Eu não gosto dessa situação...


PAINEL


Agora, ainda no disco de 76...


MAGRÃO


Ele autorizou porque o Alexandre o convenceu. Falou: “Faz em homenagem ao Moreno... Você era tão amigo do Moreno, deixa sair o CD”. Acabou saindo em uma edição limitadíssima e ficou por isso mesmo... O Alexandre acabou falindo com essa história toda, não pagou ninguém...


PAINEL


Mas os direitos são de vocês, né?


MAGRÃO


São nossos sim.


PAINEL


Vocês têm planos tentar editar aquele material?


MAGRÃO


Temos. O Flávio queria pegar e lançar pela...


PAINEL


E é uma gravação sensacional.


MAGRÃO


É o maior barato... Não mexemos em nada... Do jeito que a gente ouviu...


PAINEL


Foi daquela série que saiu “Os Mutantes Ao vivo”? Foram aqueles shows do MIS (Museu da Imagem e do Som), não?


MAGRÃO


Não foram não. Foram no (Teatro) João Caetano (RJ), NA Praça Tiradentes...


PAINEL


Depois vocês fizeram outra gravação, né?


MAGRÃO


Na realidade, ali, foi o show de lançamento, no Rio de Janeiro, do “Casa Encantada”.
Tinha cenário, tinha um monte de coisa . Foi exatamente isso.


PAINEL


Uma vez, você tinha dito para mim, e não me lembro nem porque eu tinha soltado essa pergunta, uma vez eu perguntei se você não tinha projeto de lançar um disco solo,e você falou:  “Ah eu tenho, Francisco Sérgio e Seus Boleros”...


MAGRÃO


Exatamente!


PAINEL


Você como compositor, mesmo considerando uma produção pequena em comparação com a do Flávio, não tem, simplesmente uma música sua que não seja uma das melhores do disco...


MAGRÃO


Ah! Obrigado...


PAINEL


“Doce Loucura”, “Caçador de Mim”, sem falar de “Gente do Interior” -que eu acho linda...


E tá no CD novo...


MAGRÃO


É, nós a regravamos.


PAINEL


E esse seu lado compositor, embora num volume menor... E você tem feito muita música com o Cézar (de Mercês)... São músicas antigas, ou você que achou e...


MAGRÃO


Isso... São mais antigas. As que eu fiz com o Cezinha... Pô, tem uma ótima... Aquela... Ai, meu deus... (cantarola a melodia da canção)... Pô, cume que é?... Ih, esqueci o nome da música... Que bom, heim? Vê se pode? Que legal... E tem uma ótima, que a gente vai até usar no Centenário (do primeiro vôo do 14 Bis, avião de Santos Dumont), que ele fala ele do vôo sobre Paris. Como chama meu Deus?...


PAINEL


Vocês estão envolvidos com o Centenário?


MAGRÃO


Estamos super envolvidos, agora que saiu a Lei Rouanet para fazermos os shows. Mas tudo no Brasil é lento, democracia para caramba...


PAINEL


Eu não lembro do nome, mas tem uma música do César que vocês gravaram no primeiro disco sem o Flávio e que fala justamente isso de “somos amigos, ligados à música”.


Nota: A música cujo nome “fugiu” durante a entrevista é  Luz na Escuridão, gravada pelo 14 Bis e pelo próprio Cezar de Mercês sem seu segundo disco solo.


MAGRÃO


Ah... É linda a música. Essa música a gente ia tocar, aí o Cezinha falou: “Imagina que vocês ainda vão tocar essa música que é só minha!”.


PAINEL


Porque ela descrevia o Terço...


MAGRÃO


Claro, claro! Ela estava ensaiada, já... Maravilhosa! Nós tivemos que tirar a música. Tiramos todas as músicas dele. Tinha 4, 5 músicas do cara. Não é possível.


Não pensa que isso é ruim não. Isso é bom, gente! Ter 4, 5 músicas em um trabalho que vai ser relançado, para uma platéia que está super carente. Vai ser super bem recebido, e o cara vem e fala “não quero!”.


PAINEL


Não tem coisa aí não, Magrão? “Boi-na-Linha”? Não tem forças ocultas aí entre vocês e ele?


MAGRÃO


Não, não. Acredito que tenha fofoquinha da moçada dele; da turminha dele, digamos assim. Isso é feio, cara. Muito feio.


PAINEL


Agora, Magrão, voltando àquela pergunta de “ousar mais”, vocês, no palco, e eu até fiz essa pergunta para o Cláudio, porque vocês, no palco, são mais pesados, bem mais pesados do que no estúdio. O Cláudio deu a seguinte explicação: “No palco, ninguém abaixa o som da minha guitarra. No estúdio, os caras vão lá e limam o que for acima”.


Vocês estão querendo gravar um DVD ao vivo -que vem com um CD ao vivo. Óbvio, que se vocês não deixaram e impedirem o produtor de limar o som pra aproximá-lo do som do estúdio, vai pintar esse 14 Bis mais pesado...


MAGRÃO


Ah vai, com certeza!
Mas a intenção é essa mesmo. Porque assim, a gente acaba de gravar um CD e aí leva para casa e pensa: “puxa, aqui podia tá num sei o quê”. E isso você acaba não conseguindo. Claro, que sempre tem uma vontade de fazer alguma coisa diferente que você não conseguiu fazer no CD.


 Agora, no show, não. No show, vai ser o que a gente faz mesmo. Vai ser uma coisa bacana, que vai poder colocar para fora uma série de coisas.
E a gente tem planos de ousar um pouquinho no DVD. Mas não podemos fugir de algumas coisas, porque é o primeiro DVD. Porque a gente tem uma gravadora. Vamos ser contratados pela gravadora. Não posso falar, mas já está quase fechado o negócio.
Claro que a gravadora vai querer ver “Espanhola”, “Caçador de Mim”... “Todo Azul do Mar”..


PAINEL


E o Cláudio disse que o Flávio odeia cantar “Espanhola”.


MAGRÃO


Ele não gosta. Ele não canta. Eu acho ótimo, porque a gente canta e a moçada delira.


PAINEL


Agora, vocês tiraram “Perdido em Abbey Road” do repertório.


MAGRÃO


Tiramos, mas vai voltar. O solinho vai estar junto com uma outra música, que a gente vai fazer tipo de um pout-pourri e vai estar no DVD


PAINEL


Porque naquela você e o Cláudio voavam como baixista e guitarrista de rock.


MAGRÃO


É, é bem legal.


PAINEL


Agora, em termos de futuro, o 14 Bis virou uma banda “cult” e tem feito um trabalho diferente do que fez com o Flávio, mas o Vermelho revelou que vocês pretendem fazer uma turnê com o Flávio.


MAGRÃO


Isso. A gente tem três projetos agora. Tem o centenário do vôo do 14 Bis, que a gente deve fazer 10 shows aqui no Brasil, um na França e dois na Alemanha. A Alemanha é pegando uma carona nessa coisa do Gil, do Ministério da Cultura, que está tendo todas essas atividades lá, shows etc. Isso também é uma oportunidade da gente levantar passagem e envolve uma série de coisas.


A gente já está com a lei aprovada falta para começar a captar recursos. Já tem os empresários e as empresas que querem patrocinar. Mas sem a lei eles não querem lógico. Agora, tem a lei, demorou seis meses, tem toda aquela burocracia que a gente já conhece.  Então, esse é o primeiro projeto que tem que ser nesse ano. Porque, esse ano, é que faz 100 anos do primeiro vôo.


O segundo, que na verdade vai virar primeiro, porque eu acredito que deve sair antes, é o DVD nosso, de carreira...
É o DVD nosso de carreira com o livro.


PAINEL


Com o CD.


MAGRÃO


Com o CD, exatamente, com o CD ao vivo.
 E o terceiro é essa excursão, talvez no segundo semestre de 2007, com o Flávio.
A gente vai fazer as principais capitais, deve fazer uns 10, 15 shows com ele e, vai gerar um outro DVD. Aí sim, nesse, a gente não vai ter a obrigação de colocar, claro que vai ter que ter alguns sucessos, é lógico.


Infelizmente tem que funcionar dessa forma, porque tem que vender. Mas a gente vai ousar mais, com certeza. Tocar coisas novas... Vamos colocar outras coisas. E vamos excursionar até tentar virar, em 2008, um outro DVD e CD.


PAINEL


Vocês têm gravado os seus shows, né?


MAGRÃO


Sim, a maioria deles sim.


PAINEL


É, de um ou dois anos pra cá... Vocês já pensaram em fazer como algumas bandas, como o  Pearl Jam fez, ou como Duran Duran, na volta da formação original, de fazer marketing direto desses discos ao vivo? E com o potencial que vocês têm de público...


MAGRÃO


Eu não sei se gente tem qualidade muito boa para se fazer isso.   Porque a gente grava em MD, em Mp3, Na verdade a gente grava, isso é uma coisa interessante que a gente descobriu depois, vai gravar, todo mundo vai ouvir depois, então a gente capricha mais. Não é que capricha mais, mas você se preocupa mais. E isso é interessante... E é verdade.


PAINEL


Isso faz com que vocês se preocupem mais no palco?


MAGRÃO


Com certeza, com certeza.  Depois vai ouvir todo mundo junto. Aí vai ficar ruim. Ó, aqui era para baixar mais a voz, tá mais baixinha. Ó, o solo entrou meio alto. Faltou guitarra. E a gente vai aprimorando.  Isso é legal, bacana.


E o outro menino, o Roninho, que opera de vez em quando a gente, uma época que o Enir ficou doente, e ele que começou a gravar. Porque o Enir não grava para não tomar dura depois se fizer besteira (risos).


“Não, quebrou aqui”. “Quebrou não, vai gravar sim”.  “Pluga aí e tá gravando!”. Tá gravando, aí fica todo mundo mais esperto. Porque é o tal negócio, a gente já tem mais de mil (shows feitos), fazendo uma média de 80 shows (por ano), não sei mais ou menos quanto dá. A gente já teve ter tocado mil e tantas vezes.


Agora, isso depende muito do equipamento. De um bom equipamento, como ontem, que tava lindo.


PAINEL


Se você grava em Mp3, hoje você tem um Sound Forge que faz o diabo, se você tem um cara bom que edita.
Eu falo de marketing direto, porque o fato de ter se tornado uma banda cult que tem um público fiel faz com que você pense que uma gravação dessa saia com oito mil cópias. No Brasil, isso você não pode desconsiderar. Se você fizer por meio virtual, mais ainda.


Eu te pergunto isso porque você acumula muitas funções. Você, parece, é muito centralizador. Eu  te mandei dois e-mails nos últimos dois anos e eu não recebi resposta até hoje. Inclusive, um mandando aquelas fotos do show do Rio.


MAGRÃO


Eu li todos... Eu li todos... Mas sabe quantos e-mails eu recebo por dia? Uns 50. Entre 30 e 50.


PAINEL


Tá. Mas e se você descentralizasse mais?


MAGRÃO


É que todas as vezes que eu tentei fazer isso, não deu certo. Toda vez eu coloquei gente para me ajudar, para dividir um setor comigo, isso não deu certo. Hoje, eu tenho um escritório no Rio, tenho uma pessoa que me ajuda lá. Faz banco, toda essa parte de rua, vai ao telefone, anota, vai ao computador. Tenho o Victor, em Belo Horizonte, que me ajuda e depois eu passo tudo mastigado para ele. Aí ele executa. Como eu estou no Rio, ou eu pego um avião e vou para Belo Horizonte, ou eu vou direto para os lugares que tem como apresentação e tem como ir de avião.


Se eu for gastar para ir de ônibus a partir de Belo Horizonte, então é melhor ir direto para é o destino da gente. Aí, o Vitor assume essa parte de produção, cobra luz, cobra o som, organiza os horários de saída. Porque daí, quando eu estou na estrada, eu viro músico. O máximo que eu faço é acertar a prestação de contas...


PAINEL


Você não quer se aborrecer antes do show, com as coisas que dão errado...?


MAGRÃO


(risos) Também, também.
Agora, no Rio de Janeiro eu fico full time, cara. Tem neguinho que me liga onze horas da noite, sei lá se eu estou acordado, se eu não estou, e fala: “estou aqui com prefeito aqui, a gente está tomando uma cerveja, ele está querendo levar o 14 Bis, fala aqui com ele”. E eu falo, meu camarada, “oi, tudo bem? Vai ser um prazer ir para sua cidade”.


Neguinho chega em casa, em Belo Horizonte, e cada um vai cuidar da família, vai tocar violão, vai fazer música...( referindo-se aos outros membros da banda )


PAINEL


Você acha que foi isso que impediu vocês de caírem em armadilhas,  como outros músicos, outras bandas, onde o empresário faz o que quer? Esse seu lado empresário impede isso?


MAGRÃO


Eu já tentei largar uma vez e foi um caos. A gente, em (19)99, colocou na mão de uma pessoa lá em Belo Horizonte, que eu prefiro nem falar o nome. Foi um ano que nós fizemos 23 shows. O ano todo.


E ele era um cara fera, que vendia patrocínio, trouxe o Pavarotti, conseguiu com a Telemar R$ 1 milhão, ele captava recursos. Nisso aí ele era bom, ele conseguiu dois patrocínios pra gente, o da IBM e de uma outra empresa que eu não me recordo o nome, e show: nada.


E eu ficava assim: “Cara, e aí?”.
“Não... Tá difícil, não sei como você consegue fazer isso”.


“Eu consigo porque eu estou há vinte anos fazendo isso.
Você não falou que ia assumir? Ia fazer isso?”.


Cara, a gente quase foi à falência! À falência!


E para recuperar isso? Foi uma loucura! Eu levei mais de um ano para re-contatar todo mundo. No ano seguinte, eu fiz 73 shows! Pegamos um rabo de foguete danado, todo mundo já não sabia mais para quem ligar.
E o meu telefone de contato do 14 Bis, ele há 25 anos que é o mesmo número. E eu estou há 22, ele era da minha casa, depois virou um telefone comercial.


PAINEL


Você morou um tempo em São Paulo, eu fui à sua casa no Alto de Pinheiros, eu acho...


MAGRÃO


Isso mesmo.


PAINEL


Aí, quando você foi para o Rio não saiu mais.


MAGRÃO


Não, aí não.
Eu fiquei em São Paulo até (19) 82 eu acho, porque eu mudei para São Paulo em (19)71, 72. Quando a gente foi fazer o “Criaturas da Noite”. Na verdade eu mudei com o Sá, Rodrix e Guarabyra... 
Para fazer jingle com o Rogério Duprat.


PAINEL


E aquele disco “Nunca”, que é maravilhoso.


MAGRÃO


Isso. Gravamos esse disco. Aí começamos a montar o Terço de novo.  Aquela história toda, fazendo os dois. Aí, teve uma hora que não deu mais para fazer os dois e tivemos que sair fora para tocar a carreira do Terço, né?


Foi aí que gravamos “Criatura da Noite”.
 
PAINEL
 
 E essa questão de tornar o site mais ativo, já passa pela sua cabeça?
 
MAGRÃO
 
Eu respondo muito e-mail, muito e-mail...
 
PAINEL
 
Não, não, estou falando de venda direta...
 
MAGRÃO


Ah, sim...
Isso já acontece. Muita gente, pelo menos 30 a  40 % das pessoas que ligam para gente para saber de show já entraram no site e pegaram as informações necessárias. Tem lá o “Fale com o Magrão”, tem o “Direto com a Empresa”, e lá você preenche uma fichinha, da onde é, telefone, qual o assunto, aí eu retorno.
 
Os shows, eu respondo tudo. Agora os de fãs, ainda bem, quem tá tomando conta um pouco da coisa é o Cláudio...
O Vermelho, agora, tá ficando meio fanático pelo lance...


PAINEL


Eu dei um add nele no Orkut...


MAGRÃO


É, exatamente, no Orkut. Ele responde e me ajuda. Eu respondo alguns, mas tem alguns que fica difícil para mim, porque seu eu paro ali e começo a responder, eu não paro mais. É legal, cara, eu gosto também.   É legal... A pessoa está interessada no seu trabalho, faz altas perguntas. Aí, eu fico ali, fico o dia inteiro.
 
PAINEL
 
É porque, naquele show que eu te mostrei as fotos, você falou que estavam melhores que  as oficiais e pediu para mandar por e-mail. Mandei, mas não sei se chegou. Os arquivos eram grandes pra caramba!
 
MAGRÃO
 
Eu tenho isso. Mas, eu perdi muita coisa. Eu agora troquei de computador, estou com uma máquina violenta. Mas eu fiquei uns três anos com uma máquina que não era Velox, eu chamava de Lentox. Era feia a coisa. Eu perdia o dia inteiro. Agora, eu fico bobo. Agora, está uma maravilha (risos gerais).
 
Agora, eu faço 4, 5, 6 coisas numa tarde só e consigo resolver. Eu ficava, às vezes para resolver duas, a tarde inteira. Dava pau, o computador parava. Teve uma vez que eu perdi meu Outlook inteirinho, com tudo de trabalho. E sem backup, agora eu tenho backup. Tô becapeando tudo!
 
Nessa loucura toda, neguinho te liga “tem show essa semana? Tem num tem?” Aí, tenho que me dividir em vinte. Começa a perguntar... Aí, tem que cair matando nisso aí... Aí, pinta a pressão, já viu....
 
PAINEL
 
Magrão, você, obviamente, é muito ligado à tecnologia e, certamente, tem acompanhado essa evolução dos últimos 30 anos...
 
MAGRÃO
 
É... Mas não sou dos mais fanáticos, não.
 
PAINEL
 
Mas, e a questão do CD?
Você crê que o CD está esgotado como forma de divulgação de trabalho musical? Que ele esteja com os dias contados?
 
MAGRÃO
 
Não, eu acho que ele ainda tem uma vida aí, mas ele vai embora. Porque, agora, a grande mídia é o DVD, que provavelmente vai virar um negocinho desse tamanho (faz, com as mãos, um sinal mostrando um pequeno círculo)...Que já vem com imagem e áudio...
 
PAINEL
 
E tá vendendo muito mais que os CDs, segundo as pesquisas...
 
MAGRÃO


Com certeza!
Falaram agora, quando a gente foi fazer a distribuição, lá na (gravadora) Indie, do (CD) “Outros Planos”, “Cadê o DVD?”. “CD? Cadê o DVD?”


“Cara, eu sei, mas a gente tem que lançar esse CD!”


Aí, eles mostraram um gráfico de como despencou (a venda de CDs)... E com o número, como aumentou o número de pessoas que adquiriram o aparelho de DVD...


PAINEL


Inclusive DVD pra carro...


MAGRÃO


É... Crescendo pacas... Que o cara quer ter a imagem, além do som...


PAINEL


E, aparentemente, vocês já deveriam ter feito isso há muito mais tempo...


MAGRÃO


Mas há muito mais tempo, claro!
A gente tá muito atrasado nesse lance... Por isso, que a nossa preocupação agora... Eu tô fechando um negócio muito bacana... Um grupo nacional grande, e eles tão muito interessados em fazer e eu acho que vai ser bacana, porque partiu deles... Não foi aquele negócio de “pô, cara, a gente tá com um negócio aqui, dá pra gente conversar...”, entendeu?


Não! Me ligaram e eu correndo deles... Aí é que eles ficam ligando mais ainda! “Cara, vamos fazer... Vamos botar a maior mídia em cima...”
É legal esse lance que nós fizemos com o “Outros Planos”, mas sabe como é que a gravadora faz quando ela só tá encarregada da fabricação e da distribuição, ela prensa 30 mil... Só que não tem um investimento deles...


Eu entreguei pronto... Eles não botaram um centavo... Aí, eles prensam o CD a R$ 3,10 –porque ainda brigaram comigo, que era pra ser R$ 2,80, mas eu quis botar aquela luva... E eu dizia “cara, eu quero a luva sim, porque fica bonito, a luva protege, dá classe ao trabalho...”


“Pô, mas vai encarecer em 20 centavos”, e eu falei: “mas que mais né 20 centavos vão encarecer?!?”.


Aí, sai R$ 3,10 e sabe quanto que eles repassam pro lojista? R$ 18,00!
Ganância!


PAINEL


Ganância... Aí, quebra o lojista...


MAGRÃO


Aí, o lojista, lógico, o cara paga luz, funcionário e não-sei-mais-o-quê, mete R$ 30,00 (risos)...  Aí o final... O pobrezinho final, que vai comprar lá vai fazer o quê? Vai piratear, lógico! Já presenteia o amigo com o trabalho copiado (risos)...


PAINEL


Algo impede vocês de fazerem a venda direta?


MAGRÃO


Não, claro que não! A gente faz a venda direta.
Ontem, vendemos três caixas de CDs! Eu assinei mais de 50...
Esse CD da gente foi patrocinado pelo Instituto Banco Real (aponta, pela janela, pro outro lado da rua onde está uma casa que é agência da seguradora do ABN-Amro Bank/Real)... Olha,lá...


PAINEL


E o CD do Flávio também faz parte do mesmo pacote, né? Nós ganhamos três de cada pra sortear lá na rádio...


MAGRÃO


O problema é que o Flávio, ele deu uma bobeada aí, que ele impediu que o Instituto vendesse o disco nos shows dele.
Então, o Instituto tá com 8 mil CDs do Flávio lá, assim, paradinhos... Enquanto os nossos saem todos, vendemos tudo nos shows –e que lugar melhor pra vender disco do que em show?


Pô, o cara tá ali, acabou de ver um show, curte e quer levar pra casa, né? Ainda mais, que a gente autografa, né?
A gente fica, às vezes, mais tempo no camarim assinando as coisas, do que tocando, com certeza (risos gerais).


PAINEL


Você falou, há pouco, dessa coisa da qualidade da apresentação do trabalho... Embora eu não exerça a profissão, eu sou arquiteto e me ligo muito nessa questão gráfica, e vocês não têm uma capa de disco feia.
Todas são muito interessantes, várias técnicas, gravura, pintura, foto...


MAGRÃO


É, a gente sempre cuidou muito disso...


PAINEL


E quem da banda é mais ligado nisso?


MAGRÃO


Eu e Cláudio.
O Cláudio foi casado durante um tempo com uma menina que fez o logotipo da gente, e fez três capas dos nossos discos... Fez também aquele logo que tem o disquinho... Aquele logo foi premiado.


Então, ele e eu é que somos os caras nisso aí. Eu sou o cara do operacional. Vou lá e tá-não-tá... E a gente perdeu uma coisa interessante do LP que era o espaço gráfico, que era maravilhoso, não era?


PAINEL


É... Aquele 30x30 (cm)...


MAGRÃO


Agora, cê chega ali e vai botar uma foto e é uma fotinho desse tamanho (risos)... Passou dos 40, já tem que botar os óculos... Mas, como boa parte do público da gente passou dos 40, já tá todo mundo acostumado a botar os óculos (risos gerais).


PAINEL


Bom, vamos liberar você, Magrão, muito, muito obrigado.


MAGRÃO


E, agora, eu vou responder a todos os teus e-mails (risos gerais).


PAINEL


E a gente quer até poder ter a chance de conversar com vocês depois... Eu, ontem, soltei essa letra e o Cláudio me passou uma opinião meio controversa sobre o Sérgio Hinds.
Porque eu disse pra ele o seguinte: talvez fazer rum projeto com uma estrutura bancando –e o nosso programa de rádio tem um esquema em São Paulo (Capital), que é um pouquinho maior-... De fazer algo como 14 Bis e Boca Livre... Fazer 14 Bis e Terço e só precisava trazer o Hinds.


Porque o baixista é o mesmo; usava o Hely como baterista e trazia o Flávio como convidado especial... A gente economizava alguns problemas, até.
O que é que você acha desse tipo de projeto pra um show, que poderia virar CD, DVD, como está sendo o projeto atual?


MAGRÃO


Isso deve até acontecer. Porque eu, sem querer, tô acabando de vender uns shows do Terço... Que assim que sair o DVD, a gente vai fazer o lançamento dele...


PAINEL


Cê não acha que vale a pena ir pra justiça pra liberar isso, porque o teu trabalho é do Terço, em última análise ele não poderia estar...


MAGRÃO


É, mas sabe o que é que é? É que a gente entra com um processo na Justiça, aí começa um outro processo que é depositar tudo em juízo... Aí, ele (Cézar de Mercês) vai entrar... Vai se defender, é lógico! Entra com uma liminar e trava tudo... É uma canseira que vai levar 4 ou 5 anos pra resolver, pra entrar num acordo...


E você sabe o que vai acontecer logo, logo e eu tenho certeza absoluta?
Vai vazar esse DVD com todas as músicas e vai virar um pirata caríssimo!
Porque já existe o DVD pronto com “Hey, Amigo”...


PAINEL


Porque o (disco) de (19)76, eu vi na Galeria do Rock, em Sampa, uma vez, os caras xingando o Alexandre de tudo o que era nome, porque todas as lojas têm pedido marcado e ninguém consegue.


MAGRÃO


Aí, ele, agora, brigou feio, porque ele ficou devendo uma grana pro pessoal da filmagem, pra gente, pra todo mundo. Mas ele foi um cara que foi quem levantou essa bola. Então, ele tem um mérito nessa história.


É como eu tava falando, ele pode ter feito um monte de....


PAINEL


Se você encontrar alguém que entre como parceiro e...


MAGRÃO


E tem mais: o pior é que, nesse meio-tempo, ele contratou o Premiatta.
Aí foi que ferrou, porque ninguém foi e ele pegou a grana que tava envolvida com o Terço, pra poder pagar os caras e com o Premiatta ele ia ganhar uma puta grana!


Só na ganhou porque já tava ali... Tava endividado...


Nota: Magrão se refere ao grupo italiano de Rock Progressivo Premiatta Forneria Marconni, que se apresentou em São Paulo, na semana seguinte ao show do Terço.


PAINEL


Ele é um pouco amador, porque ele é dono de loja de discos, né?


MAGRÃO


Totalmente, totalmente!
Pra gente até que foi um bom negócio, porque tudo o que a gente fez com ele, foi assim, quem é que poderia, de repente, ter a idéia de comprar os shows do Terço pra gente ensaiar, pra gente poder fazer um DVD, foi genial, cara...


PAINEL


E pensar num projeto um pouco maior, tipo: você sentar com o Cezar e falar: “Porra, meu, vem!”.
O Cezar chamar o (Sérgio) Kaffa, o (Vinicius) Cantuária... Eu não sei, mas me parece que ele tá nos Estados Unidos...


MAGRÃO


É, tá em Nova Iorque.


PAINEL


Eu sei que o Vinicius viria pra tocar bateria...


MAGRÃO


Claro!


PAINEL


Fazer esse projeto maior, e com o Sá e Guarabyra –que são os responsáveis por uma boa parte da carreira...


MAGRÃO


Porra, imagina isso gravado em DVD, seria maravilhoso um encontro desses!


PAINEL


Bom, um troço desses você não vê como sendo fechado, impossível de acontecer, né?


MAGRÃO


Eu acho interessantíssimo... Mas, claro que vai ser uma guerra, né? Juntar esse povo todo (risos)... Nossa Senhora! Ia ser uma guerra!
Mas é genial, genial... Se fosse possível, porra, com certeza!


PAINEL


Então responde aos e-mails, que a gente começa a montar isso (risos gerais).
Magrão, obrigado, tá?
Obrigado, Magrão!


MAGRÃO


Valeu!!


 

 
 
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