Se vocês pensam que Fernanda Takai e John, do Pato Fu, são tão legais quanto parecem, se enganaram. Pessoalmente, eles são muito mais. O casal nos recebeu no hotel em que estavam hospedados na Capital paulistana (aonde vieram para duas apresentações no Sesc-Pompéia), num sábado, dia 13 de maio de 2006, logo após o início dos ataques aos postos policiais.
Além de muito articulados e cheios de idéias e conceitos, valerá a pena vocês também notarem a ternura que ambos exalam um pelo outro. E isto está patente nas fotos feitas durante a entrevista.
Agredecemos a Victor Takai, produtor da banda, que fez os arranjos para que se desse nosso encontro.
Agradecimentos, também, ao "Hulk", que nos levou até lá.
As fotos foram feitas por Suéllen Galvão (e Camila Oliveira, duas, e eu, uma).
A transcrição foi feita por Amy LaScala, Camila Oliveira e eu próprio.
Boa diversão!
Saúde & Paz!
Olavo Dáda
Painel
Pato Fu, obrigado à Fernanda Takai e John, em nome de toda audiência do Programa Painel nós queremos agradecer vocês. É sei que é até um sacrifício, porque ontem acabaram de tocar, devem ter chegado bem tarde.
A idéia aqui da entrevista é um bate-papo bem informal e tentar extrair, é uma pretensão nossa, algumas coisas de vocês que a gente crê que talvez não tenham sido exploradas em outras entrevistas.
Vocês são uma das provas cabais de que é possível fazer música com inteligência.E apenas para citar alguns poucos exemplos eu quero falar do clipe do “Made in Japan”, da pesquisa, a utilização do Teremin, essa evidente preocupação com a qualidade gráfica de tudo que vocês produzem. Isso sempre foi uma meta e um conceito do Pato Fu, desde o início, lá em 92? Ou foi um processo que vocês foram desenvolvendo com o tempo?
John
Bom começa com elogio já né? (risos) Está querendo me conquistar.
Painel
É tática...
John
É tática. Eu não sei, eu comecei a tocar nos anos 80. E de certa maneira, o que eu faço hoje ainda acho que é coerente com o que eu fazia nos anos 80. Eu tinha uma banda chamada “Sexo Explícito” e outras, mas essa foi a que durou mais tempo, durou uns 10 anos quase.
E eu acho que era uma banda que já tinha um pouco essa linha, a gente num queria estar dentro de uma onda. Queria fazer onda, a gente queria inventar nossas próprias maneiras de expressão.Isso tem a ver com o que você perguntou. O Pato Fu sem dúvida foi evoluindo, acho que no início a gente tinha uma linguagem mais inconseqüente, era uma bomba de informações sem muita direção.
A gente em cada música tinha um milhão de idéias e usava todas. A música era alegre, triste, contemplativa, explosiva, punk rock, tudo ao mesmo tempo. E aos poucos, fomos percebendo quer era mais interessantes se aprofundar em cada uma dessas coisas, manter a diversidade, mas dar a cada música um certo tratamento. Eu acho que isso deixou nosso trabalho mais inteligível.
Fernanda Takai
Menos fechado para a gente mesmo.
John
Menos hermético.
Fernanda
Mas desde o início do Pato Fu a própria preocupação que a gente teve de ter uma logomarca, que foi o John que desenhou. De fazer com que tudo que chegasse em nome do Pato Fu tivesse uma identidade visual também, denota que estava dentro da gente essa junção de imagem, música, tecnologiapor conta do ??? , a gente dramatizava, a gente falava que usava. Éramos um trio eletrônico, não tinha baterista.
E a gente queria fazer com que a música, mesmo que tivesse um monte de maquininhas tocando junto com a gente, que as pessoas não se afastassem disso, não deixassem de gostar do Pato Fu por causa dessa estranheza musical. E, sim, achassem divertido e encarassem como uma nova forma de fazer música. E conforme os discos foram passando, entrou um baterista, mas as maquininhas não saíram, a gente usa de uma outra forma.
E com o tempo a gente conseguiu chamar outras pessoas, diretores de clipe, diretores de arte que fazem capas legais que fossem de certa forma traduzir a nossa música desse lado de forma mais legal, mais organizada. Mas não menos criativa.
Painel
Falando em imagem, vocês têm muitos clipes premiados e elogiados. Qual a interferência de vocês neles?
Fernanda
Depende do projeto. Nesse projeto que vai ser lançado do DVD de todos os clipes, ele foi um pouco diferente dos outros, porque como a gente tinha uma verba muito pequena e estávamos fazendo tudo com as próprias mãos, desde a gravação do disco que foi em casa...
Um jeito de chamar as pessoas as pessoas para o projeto foi falar você tem uma verba, você pode fazer o que você quiser, não tem interferência nenhuma da banda, a gente só vai fornecer a trilha sonora. Se a o diretor quisesse a gente poderia participar do clipe. Esse a gente foi só recebendo os clipes e, para a nossa surpresa, um mais legal que o outro. Cada um de um jeito diferente...
John
Cada um com uma técnica diferente...
Painel
E nos outros vocês chegaram a interferir?
Fernanda
Nos outros a gente já tinha algumas coisas assim. Mas na maioria das vezes eram coisas que a gente não queria fazer. Nas primeiras reuniões com os diretores, que geralmente eles fazem, até porque eu também já trabalhei em agência, o pessoal pede quero isso, quero aquilo, quero aparecer cantando no alto do prédio com o meu cabelo esvoaçante, um carro poderoso.
E a gente falava, não, a gente não quer isso. Queremos que você tenha uma boa idéia para a música, não necessariamente precisa ter a banda tocando. Ou, se a gente estiver tocando, pode ser de uma forma diferente, não precisa falar que aquele é o baterista, aquele é não sei o quê.
A não ser nos clipes ao vivo -que não jeito. Mas a gente só falava esse tipo de coisa e ia acompanhando com o diretor...Desde de 96, que estamos envolvidos com esse negócio de Internet , então vinha storyboard pela rede, aprovava roteiro...
John
Na verdade, a maior escolha que você faz quando vai fazer um clipe é a escolha do diretor. A partir do momento que você escolhe aquele sujeito porque já viu outros trabalhos confia nele. Esse cara faz coisas legais e a gente discute uma idéia, mas basicamente a idéia é dele. A não ser que a gente tenha uma idéia muito boa. Mas, em geral, a gente conta com o talento externo para somar.
Painel
Tem um valor agregado muito grande ao trabalho musical de vocês... Têm tudo isso e a questão visual, seja em vídeo seja na parte gráfica. Vocês têm uma preocupação consciente com a questão da Renascença? Parece-me que vocês são artistas meio renascentistas, no sentido de fazerem várias coisas ao mesmo tempo, de atuarem em várias áreas ao mesmo tempo...
John
Eu nunca tinha pensando nisso, nesses termos.
Fernanda
Se pensar bem, né?Tem a ver com a sua formação de artista plástico...
John
É eu fiz Belas Artes.
Eu penso nisso olhando as bandas que eu gosto, sabe? Sabe, quase todas as bandas que eu gosto desde as bandas dos anos 80, os videoclipes foram instrumentos que me fizeram gostar mais ainda daquelas bandas.
O Devo, o Cure, tinham clipes incríveis. Aí eu via aquilo, mudou minha vida. Então eu quero ter uma banda assim também, a minha banda que eu projetei para o futuro teria clipes incríveis, teria um site, depois que isso foi aparecer, mas eu não considero um clipe só uma peça de marketing. Acho que tem algumas bandas que podem usar isso do clipe vender o disco. O clipe é o que eu faço também, eu faço música, eu faço show, eu faço disco, eu faço clipe, isso tudo faz parte da minha expressão, não tenho separar isso.
Fernanda
E não só na parte artística, também acho que muitos artistas desenvolvem toda a parte administrativa. A editora é nossa, a editora que cuida das nossas músicas. O escritório de shows, sempre foi um escritório pequeno que cuidou a principio, exclusivamente, só do Pato Fu.
Eu por exemplo acabei de me tornar uma micro empresária do setor de malhas (risos).
Tô brincando. Éque a lojinha do Pato Fu ficou muito tempo fora do ar e voltou agora. E só voltou porque ficou tão enrolado que eu falei: -Putz vou pegar para fazer esse negócio. Aí fiz, fiz uma camiseta, começou com um modelo, uma modelagem.
Painel
Quem sabe isso num cresce e não abre uma lojinha Pato Fu?
Fernanda
Mas a gente num faz porque quer ser empresário. É porque alguém tem que fazer, e, às vezes, não tem ninguém que quer fazer tanto quanto a gente...Direitinho e tal.
Então peguei para fazer e cuidar dessa lojinha. E o site é basicamente atualizado por mim, pelo Ricardo (baixista da banda) e pelo Jonh pessoalmente. A gente está em viagem, turnê entra lá, entrou show põe, entrou coisa na lojinha vai lá e põe. O Ricardo coloca as fotos dele, e isso é uma pluralidade que extrapola a música, mas é bom também você sabe exatamente como as coisas em seu nome estão chegando às pessoas. Tem artistas que não gostam disso.
Painel
É uma forma de direcionar...
Fernanda
A gente gosta e acaba tendo que fazer. E o retorno acaba sendo sempre muito positivo. O fato de eu responder os e-mails pessoalmente, do site, da gente ter facilidade em falar com as pessoas. Se você quiser fazer uma entrevista com a gente, é tranqüilo assim. Tem um retorno.
Isso faz a diferença a longo prazo. È uma coisa que as pessoas vão se acostumando de verem ali no Pato Fu ter esse tipo de resposta, de retorno. Não sei se automaticamente representa uma melhora em execução em rádio, ou vendas de discos, não sei. Mas é um jeito de trabalhar que a gente já esta há 14 anos já, fazendo nós mesmos as coisas.
Painel
E vocês falavam de Internet e das bandas dos anos 80. Já vi o John falar que, hoje em dia, é muito mais fácil para uma banda independente divulgar o trabalho por causa da Internet. Do que vocês sentem falta da época de ser uma banda independente?
John
Dos anos 80, acho que não sinto falta de nada (risos).
E, hoje em dia, a gente é praticamente independente de novo. Hoje em dia, não que seja mais fácil você dar o pulo da independência para o mainstream, para você ir ganhar dinheiro com a música. Mas pelo menos é mais divertido, tem muito mais o que fazer. Nos anos 80 você fazia um (fan)zine em xerox, fazia umas 50 cópias e dava para os seus amigos e ficava naquela absoluta obscuridade...
Fernanda
Esperando voltar uma carta (risos)...
John
É, aí, chegava uma carta assim de fã e o cara dizia não gostei de tal música (risos). Pô, hoje em dia as bandas pequenas têm as comunidades no orkut, tem site...
Fernanda
Tem agenda de shows, né?... Circuito de shows...
John
Eles mandam mp3 pra todo mundo e bota no site e as pessoas comentam e dão suas opiniões, “gostei... não gostei”, tem fãs... As pessoas de uma maneira geral, elas se tornam famosas, você vai para o interior do nosso país, as pessoas já ouviram falar do Wonkavision, Digitaria, entre outros...
Painel
Eu fui ao show deles, lá em Santos...
John
Foi legal?
Painel
Foi ótimo!
Fernanda
Ontem, né?
Painel
Foi quinta-feira.
Fernanda Takai
Hoje, eles vão ao nosso show...
Painel
Ah é?
Fernanda
Vocês vão ao nosso show?
Painel
Não... Queríamos muito, mas estamos todos...
John
Mas é isso, né? Você vai tocar lá em Maceió e tem fã do Wonkavision, o cara aparece com uma camisa do Wonka...
Painel
Inclusive vocês produziram, né, o CD deles?
Fernanda
Eu produzi só o lanchinho! (risos)
John
É... E por aí vai, e isso torna as coisas, pelo menos,mais divertidas...
Painel
Tem coisa que nasce na Internet, né?
John
É um outro emprego... Enquanto você tem a sua banda independente, pelo menos assim, tenho um CD que é bonitinho e tal, que eu produzi e tal... Cê vai mostrando pras pessoas, manda mp3...Isso eu acho que torna as coisas muito mais legais e coloca uma concorrência nessa busca pelo estrelato de uma maneira interessante, isso pode acontecer; esse trabalho, se for muito bem feito, se for muito bom acaba aparecendo mesmo.
Painel
Vocês acabaram de abordar um assunto que eu acho que é muito caro a qualquer pessoa que milita na área cultural: como é que vocês encaram esse negócio da democratização da informação, a partir inclusive dessa força que as novas mídias estão injetando no mercado ou, pelo menos, na nossa área?
Fernanda
A gente vive o lado muito bom, que é divulgar pra mais gente, e multiplicar o seu trabalho, e mais gente podendo botar suas idéias ali, achar canais pra distribuir idéias e elas podem se multiplicar muito rápido, né? assim, vai que... A gente mesmo no início, tinha uma cooperativa de sites do Pato Fu, que cada um era de um jeito, cada um dizia o que queria, e tinha uma visibilidade muito grande e tipo, eram duas pessoas em cada site, ali de repente, escrevendo pro Brasil todo...
Então eu acho muito bom, a gente vive a pirataria digital de idéias e de músicas e tudo, que é uma coisa que não tem volta, acho que não dá pra remar contra essa maré, acho que a gente tem que extrair o melhor dela e no nosso caso, a nossa música nunca chegou tanto... A gente nunca chegou a ouvir tanta coisa sobre a gente em outros lugares do Brasil ou do mundo através disso assim, dessa nova onda, da onda digital, então eu acho que tem mais coisas boas do que ruins, sem dúvida, agora a gente vive justamente essa virada de lei de direito autoral, de como que as pessoas que vivem exclusivamente da sua produção musical e intelectual vão conseguir viver num mundo que acaba deixando tudo grátis pra todo mundo né? Então é, isso é uma pergunta que todo mundo se faz...
Painel
A era do “copyleft”?
Fernanda
Pois é!...Mas eu acho muito bom assim, a gente viveu justamente assim por ter sido uma das primeiras bandas a usar dessa abertura. Acho que a gente tem que ser inteligente e usar mais ainda e não dá pra ficar brigando com o cara que ta lá na Polônia baixando música do Pato Fu. Eu acho super bom que ele vai ouvi uma banda em português, de repente vai começar a estudar português porque gostou de uma...
Igual a pessoa gostava de bossa-nova muito assim no passado... Muita gente começou a aprender ali um pouquinho da língua, que é uma coisa... A primeira coisa que se pensa é, depois pode até vir ao Brasil, saber um pouquinho mais da história, da política, então é ótimo. E os blogs, então um exemplo assim... Vocês que escrevem...
Vários jornalistas escrevendo coisas cada vez mais interessantes em espaços deles próprios na Internet, porque ficam limitados em determinados jornais e revistas e você começa e ver e fala: “poxa, não sabia que esse cara pensava assim, porque eu só via o texto dele enquadrado no título de um editor, ou porque ele tinha que escrever sobre determinado artista, com certa linguagem...”. Então você vê que tem muito fermento aí, tem muito lastro, muito conteúdo...
Painel
Os jornais pegam essa abertura e criam espaços de blogs pros jornalistas...
Fernanda
Exatamente, você entra na página do jornal e você quer saber mais, quer ler mais? Olha aqui...
Eu acho que só vem pro bem, com certeza.
Só que isso tem que chegar pra todo mundo né? Então... É importante, inclusão digital é uma coisa super importante. Eu vejo a Soninha (Francine, vereadora do PT-SP) defendendo isso sempre, que é amiga nossa e sempre a vejo defendendo isso. E não adianta a gente ter um pedaço só flutuando nesse meio de informação porque senão vai criar uma distância cada vez maior do outros que não chegam nem no jornal de papel né? nunca chegaram.
Por isso, as escolas têm que estar equipadas, os professores têm que passar as coisas, saber dar aula sobre o assunto e saber usar a ferramenta pra encantar o aluno e enfim a gente começar a falar, todo mundo junto, a mesma língua.
Painel
Encerrando esse assunto, agora tem uma coisa que eu quero saber, coisa meio de bastidor: é que, geralmente, Fernanda e John é que estão à frente das coisas do Pato Fu, pelos motivos internos óbvios que devem acontecer.
Mas vocês transmitem, a banda transmite, uma idéia muito bacana pro fã, pra quem a admira e pra mídia em si, de que é uma banda que não carece daquela imagem do líder que sempre a imprensa quer eleger. Então, passa um pouco isso, pelo menos é o que eu depreendo quando vejo o Pato Fu. Essa unidade é real mesmo, e como é que vocês lidam com o nível de stress que é inerente à vida na estrada?
John
Acho que o Pato Fu é a única banda que vai só aumentando, né? (risos).
Não saiu ninguém, só foi entrando, só agrega... Não que a gente nunca brigue nem nada, a gente é igual a qualquer banda, tem pessoas, a gente tem discussões, é igual à família. O pessoal fala que banda é igual a casamento, mas sem sexo.
Fernanda
No nosso caso não, né? (risos)
John
É trabalhamos com sexo, também. Mas com os outros, não.
Painel
Que fique claro! (risos)
John
É...Que fique claro! (risos)
Nesse sentindo acho que a gente tem um relacionamento muito normal. Uma banda que toca junta há um tempão, briga de vez em quando. Mas nada radical, pelo menos até agora.
Fernanda
Acho que essa imagem de líder, eu não.. Sempre quando falam “a Fernanda, líder de Pato Fu”, eu falo “não”. Na verdade, o grande mentor do Pato Fu é o John, desde o início da idéia original de fazer uma banda fora dos padrões, a maioria das músicas é dele. Ele que é nosso produtor, que domina a parte de estúdio mais do que ninguém.
Então, isso meio que se dividiu um pouco. É natural que quem fique com o microfone e cante a maioria das músicas, as pessoas queiram fazer mais entrevista, tirar mais foto, tem mais fã para o meu lado. Mas o John, ele puxa muito para esse outro lado da produção que, às vezes, passa batido em várias outras bandas. Você pode ter, sei lá, no Rappa, o Yuka fazia as músicas, mas todo mundo queria falar com o Falcão. Até o momento em que todo mundo percebeu: “não, meu, era o Yuka que fazia as letras”.
Música POP tem essa, esse holofote jogado no vocalista. Mas, até pelo jeito da gente levar a carreira, de dar sempre entrevista junto, não rola isso. Ou eu mesmo falar “olha prefiro que você fale com o John sobre essa parte que é ele que é nosso compositor”. Sobre composição fala com o John. Agora, para os outros integrantes da banda nunca teve essa vaidade. Até acho que tem em outras bandas esse negócio de “eu tenho que estar em todos os lugares, tenho que aparecer junto”, e é até proibido dar entrevista em separado. Mas essa é uma escolha deles.
Por exemplo, agora, os outros não estão dormindo.
O Ricardo foi gravar com o Dionísio, que é um cara de Fortaleza que está aqui. Ele tem uma banda chamada Soul Zé que vai tocar, hoje, no Skol Beats. E o Xande foi passear no Ibirapuera. Ou seja eles estão fazendo coisas que eles querem, que eles gostam. Eles não ficam infelizes por não participarem de entrevista. Se quisessem eles estariam aqui também.
Painel
John, falando da sua carreira de produtor, eu li que você não entrou de vez porque tem a banda. Vocês já pensaram em se aposentar para entrar em uma outra área? Quem sabed na Takai Malhas? (risos)
John
Acho que eu não me aposentaria para fazer isso.
Vou me aposentar quando a banda chegar ao fim. Eu tenho vontade de ter mais tempo para fazer essas produções. Algumas coisas que me aparecem, e não dá para fazer, principalmente discos inteiros. È relativamente fácil para mim produzir uma faixa de um disco, fazer umas participações. Umas coisas assim. È mais complicado, pois são trabalhos que demoram dois, três meses...
Fernanda
Mas tem saído um ou dois por ano, né?
John
É. Eu até tenho feito.
Acabei de fazer o Digitária, que vai sair pela Gigolô Records e vai ser lançado na Alemanha e na Europa, e que foi lançado aqui também. É uma banda de eletro-rock indefinível.
A Érika Machado, que é uma cantora lá de Belo Horizonte, vai sair pela Indie Records. É mais fácil para mim é produzir coisas em Belo Horizonte, porque eu tenho que produzir nas minhas folgas e no meu próprio estúdio. Então, se eu não for fazer shows num fim-de-semana...
Se for um pessoal de BH, mesmo, eu chego em casa e ligo e digo “vem aqui”.
Se for um pessoal daqui, não. Se for, o cara vai ter que se hospedar em um hotel, ou eu vir para São Paulo ficar dois dias, fica uma produção muito truncada.
Fernanda
O Wonka foi...
John
Eles foram para lá.
Fernanda
Eles foram para lá, mas ficaram duas semanas.
John
É, quase três. Quer dizer a gente foi lá e gravou tudo. Depois eu fiquei retocando o áudio, e mandava em mp3 para eles. Aí eles ouviam, e falavam que isso que aquilo. Uma produção meio esquisita. Mas isso vai acabar acontecendo mais e mais, de eu ficar fazendo lá e eles aqui...Mas, um dia, e eu vou acabar me dedicando a isso em tempo total.
Fernanda
O Ricardo tem uma banda que toca só Elvis, ele se apresenta regularmente.
O Xande tem um trio de jazz, ele grava com outros artistas.
Eu gravo, faço outros projetos. A trilha do Ronaldo do desfile, vinhetas para a TVE, tema para o Ilha Rá Tim Bum, coisas pontuais, assim.
Eu não acredito muito em cantor de banda sair em carreira solo não, enquanto a banda existe, gravar discos. Porque fica uma coisa meio egoísta...Eu vou acabar fazendo shows com o Pato Fu quando minha carreira com meu outro disco não estiver muito boa. Então, fica meio esquisito, eu não fico muito à vontade.
Painel
Isso é um sinal de que está querendo seguir outros caminhos?
Fernanda
É, se eu estou com o Pato Fu até hoje e eu fico satisfeita com o repertório que eu canto, o show que a gente faz, nesse momento eu não tenho essa preocupação de mostrar um outro repertório meu num disco, em um projeto solo , não tenho mesmo. Essas coisas que fiz acabam tendo registro em outros discos. Ou mesmo na Internet já tem tudo, então eu tenho claro para mim que se eu for fazer outra coisa cantando, o Pato Fu não existiria mais.
Painel
Já que a banda agrega pessoas, se um dos integrantes saísse, a banda continuaria?
John
Sei lá!
Fernanda
Eu também não sei.
John
A princípio sim, se for uma saída que não tiver tanto a ver com o próprio momento da banda e sim com o momento da pessoa. Sei lá? Às vezes quer sair porque quer mudar para a Conchinchina. Vai nessa!
Fernanda
A gente nunca tinha pensando sobre isso, é a primeira vez.
John
Isso é impossível imaginar agora. Depende da situação.
Fernanda
Se a pessoa sai numa boa, se ela quiser sair para fazer outras coisas, acho que sim. Mas se ela sai com uma briga traumática com a gente, aí perde a graça. E muito do que a gente faz é porque é bom, faz bem para a gente. Senão, seria uma coisa estéril, fria, sem graça. A gente gosta muito de tocar. Se apresentar junto. Muitas vezes que a gente sai junto, estamos sempre juntos.
Painel
Vocês gostam da convivência de vocês?
Fernanda
A gente fica muito tempo em turnê...Saímos para almoçar juntos, chama um, chama o outro no quarto. Vamos quer ir? Não tem aquela coisa só entra na hora do palco, nem fica no mesmo camarim. Tem gente que nem fica no mesmo camarim. Eu não sei, vamos ver, espero que isso não aconteça. Quando parar o Pato Fu que pare todo mundo de uma vez só.
Painel
Lá em cima, abordamos a questão da liderança. Por falar nisso vocês teriam um ídolo de vocês para eleger, que fosse uma referência importante? E não precisa ser, necessariamente, na área musical...
John
Não consigo chamar nenhuma dessas coisas que eu gosto muito de ídolo, pelo menos essa palavra não cabe muito. Mas tem um monte de coisa que eu gosto muito, como compositor o cara que mais me inspira foi o Elvis Costello, que veio para o Brasil recentemente e eu estava lá, na primeira fila...Babando...
Fernanda
Até tirou foto com ele...
John
Eu acho demais, assim, escreve música assim uma atrás da outra... Deve ter umas mil músicas lá no repertório... Gosto muito das melodias dele... Tem um monte de músicas minhas, que se você colocar o timbre de voz dele em cima, você vai entender perfeitamente que é inspirado nele, no jeito dele...
Fernanda
Mas, como sou eu que canto...(risos)
John
Muita gente diz que eu o tento imitar cantando, o timbre de voz. E tô, mesmo!
Mas é uma boa imitação, uma fonte boa, eu espero.
Fernanda
Ah, eu, assim, se for falar em ídolo, pensar na coisa mais próxima que seria mais próxima de um ídolo pra mim, acho que seriao Paul McCartney... Eu ouvia Beatles, assim, desde pequenininha, mas acho que ele tem... Ele junta um monte de coisa boa numa pessoa que seria um ídolo: ele é um cara legal, em todos os aspectos da carreira, extremamente talentoso, toca todos os instrumentos muito bem, compõe e canta muito bem, assim, seria isso, né?... Eu tenho uma “ídola” ,né?, que eu acho que é “ídola”, mesmo, que quando eu me encontro com ela eu fico tremendo, que é a Suzanne Veja, que eu adoro, assim, acho que é a cantora assim, que mais...
Painel
Suzanne Vega é a do “Luca”?
Fernanda
É... Eu a conheci também através do “Luca”, mas ela tem uma carreira que não chegou aqui no Brasil, de discos maravilhosos, assim, preciosidades, discos muito bem produzidos e ela escreve muito bem... Você pode pegar o encarte dela e ler... Esquece a música e vê ali o que está escrito, são histórias muito bem construídas assim, ela constrói imagens muito bonitas... E ela toca muito bem, canta muito bem e se alguém falar assim de qualquer cantora, qual é a que mais te inspira, seria a Suzanne Vega.
Painel
E tem a maior conotação aí, porque o Costello é tão bom que o Paul chamou o cara pra gravar...
John e Fernanda
É...Eles têm umas parcerias...
Painel
Acho que tem um disco que é “Flowers in the Dirty”, eu não me lembro bem...
Fernanda
Tem... É exatamente esse.
Painel
Nós já conversamos sobre tecnologia, mas eu quero reforçar isso...
É evidente que é um elemento importantíssimo na conceituação do som do Pato Fu. Só o John é o cara que embarca nessa espaçonave assim com mais freqüência ou toda a banda tem interesse na questão tecnológica?
Fernanda
Eu acho que o resto da banda, digamos, somos usuários inteligentes dessa tecnologia e o John é o cara que coloca ela disponível pra gente, que acha as coisas...
John
As maquininhas...
Fernanda
Acha as maquininhas, e faz a interface agradável pra gente. A gente é super curioso com isso, mas eu realmente não tenho domínio. Eu ligo o estúdio lá basicamente... Sei operar algumas coisas que ele me mostrou, mas eu não tenho esse ímpeto de mexer nos programas e criar um padrão meu.
Eu provavelmente iria usar o que vem de fábrica, que eu escolhi... É como... Quem é tecladista, pode construir seus próprios timbres, o guitarrista pode formatar os seus pedais de guitarra, o John gosta muito de extrair o máximo do equipamento, de criar as coisas dele. Todos gostamos. Todo mundo é fã de Internet, de seus Ipod’s essas coisas todas, mas hoje em dia acho que o Lulu seria o segundo comandante.
John
É, o Lulu Camargo, meu camarada... Ele me ajuda um pouco nessa parte tecnológica... Principalmente, nessa turnê, agora, eu e ele montamos um monte de... Temos a sensação de que, a cada turnê que a gente vai fazer, a gente tem que inventar os instrumentos, né? A gente não vai só à loja e compra os instrumentos, a gente tem que inventar os instrumentos, são coisas invisíveis na verdade, mas a gente tem feito umas coisas bem malucas, bem complexas, cara...(risos).
Fernanda
Ficar passando cabo dentro do computador...(risos)
John
É... “Cabos invisíveis”.
Painel
E por falar nisso, vocês tem essa característica de estarem sempre experimentando coisas novas, o que vocês ainda não exploraram com o Pato Fu?
John
Ah, a gente ainda não fez uma música em Esperanto, né? (risos).
Fernanda
Ah, muito provavelmente a gente não fez muita coisa ainda, porque mesmo que tenha feito várias coisas diferentes em muitos discos aí... Tem sempre buraquinho novo pra você cavucar aí...
Painel
Quais são os novos experimentos? Vão aprender Esperanto? (risos)
John
É, não sei.
Na verdade, a gente não tem essa coisa de uma arqueologia científica para experimentar novos sons, eu não vou à biblioteca ler sobre instrumentos musicais, tentar achar isso... Na verdade, as idéias vão aparecendo.... Essa coisa lá do teremin apareceu por causa de um pré-set. Tem um instrumento virtual num programa que eu uso e tinha o som de teremin... Eu escutei aquele som, o sonzinho do teremin e pensei em fazer uma música. Sabe, eu não fui ver livro de história sobre o teremin, o resgate do teremin. Depois, apareceu o clipe em que a gente entrou em contato com o diretor, o Luiz Ferrer, e ele,sim, estava fazendo uma pesquisa sobre o teremin...
Fernanda
E foi a maior coincidência...
John
Ele ouviu a música, e falou assim: “isso é incrível!!!
É pra essa a música que vocês querem que eu faça o clipe?”
Painel
“Porque eu estou estudando isso no momento..”?
Fernanda
É, e a história foi mais incrível ainda porque ele é um super diretor de propaganda, né?, de filmes de propaganda e ele é muito bom, só que ele não faz clipe. Aí, nós vimos um portfólio dele e: “vamos falar com ele, quem sabe ele não faz videoclipe?”. Aí, falamos até com uma amiga dele que disse: “não, ele não vai fazer, ele não faz clipe, ele está super atarefado...”. Aí, nós pensamos: “vamos mandar uma música pra ele, né?, quem sabe, né?...”. E nós mandamos pra ele o single do “Eu”, e ele falou: “Vamos fazer uma reunião”. Chegou na reunião, ele falou: “vocês não sabem, mas eu acabei de voltar de Nova Iorque com um livro sobre o Leon Teremin, com um VHS” (na época, era VHS, nem era DVD ainda), era 2000, era 2001...
“É um documentário, eu tô apaixonado por esse cara e nada mais legal do que um videoclipe para popularizar para as pessoas, hoje em dia, né?” Não é uma propaganda, você vê que ninguém está injetando dinheiro nisso, não vai fazer ninguém ter teremin aqui no Brasil e é uma linguagem pop e super divertida e super bacana, e aí ele falou: “vou fazer!”. Depois não fez mais nenhum. Desde lá, ele não fez mais nenhum clipe...(risos)
John
É que na verdade, essa idéia de usar sons diferentes ou ritmos diferentes, ou muitos elementos, vem do fato de a gente ter essa liberdade e quando eu escuto o som de um instrumento que eu comprei, ah, isso é legal eu vou usar. A gente não tem rótulos fixos, então se você tem uma banda específica de reggae você usa um som de Hammond (teclado dos anos 60),... Você usa uma guitarra tal... São os timbres clássicos de um segmento específico. A gente não tem isso. Então, quando aparece uma idéia boa a gente usa. Não interessa se isso não é o clássico...
Painel
Então, legal. Vocês têm uma preocupação, assim, sonhou com um som. Aí, vocês vão lá atrás tentar desvendar que timbre é aquele que está na cabeça de vocês?
John
É se a idéia for boa, a gente sai usando. É simples assim. Como não temos essa fronteira estilística, permite isso... “Ah, tive uma idéia de uma musica em japonês”... Ótimo, beleza! Pode fazer...Não que isso seja uma fórmula de uma banda boa, porque bandas excelentes são mais estreitas, também. Isso pode ser bom, também. Não é o nosso caso, não é como a gente faz. A gente tenta olhar por cima e quer fazer a música ao contrário. As primeiras palavras viriam no final. Se a idéia for boa, a gente faz. Se não, a gente joga no lixo.
Painel
Vocês acham que falta isso um pouco no cenário, hoje em dia? Procurar novas coisas, experimentar, não ter esse padrão? Não fechar a banda: “nosso som é esse e vai ficar assim”.
John
Eu acho que as bandas podem ser boas de qualquer jeito. Sendo assim, ou não. Eu sinto um pouco, principalmente o que se ouve muito em rádio, as bandas um pouco na retranca, sabe assim?! Todo mundo fazendo o que é mais garantido...
Fernanda
É meio que assim: uma banda faz uma música, aí a outra fala, bom vou fazer assim também... Porque é assim que o pessoal quer... Aí você acaba ouvindo as músicas novas, disco após disco, e parece sempre que é o primeiro disco. Toda banda tem que ter uma evolução. Todo mundo pega a sua discografia e escuta e percebe. Eu, por exemplo, vejo como eu canto melhor hoje. As coisas que eu escolho cantar fazem até mais sentido para mim. Isso eu acho bom, uma evolução. Agora, sei lá, a primeira música nossa que tocou muito em rádio foi “Antes que seja tarde”..
Painel
Teve “Sobre o tempo”, não é?!
Fernanda
É, mas “Sobre o Tempo” tocou em rádios com programação muito especial. O “Antes que seja tarde” tocou em rede, em novela. Agora se a gente fizesse todas as músicas iguais a ela, porque só ela tocou, ia ser super sem graça, para o ouvinte e para a gente. Acho que a banda não existiria. Faz parte da gente ouvir coisas distintas, e fazer com que cada música tenha sua própria história. Agora tem artista que gosta mesmo: - Não eu acho que é assim que tem que ser. Eu vou falar de amor desse jeito.
John
Para alguns artistas isso pode ser a manutenção da identidade: – Não, minha identidade é essa. Eu sou honesto porque eu faço a mesma coisa desde que eu comecei.
Se isso for bom, tá bom. Se isso ficar chato, tá ruim. É simples assim. Essa fórmula pode ser usada para o bem ou para o mal.
Fernanda
Já diria o Agente 87 (risos)...
John
É 86 (risos)...
Painel
Coitado do 86...Morreu outro dia...
Falamos sobre esse conceito do “novo”, e isso me arrepia um pouco...Seria uma retro alimentação do artista ou o quê?
Vocês acreditam nesse conceito de “novo”? E. se acreditam, como é que vocês o definiriam?
John
Eu não busco incessantemente o novo, não. Na verdade, o que eu tento fazer, quando a gente tenta abordar um tema, uma letra, uma música, é...Eu sempre tive um princípio pouco ortodoxo. Imagina que, quando eu faço uma música, que na hora que eu toco ela assim, puxa, isso aqui, a composição, me parece que é uma balada triste.
Aí, eu pego e coloco o ritmo mais alegre que eu conseguir em cima daquilo ali, e não funciona muito bem. Mas aí eu vou arrumando aquilo, e eu nunca me arrependo. Porque aí aparece alguma coisa que nem era exatamente o que eu esperava e nem exatamente o que está aí. Essa idéia de ter uma certa repelência pelo clichê, eu acho que isso é muito saudável.
E mesmo que você seja mal sucedido, a princípio, pelo menos você não vai ser mal sucedido fazendo a mesma porcaria que está todo mundo fazendo. Você faz a sua própria porcaria. Sei lá, eu acho que isso é um negócio importante. Se você fizer um negócio ruim que seja seu próprio negócio.
Fernanda
Mas é difícil mesmo identificar o novo. Por mais que seja uma banda nova, você fala é bem legal, mas isso aí já faziam há um tempo atrás. Acho que tem bandas legais que tem o rótulo de novo de “a grande novidade”, mas o ponto positivo delas é de estarem se alimentando de coisas legais do passado, e de uma certa forma botando uma roupagem, seja pela timbragem de guitarra, ou pelo o que estão apresentando na letra, um pouco mais atual.
Não que seja necessariamente novo. Acho que é assim em várias escolas, de moda, de artes plásticas. Música não é diferente, não. Tudo o que você absorveu durante toda a sua vida é material para você fazer sua próxima coisa. O que traz um pouco de novidade é a sua experiência cotidiana, que pode ser parecida com a experiência dela, com a de outra pessoa e é por isso que, principalmente a música pop, muita gente fala “puxa, essa música foi feita para mim, é tudo que aconteceu na minha vida”. Por isso, porque você pode ter tido a mesma experiência da pessoa. E você colocou aquilo ali abriu para um monte de gente interpretar de uma forma ou de outra.
Painel
E você não parecem ter uma grande preocupação com o futuro, com o lance de estar sempre na mídia...Seria esse um dos segredos do sucesso do Pato Fu?
John
A gente tem certa exposição e ela é boa porque a gente toca mais, acaba tendo mais recursos pro próximo projeto...Ela é boa, mas a gente nunca colocou uma coisa à frente da outra.
Pelo menos, esta é a nossa tentativa.
Eu jamais vou fazer uma pesquisa de opinião pra saber “ô, o que é que o povo quer do PaTO Fu?” e vou lá fazer...Eu vou sempre colocar “olha, essa aqui é a minha proposta. Tomara que vocês gostem...”
Fernanda
É, nem o repertório do “Ao Vivo” a gente abriu pra votação, porque...
John
É... Tem aquela coisa que algumas bandas fazem do “o público vai escolher o repertório”.
Acho que pra algumas bandas que são realmente populares, isso é simpático, “pó, a galera é que vai escolher qual vai ser o nosso repertório”.
Isso pode até parecer chato de nossa parte, mas a gente pensa o oposto: a gente é que vai escolher o repertório e vai propor.
Pra mim, essa é a função do artista...
Painel
Por que vocês é que têm que sentir prazer tocando a música?
John
É! E porque a gente propondo as músicas, a gente não vai colocar lá só lado B, porque vai ficar chato... Então, a gente vai propor coisas que são populares, também.
E eu justifico pra essas pessoas, porque essa retro alimentação muito direta,assim, eu acho que ela é perniciosa...Ela vai nivelando por aquilo que é mais fácil, mais popular, que é sucesso garantido.
Mesmo que isso possa funcionar pra algumas bandas, acho que isso não é o nosso caso, a nossa forma.
Fernanda
E aparecer em determinados programas é bom pra popularizar a sua imagem, mas nem em todos os programas é bom você estar.
Puxa, quantas vezes... Até a gente parou de fazer isso... Sei lá... De 98 a 2000? Não, 98 e 99, mais ou menos... A gente fez muito programa de auditório que era “playback”... E tinha aquelas mulheres dançando, atrás... Dá pra imaginar quais sejam esses programas, né? (risos)
E eu to tocando, lá, e olho no monitor e tinha uma moça lá dançando e era o “Concurso da Camiseta Molhada”... E era uma música chique e eles dando close namulher lá, molhada, e eu pensei: “puxa, não é possível,eu tô no lugar errado!”.
“Eu não tô gostando disso e tem muita gente que gosta do Pato Fu que não deve estar achando nada disso bom!”.
Então, não dá pra você ficar aparecendo em todo lugar, só porque sabe que vai ganhar 4 minutos de exposição no programa de maior audiência...
Então, ó o que a gente fez –e não é que a gente seja chato: a gente prefere fazer programas ao vivo, e programas que a gente se sinta bem, que tenham a ver, em que o assunto principal seja a música.
Eu não quero chegar lá pra tocar pros caras da novela ficarem sem camisa jogando basquete, eu não quero fazer isso mais.
E a gente fez, justamente, porque não sabia como era... E não é bom...
Então, agora, com esses anos todos de carreira, a gente se dá ao luxo de escolher ondea gente vai, né?
Os convites são sempre muito bem-vindos, a gente retorna com muita delicadeza “olha, é que não temos feito mais programas que sejam “playback”... Se tem uma ginkana que não tenha música, a gente prefere não fazer... Até porque a gente não é bom nisso! A gente fica constrangido! A nossa cara não passa pro público a alegria que vocês querem. E as pessoas entendem...
John
E tem uns caras que tem talento específico pra fazer esse tipo de programa... E, pra ser bom,e os caras chegam lá e pá, e aquilo dá audiência... E a gente chega lá, com aquelas caras de roqueiro inglês que não tão a fim de estar ali e a audiência vai caindo e os caras não nos chamam mais... Não é mais necessário (risos)
Então, é assim, a gente, aos poucos, foi construindo essa persona, tipo: não adianta chamar a gente pra fazer esse tipo de programa, porque não vai ser bom nem programa nem pra gente... E o nosso público não tem uma identificação com esse tipo de coisa.
Painel
Ao contrário de muitas bandas, vocês têm uma “pegado ao vivo” que é extremamente vigorosa e que não fica a dever nada à pegada dos CDs.
Tem algum segredo? E houve algum momento em que vocês não ficaram satisfeitos com o resultado obtido ao vivo?
John
Desde o primeiro disco a gente tem essa coisa das bases eletrônicas... No início, tudo era feito com as bases eletrônicas e a gente tocando... Guitarra, baixo e voz por cima...
Painel
Até tinha uma bateria que você tocava no próprio corpo...
John
É... Eu não faço mais aquilo... (risos gerais)
Não... Aquilo ali, era justamente uma idéia que criar nas pessoas uma simpatia pela parte eletrônica...Porque, às vezes, o cara chega lá e diz: “ah, não tem bateria... Isso aí num tá com nada, não!”...
E eu tocava aquele negócio e os caras ficavam: “pô, que diabo que esse cara tá fazendo?!?”...
E isso era bom... Isso criava uma sensação de que isso era tão interessante quanto um batera de verdade.
Mas, a gente tem, hoje em dia, muitos recursos eletrônicos pra levar pro show. Todos os barulhinhos, todas as coisas que estão no disco, né?
Na época em que os “Beatles” fizeram “Sargeant Pepper´s”, sei lá, o disco era impossível de ser tocado ao vivo... E, hoje, seria moleza fazer aquilo.
Fernanda
E tem um detalhe, uma regra fundamental e não sei... Acho que quem falou isso foi o Pete Townsend (guitarrista e mentor da banda inglesa The Who): “toda banda é tão boa quanto o seu baterista”.
E a gente tem um baterista que eu acho que é um dos melhores do Brasil... E acho que do até do mundo... Porque ele já foi fazer “workshop” na Alemanha, na França...
O Xande é muito, muito preciso... E isso faz toda a diferença!
John
É! O que a gente tem hoje é uma banda, uma “cozinha” (baixo e bateria, a seção rítmica), a pegada da banda sem a parte eletrônica, que é muito potente. Muito cravada, muito certa... E tem a riqueza desse lado eletrônico. Então, a gente tenta juntar as duas coisas, o melhor dos dois mundos... Que esse lado eletrônico não torne o show frio, porque tem uma banda “quebrando o pau”...
Painel
Inclusive, lá, há meses, quando a gente tava iniciando os contatos pra tentar entrevistar ao Pato Fu, eu sempre comentava sobre a “cozinha” como um ponto forte da pegada da banda.
Eu não me lembro bem, e me perdoe se eu estiver enganado, eu era moleque à época, mas eu sempre faço uma analogia dos “Paralamas” saindo do “Rock in Rio” abraçados e com aquele astral de “porra, mandamos ver”.
E eu me lembro de vocês, acho que, também, que num outro “Rock in Rio” com o mesmo brilho no olhar. E foi louco, aquilo... E o Xande, também, tava num dia especial... E isso passou pra todo mundo que tava vendo...
John
Pô, eu tenho essa imagem dos “Paralamas”, também, na minha cabeça, como a imagem de “o que que uma banda tem que fazer”... Eu lembro de ter visto aquilo, aqueles três moleques lá, quebrando tudo,e foi uma imagem muito forte aquela.
Eu lembro que eu quis ter a primeira guitarra preta, porque a guitarra do Herbert (Vianna) era preta... (risos)... Era uma Ibanez preta... E imaginar que a gente tenha gerada uma imagem próxima daquilo, é muito legal!
Painel
Até hoje, eu só encontrei uma imagem, no meu imaginário particular, pra comparar com aquela, e foi a de vocês... Foi muito legal...
Fernanda
E foi tão difícil... Cê vê... Essa edição do Rock in Rio teve tanta polêmica... Bandas importantes que saíram... O Rappa, o Skank... E a gente ter sido escalados pra “noite teen”... E a gente falou: “pô, num dá pra tocar em “noite teen”... E trocaram a gente... Fomos tocar na noite do “Guns” (and Roses, banda dos EUA)... Pô, prefiro tocar na noite do “Guns”, com todas as dificuldades que tem a platéia do “Guns”... E tava só “Guns” lá... Eu acho que a gente dá mais o recado pra essa platéia, do que pra “noite teen”...
E, realmente, a gente foi atendido nessa solicitação... Havia diálogo com a produção...
John
E não tivemos problemas nenhum com essa coisa de som... Nada...
Fernanda
É... Teve passagem de som, teve o equipamento... Realmente, acho que as bandas saíram por um problema de vaidade de uma das bandas... E essa banda cooptou as outras... E foi um negócio bem chato... Mas a gente fez o show e no DVD de clipes nosso, que já saiu, de 2004, tem um conteúdo escondido, não sei vocês já acharam, que são os bastidores do Rock in Rio, e a cena final desse filminho de 4 minutos, é um minuto de uma reunião, antes da gente entrar no palco, e eu pergunto assim: “e aí, e se der pau, o que é que a gente faz?”... (risos gerais)...
Aí fecha... Mas, no final, deu tudo certo... Foi tudo ótimo!
Mas a gente tava preparado pra uma garrafada, talvez, igual à que o Carlinhos Brown levou... Podia ser um grande fiasco na nossa carreira... Não conseguir dar o recado do Pato Fu frente à uma platéia sedenta por outra banda...
Que é uma coisa que, nos festivais, os artistas têm que se confrontar... Com uma realidade de que a maioria do público foi lá pra ver outra pessoa... Só que a gente conseguiu fazer, e foi extremamente importante...
Veículos de todo o mundo tavam lá, e as nossas músicas começaram a tocar em outros países... A gente deu entrevistas pra muita gente e isso tudo multiplicou, de uma maneira muito boa, a imagem do Pato Fu.
Painel
É, mesmo, um dos marcos na carreira de vocês...
John & Fernanda
Foi... Foi uma data muito importante...
Painel
Eu sei que a música é do John, mas como é pra vocês o fato de terem escrito uma das mais belas canções dos últimos tempos, que é a “Canção Pra Você Viver Mais”?
John
Cara... É uma música que diz muito... Ela é real, né? Então, um pouco de verdade, ás vezes, cai bem...
A gente cria muita ficção, mas quando é um negócio que é verdade, eu acho que isso é perceptível...
Se você fizer de verdade, com o coração, sem se deixar levar pelos clichês ... Ah, vamos fazer assim, pra ela ficar mais comercial, essa coisa toda... Bom, isso acaba passando, d eum acerta maneira...
Acho que de todas as músicas que eu já fiz, essa é a única em que eu lançei uma certa luz sobre um tema fundamental, e que eu não tinha visto ser muito explorado... Assim, dessa maneira...
Às vezes eu escuto umas músicas e falo: “pô, a pessoa fez um verso aqui”...
A música da Björk (cantora, compositora e atriz finlandesa), “Always Full of Love”... Eu penso: “puta, que verso incrível” .... E a pessoa fica cantando, repetindo aquilo: “Always Full of Love”...
Painel
Tipo um mantra...
John
Pô, alguém colocou esse ovo em pé... E como é que eu não pensei nisso antes?
Então, com essa música, eu tenho a sensação de que eu acertei nisso, uma vez na vida, assim...
Tipo, porra, fiz uma música que é uma despedida pra alguém que ta morrendo... E isso é um tema que eu não me lembro de ter visto escrito dessa forma... E, realmente, as pessoas se identificam com isso tremendamente, porque é uma situação que eu vivi lá...
Fernanda
E é uma música que tocou em rádio, e a gente nem sabia que ela tava tocando, e começou a chegar gente falando e...
John
E a gente já tava gravando o outro disco...
Fernanda
É A gente já tava gravando o isopor... E essa música começou a tocar e começou a tocar...
Essa música chegou ao ouvinte que não era ouvinte do Pato Fu... Começou a tocar em rádios de programações mais adultas, ditas A, aquela coisa toda... E começou a tocar em rádio popular, depois...
E engraçado, que foi uma grande surpresa, porque quando a gente mostrou o disco pronto pro pessoal da gravadora, sei lá quem, numa reunião com 40 mil pessoas, eles: “ah, essa música é muito boa, mas esse efeito na voz estragou totalmente”... “Ninguém vai tocar isso...”
“A voz tá muito achatada, vamos tirar esse efeito...”
Eu falei: “Não, não vamos tirar, porque o conceito da música é esse!”
Meu, o disco pronto, deixa assim, se não for tocar, tudo bem, toca outra... E a música começou a tocar, e tocar...
E os caras: “é, a música é tão boa, que mesmo com aquele efeito que estragou a voz, ela tocou..” (risos)
E o pior, é que até o cara do cafezinho, lá na gravadora, falou: “é... Essa música é boa, pena que estragou a voz...”.
E eu falei: “não é que estragou, é pra soar daquele jeito!” (risos)
John
E um dos motivos de a música ter se tornado interessante, é o fato de ela ter sido gravada daquele jeito...
Painel
Fernanda, e você tentou escrever aquela música, né?
Fernanda
É! O título é meu... Eu escrevo, também... Não escrevo tanto quanto o John, mas... Nesse disco nem tem muita minha, e geralmente tem 10 músicas do John e 2 minhas, em parceria com ele, ou sozinha...
Eu queria, realmente, ter feito essa música. Por isso, que eu me orgulho tanto do John tê-la escrito... Ter concluído essa obra...
Porque era exatamente tudo o que eu queria ter dito pro meu pai e não falei. Aí, a gente fala, “a, com certeza ele ouviu!”.
E ouve até hoje... É uma música muito bonita... Muito emocionante...
Painel
Você foi cogitada pra integrar os Mutantes neste retorno. Houve mesmo esse lance? E o que vocês acham dessa volta?
Fernanda
Eu não fui convidada, convidada mesmo! Eu fui sondada.
E lógico que eu aceitaria, não teria porque não aceitar.
Painel
Desde que começaram você são muito comparados aos Mutantes...
Fernanda
É, mas teria esse show no dia 22, mas a coisa se desdobrou... Já vai ter show no Japão, nos Estados Unidos.
Eu não poderia ter essa disponibilidade de deixar o Pato Fu, pra ir cantar com Os Mutantes. Aí, a banda acabaria... Nenhum integrante... Bom, talvez o John, que é meu marido, fez o trabalho com o Arnaldo, tem esse envolvimento, talvez ele poderia ser mais flexível, mas os outros integrantes, o nosso escritório, o pessoal que trabalha com a gente, técnicos de som, de estúdio...
É muito estranho, eu deixar uma carreira nossa, que já tem tampo tempo... Pô, pára o Pato Fu aí, um pouquinho... Uns 3, 4 meses, que eu vou cantar com Os Mutantes...
Essa disponibilidade, eu não teria. Por isso, talvez eu não fosse a pessoa adequada pra participar desse show.
Aí, depois, teve a Rebecca, e teve a Zélia... Poxa, a Zélia é super amiga nossa.
A gente ficou super contentes com a escolha... Talvez não fosse a escolha, assim, que todo mundo poderia achar mais correta... “Nossa, mas a Zélia não tem nada a ver”
John
Mas é que a Zélia tem essa disponibilidade, né? Ela tem a carreira própria, solo... Ela pode fazer a agenda dela da maneira que ela quiser...
Fernanda
Então, a gente ficou contente... O Arnaldo, poxa, pela convivência que a gente tem com ele, a cada momento ele melhora. Porque a música voltou na vida dele, como coisa produtiva, mesmo, né?
Ele lançou o disco e ele quer tocar... O Sérgio, também!
E resolveram um problema de 33 anos –de não se falarem!
Por um mau entendido, até... E eles tão muito contentes.
O nosso empresário é que está trabalhando na produção desse show, e ele relata coisas muito legais, de como tá fazendo bem pro Arnaldo essa volta.
Independentemente de ser “caça-níqueis”, de ser nostálgico, pessoalmente, pros caras...
Veja, os dois,o Arnaldo tem 60 anos...61... O Sérgio é mais novo... Poxa, os caras voltando com o olho brilhando, assim, cantando como se estivessem nos tempos do começo...
Então, só posso ver coisas positivas nisso tudo!
Painel
E o que vocês consideram que seja o melhor e o pior de ser uma banda POP?
John
O melhor é ser comparado com outras bandas que estão nessa mesma prateleira, tipo os “Beatles”.
O pior é estar na mesma prateleira que, sei lá, a Kelly Key (risos gerais)
Painel
Ou ser chamado pra “noite teen”?
John
Nessa hora, a gente pensa assim, bom, se os caras tão me colocando na noite da Britney Spears (“cantora” dos EUA), alguém não tá entendendo bulhufas, aqui... (risos gerais)
Ou, então, a nossa mensagem, realmente, é torta desse jeito...
Mas, o rock, pra mim, é um segmento do universo POP, e não o contrário.
O universo POP é mostruoso, vai de Kelly Key à Sepultura.
Isso é universo POP. O resto é Erudito, ou Jazz, ou Tango, isso é outra coisa.
Música POP, pra mim, é outra coisa.
Fernanda
Pode ser o punk da Califórnia...
John
É... Pode o punk da Califórnia, pode ser “Dead Kennedys” (banda dos EUA), ou o ABBA (quarteto sueco)... Isso tudo é POP, é universo POP.
Dentro do universo POP tem o rock, tem o heavy metal, tem o punk, tem a música eletrônica...
Eu gosto de pensar que eu sou uma banda POP, nesse sentido.
Mas é óbvio que tem outra conotação pro POP que o de música rasteira... Música comercial...
Painel
Música ligeira...
John
Eu não me incomodo que as pessoas classifiquem o Pato Fu por aí... Vou fazer o quê?
Painel
Você respondeu à minha pergunta, porque me incomoda –e muito- essa coisa abjeta d eque as pessoas têm necessidade, que é o rótulo. E você conseguiu definir, em palavras, algo que eu queria há muito tempo...
É óbvio que vocês têm preocupações e inquietações intelectuais enormes.
Como é que o Pato Fu se posiciona politicamente, em que margem? Vocês têm uma tendência política à qual vocês estariam atachados?
John
Eu acho que a gente não se posiciona muito, assim, temos as nossa colocações, mas eu considero que o meu pensamento político pode ser classificado como “mediano”, ou “medíocre”, mesmo!.
Não tem nada de mais... Às vezes, eu gosto do quê um cara fez, do quê um outro cara fez, e tal... De vez em quando eu me coloco politicamente em algumas canções, algumas coisas têm um perfil crítico.
Uma das coisas que mais me incomoda ultimamente, e à qual eu sempre me refiro de uma maneira mais metafórica nas canções, é a coisa das religiões, das igrejas, isso tudo é uma coisa que me pega de jeito...
Fernanda
E uma das coisas mais divertidas do disco tem isso, que é uma música dele, “La, la, la, ie, ie, ie”...
John
É... Que é quase uma declaração de ateísmo, mas não é de ateísmo, é de descrença nas instituições religiosas, e não nas religiões em si.
E acho que a gente se coloca de uma maneira sutil... Nunca apoiamos partidos ou candidatos... Ou uma corrente específica de pensamento.
Mesmo porque, dentro da banda, nós temos pessoas e opiniões diferentes, então...
Fernanda
É difícil hastear uma bandeira comum... Mas, por conta de alguns projetos que agente fez terem sido levados prum outro lado, a gente já colaborou com... Mas isso não vem a público...
Mas há algumas ONGs de Belo Horizonte... A gente já fez tiragens de CDs, de trilhas de desfiles que a gente faz, elas têm a verba revertida pra ONG do Grupo Corpo –que é um grupo de dança lá de BH....
E eles tiram cidadãos da rua, através da arte... E, com esse tipo de coisa, eu acho legal que a gente possa colaborar... Com o que a gente faz, e não com um tipo de discurso que eu não posso fazer em nome de toda a banda... E é uma coisa mais sutil, mesmo, mas nem por isso...
Se perguntar pra cada um da banda, cada um tem a sua posição, mas a gente não pode ficar de porta-voz deles....
John
Não é muito parte do meu estilo de escrever, o tom acusatório, sabe?
Imperativo... Ou, acho que eu sou, pelo menos em nível pessoal, o “rei do benefício da dúvida”...
Então, muito raramente eu vou escrever alguma coisa dizendo que isso é certo, isso é errado...
Eu tenho dificuldades em escrever coisas assim, e mesmo quando eu escrevo, eu escrevo em primeira pessoa, como se o culpado fosse eu...
Fernando
Aponta o dedo pra você, mesmo...
John
É, inventado um personagem... Tipo na música “Licitação” –que fala de roubalheira e todas essas coisas-, eu falo, em primeira, pessoa “vamo robá!”, e eu espero que as pessoas entendam o sentido inverso.
Painel
Psicologia reversa?
John
Pois é, mas eu não consigo fazer o panfleto puro, sabe?
“O imperialismo” e tal...
Eu vejo isso e acho muito bobo... Não consigo...
Fernanda
E é engraçado que, às vezes, as pessoas não entendem.
Logo que saiu o disco, por causa da “Estudar Pra Quê?”, teve até um site de educação que falou: “pô, John, você está incentivando as pessoas a não estudarem”.
E não é...
Painel
É, é exatamente ao contrário, né?
Fernanda
É! Tá é se perguntando como é que os novos professores e a nova conjuntura vão trazer o cara pra escola, já que ele prefere ficar em casa, no computador...
De repente, consegue sobreviver fazendo alguma coisinha aí, pela Internet...
Então, realmente, é sempre o benefício da dúvida, tem que fazer as outras leituras...
John
E, em retrospectiva, e acho que isso até é um posicionamento político.
E não é ortodoxo... Aquela coisa de falar sobre todos os assuntos, especificamente, e ter as opiniões simplistas e tal... A gente sai usando as nossas metáforas... Eu acho isso mais divertido.
Painel
Vocês acreditam nesse conceito de que isso teria muito a ver com o perfil do “mineiro”?
O fato de ser uma pessoa mais reservada? Uma coisa cultural, e que grassa muito na política?
John
Eu não consigo separar isso, já que eu sou mineiro...
Fernanda
E eu não sou mineira...
John
É, mas você tem esse mesmo espírito...
Fernanda
(risos)
John
Num sei, talvez seja... Eu tenho um pouco essa coisa do benéfico da dúvida, que outras pessoas diriam que eu estou em cima do muro... De não tomar uma decisão...
Eu sempre acho assim: “poxa, será que ele tava roubando, ou não? Será que ele tá falando a verdade?”(risos)....
Eu não sei... E se o cara estiver falando a verdade?
Tipo, eu acho que o Michael Jackson é inocente.
Painel
Eu também acho!
Fernanda
Eu também!
John
Aí, os caras se mataram pra ir voar lá no cometa... E se os caras foram pro cometa, mesmo? (risos)...
Então, eu tenho muito esse raciocínio... Isso é coisa de mineiro? Não sei! Sei lá...
Fernanda
Talvez porque nos últimos anos –e eles não gostam que digam isso, que eles ficam bravos- os mineiros tenham ficado no segundo time da política, eles não estejam dando a cara para bater... Ficam só nos conchavos...
John
Os políticos mineiros, quenado eles querem dar uma de durão, eles ficam assim... Eu me lembro até do Itamar (Franco, ex-presidente do Brasil) querendo ficar durão, e ninguém leva a sério (risos)...
Painel
Talvez porque o mineiro seja mais articulador, né?, diferentemente dos gaúchos lá, que são mais malucos, mais belicosos...O mineiro é mais parlamentar...
John
É... Eles fazem mais esse personagem do “eu faço e aconteço”, de dar a opinião, sei lá...
Painel
E como é que vocês analisam o momento político atual, em função dessa crise oi pseudo-crise que tá rolando?
John
Nesse momento, eu acho, particularmente, que a gente tá passando por um momento que é uma provação pro eleitorado brasileiro... Que, realmente, não sabe o que pensar direito...
Fernanda
É! O que é que vai sobrar? Quem vai sobrar pra não deixar o país cair?...
John
É aquela velha questão de “vou votar no que for menos pior”, ou “eu não tenho nenhuma opção, então vou votar nesse aqui mesmo”, é aquele tipo de linha de raciocínio que é usada em quase todas as eleições...
Chegou num nível, meu, que é, assim,...
Fernanda
Dá pra fazer por eliminação...
John
É... Dá pra fazer por eliminação, porque as opções ao PT não me agradam muito.
Mas, por outro lado, eu falo:”porra, esses caras foram pegos fazendo a coisa e eles têm que se ferrar!”.
Às vezes, eu acho que o último raciocínio é esse!
Ah, será que no fim-das-contas eles ainda não são melhores do que os outros caras?
Aí tem uma hora em que eu falo: “pô, quem for pego fazendo isso, tem que ir em cana...Tem que se foder... Esse cara tem que se ferrar...”.
Porque, senão, não dá mais... Uma coisa é “ah, mas todo mundo rouba”.
Tá bom, “todo mundo rouba”! Mas quem for pego tem que se ferrar, tem que ir lá pras minas de sal, cara! Se não, não dá!
Porque se nem esses caras que são pegos forem pra minas de sal, cara, quem é que vai?
Nesse momento, eu não sei o que pensar... O meu “benefício da dúvida” tá sendo posto à prova (risos)....
E eu não sei o limite máximo, cara...
Painel
Acho que já chegou ao limite máximo da dúvida...
John
É! Agora, a dúvida,é o que fazer com a certeza...
Painel
Bom, pra concluir, eu peço que vocês deixem uma mensagem pra todos os nossos ouvintes e que nos digam pra onde vocês acham que está indo a nossa nave-mãe, o planeta Terra?
John
Pra todo o planeta? Ihhhh... Natação é o melhor esporte (risos gerais)...
Fernanda
Nos últimos tempos, eu tava pensando nessas mega-tragédias da natureza... Parece que é a Terra cuspindo de volta tudo ao longo dos anos, e que parece que chegou numa
válvula de escape, e que já não tava mais segurando e que, agora, vai vir tudo na forma de catástrofe, mesmo...
Parece que ela já foi muito maltratada e tamos aí com tsunami, tornado...
Esquisito, né?, parece uma resposta física a tudo de físico que foi feito com ela.
Puxa, agora, que a gente tem uma filhinha, fica pensado: “será que ela chega lá, pra dar um recado desse, assim?”...
Será que a panela de pressão não vai estourar?
Não só na parte da Terra, mas você fica sobre ela,né?
E as tensões? Você vê que tá tudo a ponto de explodir, em qualquer lugar.
Poxa, o que aconteceu em New Orleans é uma cena de terror... Digna dos livros do (José) Saramago (autor português, Nobel de Literatura)...
Se você imaginar uma ficção pesada, todo mundo perdeu qualquer nível de consciência do que é certo ou errado... É tudo instinto animal, e animal bravo, que pega-mata-e-come, mesmo!
Você fica com o facho meio baixo, frente a tudo isso, mas tem um bocado de gente que tá remando pro negócio melhorar...
Pra que as luzes se acendam, de novo, e pra que a gente seja humano de novo, no mínimo...
Pra gente continuar a viver, a gente tem que ser humano, que é o básico, que é o que nos domina...
Painel
E isso tem volta?
Fernanda
Ah, não sei... Espero viver o suficiente pra ter uma resposta positiva (risos)...
John
A humanidade, nos últimos anos, tem sido uma grande decepção!
A intolerância –que um dos piores sentimentos- é campeã!
Engraçado, porque quando a gente viaja pro Exterior, a gente sente essas divisões entre os países... A Espanha tem o pessoal lá de Barcelona, de Madri, são inimigos, não falam a mesma língua...
E eles têm história pra isso, é o lance do “meu pai matou o seu avô”, e é uma coisa sem fim, que continua...
Em tese, o Brasil parece que tava melhorando... O Brasil, de uma certa maneira, é um exemplo disso, por mais que aqui exista tudo isso também, mas é muito menos...
O brasileiro, quando vai lá pra fora, fica espantado com essas diferenças e intolerâncias....
E a gente tem a sensação de que são motivos menores dos que os que a gente tem... Aqui tem muita desigualdade social e tudo, e seria pra gente brigar muito mais, mas a gente briga menos do que esses países... E olha que nossos motivos são maiores...
O que vem acontecendo no mundo, eu acho impressionante, parece que a gente está rumando pra Idade Média, de novo...
A sensação que me dá dessa intolerância religiosa e de todos os outros níveis, também, eu realmente achava que a gente tava indo prum outro lado... Todo mundo achava...
Painel
Bom, queremos agradecer... Extrapolamos um pouquinho o tempo...
John
Francamente, viu?!?!? (risos gerais)
Painel
Muito obrigado pelo tempo de vocês, pela simpatia e atenção que tanto a Assessoria de vocês quanto vocês próprios dispensaram a nós... Obrigado!