Entrevista
Entrevistado: Heródoto Barbeiro
Entrevistador: Olavo Dáda Neto & Camila Oliveira
Data: 18-04-2006

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Se existem pessoas às quais pode ser aplicada a expressão "esse é o cara!", certamente, Heródoto Barbeiro é uma delas.


Multi-facético e complexo, Heródoto é jornalista, historiador, professor, advogado, "corinthianíssimo" (em sua própria definição) e outras tantas coisas que vocês irão descobrir no transcorrer da entrevista que se segue.


Heródoto Barbeiro nos recebeu, com sua irresistível simpatia, na sede paulistana do Sistema Globo/CBN de Rádio, na rua das Palmeiras, numa tarde de fins de março de 2006.


Agradecemos à assessoria pessoal do entrevistado e ao "Hulk" -que nos levou até lá.


Fotos de Camila Oliveira.


Colaborou: Amy La Scala (transcrição do áudio).


Boa diversão!


Saúde & Paz e um abraço do Olavo.


 


 Painel


Gostaria de agradecer, em nome de toda a produção do Programa Painel, a gente sabe mesmo da sua agenda, essa coisa lendária do homem que sempre trabalha, então, obrigado por nos receber.


Quero começar perguntando, se você tem dimensão da legião de ouvintes e admiradores e fãs que você tem na nossa região lá da Baixada Santista, hoje, Costa da Mata Atlântica como querem chamar...


HERÓDOTO BARBEIRO


 Bom, eu quero dizer pra você que eu tenho uma vaga noção porque eu acompanho Santos, né?, uma vez que o meu filho mais velho mora em Santos, ele é comerciante em Santos, então eu que não ia muito a Santos, agora vou muito a Santos. Então eu vou sempre e tal, e encontro às pessoas na rua. Então você percebe que tem algum reflexo aquilo que você faz quando as pessoas te param e perguntam e comentam e continuam uma conversa com você, que na verdade, você nunca começou. Quer dizer, você começou nos veículos de comunicação onde você trabalha. Aí você percebe então que está tendo uma repercussão. Então eu tenho uma noção, não muito grande, mas alguma coisa eu tenho.


 Painel


  Olha Heródoto, agora uma pergunta aqui meio jocosa, assim alguns amigos e familiares, há muito tempo, a gente faz uma pergunta assim que é sabido que você não dorme, só trabalha; embora eu já tenha visto entrevista sua dizendo que você dorme sim. Aí a gente quer perguntar se quando há quatro séculos você desembarcou no Brasil, você trouxe terra da Transilvânia, e se for positivo, aonde que você instalou seu castelo?


HB


Eu vou dizer pra você, eu não trouxe terra da Transilvânia, mas eu trouxa na verdade uma vontade de treinar essa questão física e essa questão psíquica, porque pra você dormir pouco, você precisa ter um controle físico e psíquico. Onde é que eu aprendi isso? Eu me tornei budista, aos 20 anos de idade. E o Budismo, ele é uma pratica que te dá um certo controle psicológico, físico, mental e que te ajuda bastante a ficar disciplinado. Então não adianta, por exemplo, uma pessoa que está todo dia acostumada a dormir 8 horas, um dia dormir 3, a hora que ela dormir 3 ela está quebrada no dia seguinte. Então é preciso treino e é preciso disciplina. Então eu não trouxe a terra da Transilvânia, mas como você diz, eu aprendi aí com os sábios que vieram do Japão.


 Painel


Eu tinha certeza que isso tinha a ver com o seu lado budista, por causa da parcimônia, da paciência e da organização. Chico Anísio dizia que quem dorme 8 horas por dia, perde 20 anos da vida quando chega aos 60, então ele fazia questão de dormir 2, 3, esse é o seu caso...


 HB


Napoleão também tem uma frase também, que “só os tolos dormem mais do que 3 horas por dia...”.


 Painel


Apresentador de rádio e TV, diretor da CBN, colunista de diferentes veículos, autor... Quando é que você tem tempo pra se informar e se pautar?


 HB


Bom, na verdade é o seguinte, todo esse trabalho que você acabou de citar, ele é um trabalho ao mesmo tempo de informação e ao mesmo tempo de pauta, porque se eu estou fazendo uma entrevista com alguém, na verdade eu tô me informando daquilo que ela tá falando. Claro, eu tenho que ter alguma informação antes pra poder fazer perguntas pra pessoa. Mas eu começo com pouco e saio da entrevista com muito, porque eu aprendo muito com os entrevistados. Quer dizer, o meu trabalho, durante o dia, é um trabalho de carregar informação de um lado pro outro, então eu estou constantemente me informando. Para você ter uma idéia, quando acaba o telejornal da TV Cultura à noite, eu fecho o “speedy” e trago comigo, daí muito pouca coisa escapou à noite, que eu não saiba pela manhã. Mas ainda assim, chega de manhã e tem coisa que eu não sei. Por isso que a profissão de jornalismo é uma profissão em equipe. Ninguém faz isso sozinho. Eu tenho um grupo de pessoas, de jornalistas, excelentes jornalistas, com os quais eu trabalho e que tapam esses buracos nas coisas que eu não sei.


 Painel


Legal. Aqui a gente anotou algumas outras coisinhas, tem a Kombi do “só me segue quem é louco”, eu achava que isso era mentira, quando vocês discutem aí na rádio. Todo poderoso timão, meditação, budismo, paixão pela história e, lógico, pelo trabalho. Tem alguma faceta assim, desse complexo Heródoto Barbeiro que não foi ainda devidamente explorada pela imprensa quando te entrevistam? 


 HB


Bom... O meu hobby: eu crio abelhas.


 Painel


Olha que interessante. Outra coisa que só quem tem paciência faz...


 HB


Eu sou um apicultor amador. Eu tenho um sítio na Mata Atlântica, pertenço a uma ong na Mata Atlântica, tenho um sítio na Mata Atlântica, na Mogi-Bertioga, onde eu tenho, há muitos anos, uma criação de abelhas. Hoje eu devo ter umas 40 caixas de abelhas. Então, eu gosto de mexer com abelhas, mas eu não lido pessoalmente com elas, eu tenho uma pessoa que lida com elas. Mas eu gosto de mexer com abelhas...


 Painel


Você tá comercializando mel?


 HB


Pra você ter uma idéia, eu tava começando com isso, mas a abelha ela é, por incrível que pareça uma psico-terapia. Às vezes dolorosa, né? –que a abelha pica muitas vezes. Mas a abelha é um animal extraordinário.


 Painel


Heródoto, a tua formação como historiador precede em muito a sua como jornalista, pelo menos formalmente. Certamente isso aí foi uma contribuição de extrema relevância à tua ação profissional. Em que medida você acha que isso te distancia, qualitativamente, dos outros colegas de imprensa, ou isso não tem fundamento?


 HB


Não, não me distancia, absolutamente. É o seguinte, eu acho que qualquer jornalista pode desenvolver um raciocínio sociológico e histórico, que é importante pra você desenvolver as matérias. Qualquer um pode. Eu tive uma facilidade porque eu vim desse curso, então eu já trouxe isso comigo. Mas eu acho que isso é uma coisa que qualquer jornalista pode desenvolver com um pouco de esforço.


 Painel


Uma coisa que eu penso há muitos anos. É sabida que a origem nefasta das escolas de comunicação remonta à uma imposição da ditadura... E nem quero entrar no mérito da questão agora, mas de certa maneira isso também se reflete, consequentemente, no diploma de jornalismo. Quero você aborde esse tema, se você concorda com essa afirmação...


 HB


Bom, eu concordo com a afirmação. Eu pessoalmente acho que o diploma de jornalismo é absolutamente dispensável. Agora não acho que a escola de jornalismo seja dispensável. São coisas diferentes. Uma coisa é ter um pedaço de papel e pregar na parede. Outra coisa é freqüentar uma escola de jornalismo, porque eu vou sair melhor aparelhado do que entrei, e eu vou poder fazer jornalismo melhor do que eu faria se não tivesse ido à escola. Então eu acho que uma coisa não pode ser confundida com a outra. O que acontece, na minha opinião, é que algumas escolas de jornalismo pegaram o principal e transformaram em secundário. E pegaram o secundário e transformaram em principal. Por exemplo, eu acho que a questão central do jornalismo é contribuição que ele dá pro desenvolvimento da sociedade, democracia, interesse público. E isso, você ouve falar muito pouco. Então o que eles fizeram? Eles pegaram a rebarba, que é “vamo aprender a ler tp”, “vamo aprender a apertar botão no computador”, “vamo aprender a falar em microfone”, “vamo aprender a fazer maquiagem”... Pegaram essas coisassecundárias e colocaram no centro do aprendizado. E não é possível que pra aprender a ler um tp, eu precise de 6 meses tendo aula!


 Painel


Hoje, também, o sonho maior, o sonho dourado de boa parte dos jornalistas com quem eu converso é a televisão.


 HB


É claro! Agora a televisão tem dois apelos. Um é o apelo econômico e o outro é o ego. A televisão é um veículo que faz com que o ego saia correndo desabaladamente... Então você precisa mantê-lo com rédeas curtas.


 Painel


Agora, além dos espaços ocupados por pessoas que não têm diploma de jornalismo em redações, tudo mais, você acha que eles deveriam também não fazer matéria, ou você acha que eles deviam ficar no espaço determinado como já tem, de colunismo, ou a parte do leitor...


 HB


Eu acho o seguinte, eu acho que uma pessoa é aquilo que ela faz. Então se uma pessoa hoje me pergunta: “você é professor?” eu falo não, não sou professor, sou jornalista. “Você é advogado?” não. “mas você não fez direito?” eu falo, fiz, mas eu não sou advogado, eu não faço advocacia, eu não mexo com direito. Agora eu acho o seguinte, se uma pessoa que tem uma boa formação é capaz de fazer uma boa reportagem, bem feita, por que não? Eu acho que ela deve fazer a reportagem, ainda que ela não tenha o título de jornalista. Porque o jornalista, volto àquela questão, não é quem tem o diploma, jornalista é quem sabe fazer jornalismo. O Cláudio Abramo nunca foi numa escola de jornalismo. O Bóris mesmo nunca foi, pra pegar um cara mais recente... O Cony, nunca foi numa escola de jornalismo e outros caras aí...O Alberto Dines, entendeu?


Então são grandes jornalistas que nunca foram à escola. Então por isso que eu digo, se a escola é boa, e ajuda você a melhorar, ótimo. Agora, não apenas para você ter um diploma para pendurar na parede.


 Painel


Na maioria das vezes, as escolas –como diz o Noam Chomsky- são reprodutoras de status quo e perpetuadoras de dogmas. Parece que um desses mitos dentro da escola de comunicação seria o da imparcialidade, que talvez seja um mito que está sendo utilizado em detrimento de um único dogma aceitável, a meu ver, que é o da ética. Então, salvo engano, me parece que foi o Goethe que disse, lá no século XIX, “peça-me pra ser justo, jamais imparcial”... No teu íntimo, qual é o teu sentimento quando você vai entrevistar uma pessoa, e talvez já foram centenas ou milhares delas na tua carreira, de quem você discorda veementemente, não digo nem no plano pessoal, ou talvez nesse plano, mas quando você discorda frontalmente de ponto de vista ideológico, enfim...


 HB


Se eu discordo dessa pessoa, primeiro, eu acho que eu tenho que respeitar o direito dela de dizer coisas que eu não gosto e com as quais eu não concordo. Primeiro ponto. Segundo ponto é o seguinte, eu acho que se ela disser coisas que eu acredito que sejam coisas não virtuosas, eu me vejo instigado a fazer perguntas para ela pra que ela exponha isso claramente. Terceiro, eu não faço julgamento das pessoas. Não me cabe fazer julgamento das pessoas. Quem faz julgamento das pessoas é a opinião pública, é a audiência. É o cara que vê, é o cara que ouve, é o cara que lê. Não me cabe fazer. Se você me pedir para fazer um comentário, eu posso fazer um comentário. Agora durante uma entrevista eu não posso falar: “olha eu não concordo com o que você está dizendo...”. Eu acho que não é essa a minha função. Porque o jornalista precisa entender o seguinte: os jornalistas têm como função primordial transitar com as informações para que as pessoas formem seu espírito crítico. O que o jornalista tem que fazer é quicar o cara pro cara acordar. Agora, o jornalista não tem que fazer a cabeça de ninguém. Ninguém tem que votar no candidato A, B ou C porque EU acho que ele é o melhor ou pior. Eu não posso eleger quais são meus bandidos e quais são os meus heróis porque isso influi nas pessoas. Eu acho que essa não é a missão do jornalista. Algumas pessoas confundem isso e acham que o jornalista tem que ser um condutor de povos, eu não acho que o jornalista seja um condutor de povos...


 Painel


...Obrigação de se engajar...


 


HB


...Obrigação de se engajar, eu acho que não. Agora, isso não quer dizer que o jornalista não possa ter as suas convicções. Ele pode, ele só não pode impor aos outros.


 


Painel


Até porque elas acabam permeando, né, Heródoto?


 


HB


Acabam...Por exemplo, eu acho que se um jornalista for perguntado em público: “em quem o senhor vai votar pra presidente da república?”, tô te falando isso porque já passei por isso... Eu acho que o jornalista tem o dever de dizer em quem ele vai votar. Eu não acho que ele possa fazer campanha. Campanha ele não pode fazer. Mas se alguém do público perguntar: “em quem o senhor vai votar?”, eu sou obrigado a dizer, porque eu não posso esconder dele, tá certo? Eu dizendo, eu não vou perder credibilidade, pelo contrário. Se eu disser em quem eu vou votar o cara vai me fiscalizar ainda mais. Eu sei que muitos jornalistas se escondem por trás desse manto de “ah, não pode!”. E por baixo do pano o cara manipula a favor do candidato dele.


 


Painel


E, além disso, na maneira em que você faz a pergunta, e como você faz, quando é que você faz, já está implícito mais ou menos a opinião...


 


HB
Claro, as perguntas têm caráter opinativo, sim. Agora, uma outra coisa importante, é bom lembrar o seguinte: jornalista tem que entender que o entrevistado não está respondendo só para ele. O entrevistado tá respondendo através dele pra audiência que tá acompanhando lá atrás. É óbvio que muitas vezes é importante pra certas pessoas que eu gostaria de fazer as minhas perguntas e não fiz. E eu não faço as minhas perguntas.


 


Painel


E nem nos bastidores você faz...


 


HB


Entendeu? Eu tenho que fazer as perguntas que o público gostaria que fizesse. Se uma pergunta minha pode acrescentar no conhecimento do público eu faço. Se não acrescenta, eu não faço. Tá certo? Depois eu pego esse cara em particular, levo pra jantar, entendeu, tomo um chopp com o cara e pergunto todas as coisas que eu quiser perguntar pra esse cara. Que eu quero saber. Agora, no momento em que eu estou investido desse trabalho eu tô representando um grupo de gente, tá certo? Então eu não tô lá também pra fazer também discurso e querer que o cara diga sim ou não ao meu discurso. Eu tô lá, simplesmente, pra tentar arrancar do cara coisas que ele não quer dizer, e que ao público interessa saber.


 


Painel


E por falar em imparcialidade, em opinião, você não acha que seria melhor, não sei o que você pensa, deixar clara a posição do veículo, do jornalista e deixar o ouvinte, telespectador escolher, de acordo com as convicções dele, em qual que ele...


HB



Claro! Na verdade é o seguinte, primeiro, ele não pode se informar por um veículo só, nem por um jornal só. Tem que ter vários. Segundo, o dia em que nós tivermos uma opinião pública mais estruturada isso acaba. Porque a hora que eu perceber que aquele cara tá me induzindo a acreditar em alguma coisa, eu mudo de canal, mudo de rádio e não quero mais saber daquele jornal.


 


Painel


Não induzir, mas deixar claro qual é...


 HB



Claro! Eu acho que sim, quer dizer, o veículo tem que deixar claro o que é opinativo e o que é informativo. Eu não posso editorializar a informação. Informação é informação. Eu assisti aquele negócio e tô contando aqui. Pode ser que outra pessoa olhe lá e veja outra coisa, que é o que certamente vai fazer. Agora, eu não posso usar disso pra editorializar a notícia. O editorial tem que estar separado. E no veículo de comunicação eu acho a mesma coisa. É mais difícil. Mas no meio de comunicação eletrônico tem que estar separado o que é editorial do que é informativo, interpretativo, opinativo etc.


 Painel


Heródoto, cabe dizer aqui que quando você faz o jornal de manhãzinha é uma coisa, quando você conversa com o Xexéu e com o Cony, está guardada essa distância?


 HB


Exatamente. Exatamente. Porque na verdade eu sou apenas um provocador de duas pessoas que emitem opinião. Eu às vezes acabo até emitindo opinião, mas não é esse o meu papel. Meu papel é provocar, tá certo? Pra que eles emitam opinião, pra que haja um pequeno debate. Uma concordância, ou uma discordância. A não ser que eu trocasse de papel com eles, tá certo? Bota outro apresentador e eu vou virar debatedor, também. A hora que eu virar debatedor eu vou debater, vou defender as minhas idéias. Mas eu não sou debatedor, eu sou mediador e o mediador é o cara que procura ser o mais isento possível.


 Painel


Agora, você não acha que são poucos que não conseguem não colocar as preferências pessoais no ato de escrever ou de entrevistar e por isso a proliferação de manuais, regras, treinamentos de faculdade, e tudo isso pode te dar um direcionamento. Existe fórmula pra fazer jornalismo?


 HB


Então, é o seguinte, eu acho que muitas vezes os manuais são apenas lembretes, não são imposições, tá certo? Eu escrevi dois capítulos sobre ética, eu e mais outros dois autores do livro e nós consultamos dezenas de códigos e nós tiramos de lá o que nós achamos importante, tá certo? Agora, outros profissionais vão olhar lá e vão dizer: “bom, não é nada disso, são outras coisas”. Então isso não é impositivo. Por isso que ele é chamado de código deontológico, ou seja, eu acho que isso aqui é virtuoso, eu vou aderir a ele, assim como eu acho que não é virtuoso, não vou aderir a ele. Então são apenas sugestões de comportamentos éticos, não imposições.


 Painel


E, em 2002, você lançou o livro “Você na Telinha”, que fala da troca de gentilezas entre uma empresa e um veículo de comunicação ou um jornalista pra conseguir uma reportagem favorável. Como você vê essa promiscuidade hoje em dia, acha que alguma coisa mudou?


 HB


Não, eu acho o seguinte, eu acho que não mudou, isso acontece como eu disse: se o telespectador, ouvinte ou leitor ele é crítico, ele se exlcui do rol deles. O cara não vai vender jornal, entendeu? Você perde credibilidade. Eu não quero dizer que uma empresa não possa passar uma boa pauta, pode. Mas você não pode se esconder da pessoa que foi a empresa que passou, tá certo? Porque o cara é, sei lá, diretor presidente da empresa tal, tá certo? Eu acho que isso não pode esconder!


 Painel


Heródoto é notório que você foi candidato, eu era adolescente, em 1982 se eu me recordo bem, a vereador, pelo PT. Um quarto de século depois, quase, como é que você analisa o teu ex-partido nessa crise que quase naufraga o país?


 HB


Bom, de fato eu fui filiado no PT durante 19 anos. Eu acho que eu e todos os outros que estávamos lá, e outros partidos, também, não acho que é exclusividade só do PT. O dia em que o Lula assumiu a presidência, eu pedi demissão do PT, porque eu achei que poderia haver um conflito de consciência entre a minha profissão e o PT. Bom, mas eu não podia imaginar que o PT fosse mudar tanto. Pra mim, o PT agora não é o PT que eu conheci, tá certo? Não sendo mais o PT que eu conheci eu acho que ele tem o direito de continuar existindo, mas não mais com o meu apoio, não mais com a minha admiração, tá certo? Ele mudou. Ao invés de ser um partido que eu acreditava ético, ele passou a ser um partido que foi contaminado pelo poder, tá certo? Foi contaminado pelo poder e se deixou corromper como qualquer um outro. Lamentavelmente.


 Painel


Mas você acredita em algum outro partido, hoje em dia?


 HB


Bom, eu não tenho muito conhecimento, mas, por exemplo, tenho simpatias pelo P-Sol, tá certo? E eu estou seriamente inclinado a votar na senadora Heloísa Helena. Não sei se votarei, mas eu tô inclinado a votar nela.


 Painel


Heródoto, reza e lenda e houve uns comentários, que o presidente Lula não teria te cumprimentado no Roda Viva. Quero saber se isso é verdade, e como é que andam hoje as suas relações com o presidente –também corinthiano?


 HB


É...O presidente...Não, ele cumprimentou, sim...Ele é uma pessoa educada, mas eu queria dizer o seguinte, uma pessoa quando está exercida no poder público ela perde a sua privacidade. Eu conheço o Lula há muitos anos, fiz parte do partido, sempre o chamei de Lula, hoje eu o chamo de presidente, porque ele não é meu presidente, ele é presidente do país. Ele tá investido do cargo... Eu acho que a minha relação com ele hoje é uma relação de jornalista, que quer informações e ele é uma fonte que às vezes dá informação e às vezes não dá. Tanto que demorou tanto tempo que o Roda Viva acabou fazendo aquela entrevista e dando aquele grande estouro. De tanto tempo que ele não dava entrevista.


 Painel


Heródoto, numa entrevista que a gente fez agora recentemente com o genial Gianfrancesco Guarnieri, uma das pérolas com a qual ele nos brindou, foi quando a gente tava falando da dita imprensa burguesa fala em mar de lama  etc. evocando aqueles tempos do Lacerda e eu fiz essa pergunta a ele, e ele falou assim pra gente: “Lama? Lama é a burguesia, meu filho. Lama é a burguesia”. Pra você, nesse ponto que nós atingimos, quais são as perspectivas futuras que você tem, você acha que cabe otimismo num momento como esse?


 HB


Olha, eu acho que cabe otimismo se a gente entender o seguinte: que quem dá o destino pra sociedade é o próprio povo, não é? Eu acho que nós temos que parar com essa história de achar que nós temos alguns salva-pátrias, porque eu pensei que a gente tinha acabado com essa história lá com o Collor, “agora enterramos o salvador da pátria..”. Que nada! Agora, isso, infelizmente faz parte da nossa formação cultural, da nossa formação educacional, da nossa formação política, não é? Nós somos um povo pouquíssimamente politizado. Quando eu falo política, estou falando no sentido amplo da palavra, não no sentido eleitoral da palavra, né? Então eu acho que isso só com o tempo, só com o tempo é que nós vamos quebrar essas barreiras pra criar um amplo espaço de discussão política e de projetos de desenvolvimento pra nossa sociedade.


 Painel


Heródoto, se você me permite também essa coisa desse messianismo faz parte também da deformação do pensamento de esquerda brasileiro e talvez latino-americano, também...


 HB


É... O pensamento de esquerda sempre foi um pensamento de combater o messianismo, né? Agora, ele tem desvios mais visíveis do que a brasileira, né?


 Painel


O stalinismo...


 HB


O stalinismo... O culto a personalidade, o culto ao Mao etc.


 Painel


Heródoto, a gente falou de imprensa burguesa, então eu tenho uma dúvida. Já que o capital é dono dos meios de comunicação, como é que você acha que dá pra combater esse tipo de coisa já que ela, imprensa, presta serviço, em tese, em favor do pensamento pró- capital...Você crê que rádios comunitárias, as novas mídias eletrônicas podem fazer um papel, podem protagonizar um papel importante nesse enfrentamento?


 HB


Olha, eu creio que sim. Eu acho que na verdade, pra combater de fora pra dentro e de dentro pra fora. Por que de fora pra dentro? Hoje você têm as rádios comunitárias, eu mesmo faço parte, essa ong que eu falei pra você, nós estamos há seis anos tentando a concessão de uma rádio comunitária lá pra nossa ong, mas não tô conseguindo...


 Painel


...Quem manda não ser deputado?


 HB


É...Até agora eu não consegui. Tô brigando e não consigo. E hoje você tem as novas mídias, por exemplo, a internet que eu acho que é uma nova mídia, de combate e democrática. Então isso eu diria que vem de fora pra dentro. Agora como é que é de dentro pra fora? Essas empresas são como você disse, grandes empresas burguesas e capitalistas, claro! Mas não vamos esquecer, que dentro do próprio conceito do capitalismo é que ele carrega suas contradições, no bojo. Então há espaço entre esse bojo pra você atuar, basta à gente ser um pouco inteligente.


 Painel


Agora você numa entrevista via chat na internet, quando perguntado porque o noticiário de rádio não repercute tanto quanto o da televisão, você disse que o rádio havia perdido o prestígio. Você acha que isso tem volta, talvez com a rádio via internet?


 HB


Olha, eu acho que sim, eu acho que tem volta. Porque hoje quando você fala em jornalismo não importa por onde ele se propaga, pode ser pela internet, pelo rádio, pela televisão, pelo jornal...Eu acho que há sim, eu acho que na percepção das pessoas, elas começam a identificar quais são os veículos que têm credibilidade e os que não tem. Não tô só falando em rádio, tô falando em internet. Quantas vezes a gente já viu bolas-fora dadas pela internet, não é verdade? Então eu olho o site e antes de acreditar naquilo eu vou olhar em outros pra ver se é real aquilo ou não. Então isso é outra coisa, você tem que cobrar dos veículos de comunicação, sejam eles quais forem, isenção, a conduta ética, o interesse público etc.


 Painel


Você é dado a grandes mudanças, né? Você abandonou a profissão de professor, após vinte anos, e se tornou jornalista. Podemos esperar alguma outra virada na carreira de Heródoto Barbeiro?


 HB


Olha, se você me perguntar o que vai acontecer amanhã eu não tenho idéia eu não sei. Mas eu sei lá, a hora que eu parar com isso aqui eu posso virar advogado...


 Painel


Heródoto, budista não tem pressa né, basta ver lá quando eles tomaram aquela embaixada no Peru, que um amigo do meu pai, trotskista ferrenho, disse “ihh, isso vai longe, os caras são maoístas e budistas...têm pressa nenhuma” Então, você faz as coisas a cada 20 anos,  sem a menor pressa.


 HB



É...Os budistas não tem pressa, os budistas sabem que a única coisa permanente é a impermanência. Ou seja, isso cai direto no jornalismo. O jornalismo permanente, ele se desatualiza. O jornalismo ele tem que ser impermanente. A essência do budismo é a impermanência.


 Painel


Então, você vai ficar pra sempre...Fazemos votos que sim...Nada de virar advogado...


 HB


...(Risos)...


 Painel


Pra encerrar e deixar você trabalhar, como ser político que você é, atuante, como o profissional prestigiado e respeitadíssimo que você é, que mensagem você deixaria pros seus ouvintes, e até quero extrapolar isso, pro povo brasileiro? O teu pensamento de um futuro breve, próximo pra nós, por favor?


 HB


Bom, a sugestão que eu gostaria de dar, como provocação é o seguinte: não acreditem naquilo que vocês ouvem, naquilo que vocês vêem, naquilo que vocês lêem. Toma conhecimento? Sim. Tomar conhecimento é uma coisa, acreditar é outra. Eu tomo conhecimento de um monte de coisas, eu só acredito naquilo que eu comprovo. Eu acho que a imprensa brasileira vai melhorar o dia em que as pessoas agirem dessa forma. Então eu acho que isso é uma questão. E a outra questão é a seguinte, a sociedade está mudando muito rapidamente. Hoje, nós estamos diferentes do que nós éramos dez anos atrás. Então, tá mudando muito rapidamente, as crianças estão indo mais à escola, tem muito mais livros em publicação, estamos construindo uma democracia para o País. Eu acho que tá nas nossas mãos a mudança. Agora, eu acho que a mudança também começa com o trabalho comunitário. Eu aprendi isso agora, depois de velho. Me associei a uma ong comunitária depois de velho e só agora eu estou entendendo o seguinte: se eu não consigo mudar o meu microcosmo como é que eu posso ajudar a mudar o macrocosmo? Então eu tô lá aprendendo, nessa ong, com esse pessoal a mudar coisas pequenas, que eu achava que eram pequenas, mas não sabia que eram tão grandes.


 Painel


Você quer falar um pouco do seu trabalho na Ong? O que você desenvolve nessa comunidade?


 HB


Essa comunidade é uma comunidade que fica na Serra do Mar, no município de Mogi das Cruzes, eu tenho um sítio lá. Ela é uma ong que se mistura com a capacitação de jovens, com educação, com a proteção da Mata Atlântica que restou lá e com geração de renda. Essa é a minha diversão de final de semana.


 Painel


Agora uma curiosidade: O que te levou a optar pelo budismo? Se eu tivesse religião seria a minha religião também.


 HB


Bom queria dizer a você o seguinte, foi uma coisa absolutamente acidental. Nunca tinha me passado pela cabeça ser budista. Eu fui em busca de trabalho, dar aula de inglês a essa mulher, uma senhora que era japonesa, no bairro da Liberdade. Chego lá, entro numa casa enorme, um casarão, pra falar com ela. Ela não falava português, eu não falava japonês e eu falei “não vai dar certo...Não vai dar certo...”. Aí, estou indo embora e passo por uma grande sala com umas estátuas. Aí, eu pergunto: “escuta, que negócio é esse, aí?”, “isso é estátua do Buda”, “mas o Buda não é aquele gordo? O que é isso aqui?”, “Isso é um templo budista”, “e como é que funciona?”, “é o seguinte, não dá pra explicar, você tem que vir aqui e fazer uma meditação se você quiser”. Aí, eu fui, num sábado, fazer uma meditação pra ver como é que era.


 Painel


Você mantém rigorosamente essa coisa de fazer todos os dias?


 HB
Sim, eu faço todos os dias. Pratico sempre. Sempre que eu consigo eu procuro acalmar a minha mente.


 Painel


Pra arrematar, uma maneira não muito original, mas você pode deixar um axioma seu favorito? Um pensamento do momento que você está vivendo, que resumiria a tua existência atual?


 HB


O axioma ele é um paradigma.


 Painel


É, pressupõe uma verdade eterna...E os budistas não...


 HB


É, pressupõe uma verdade eterna...


Eu não tenho nenhum axioma. Os budistas não têm axiomas e nem tem dogmas. Então, é o seguinte, vamos olhar aí pra fora e vamos ver como as coisas estão mudando e vamos ver como vamos nos encaixar nelas

 
 
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