O compositor Gilberto Mendes nos recebeu em sua casa, e em um bate papo descontraído falou sobre política, cinema, cultura, e ainda nos deu uma aula sobre música.
Entrevista: Camila Oliveira e Amanda La Scala
Transcrição: Camila Oliveira e Amanda La Scala
Fotos: Camila Oliveira
PROGRAMA PAINEL
Bom dia Gilberto Mendes. Eu queria começar perguntando para você sobre o seu filme. Que seu filho fez sobre sua obra, sobre sua vida. Como é que foi o processo de captação do filme? Você acompanhando as gravações, os depoimentos? Ou simplesmente viu o projeto final já no cinema?
GILBERTO MENDES
Não, eu acompanhei tudo porque eu era o objeto do filme. Eu era o centro da história, de maneira que se eu quisesse ou não eu estava envolvido. Eu estava sendo filmado o tempo todo. E o que acontece é que o operador disso tudo era o meu filho, então a intimidade era absoluta.
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E você conseguiria avaliar o conteúdo do filme se distanciando da idéia de que foi seu filho o diretor? Você consegue avaliar o conteúdo como se não fosse ele que tivesse dirigido? E qual avaliação que você faria do filme?
GILBERTO MENDES
A avaliação que eu faço, apesar de ser meu filho, é de que é ótimo. Mesmo porque eu me baseio na opinião de praticamente todo mundo que viu o filme e gostou muito. E da própria crítica. Vamos dizer os dois maiores jornais de São Paulo, mas pegar São Paulo que é uma capital, a Folha (de São Paulo) deu quatro estrelas, e o Estadão (Estado de São Paulo) não deu estrela porque era só o comentário, mas elogiou muito, o Oricchio(Luiz Zanin Oricchio) do Estadão e o Natali (João Batista Natali ) da Folha elogiaram muito.
E um dia desse em um jornal de Santos o Rubens Ewald (Filho) elogiou muito o filme. No Rio também. Inclusive passou no festival de cinema do Rio de Janeiro. Teve uma matéria lá, onde eu senti que o comentarista não entendeu bem o filme, porque eu acho que ele devia estar muito por fora da música, e se assustou com aquela novidade. Ele de certo modo gostou, mas se assustou.
Em São Paulo não, eu sou muito conhecido em São Paulo. Esses jornalistas todos gostaram muito.
Eu estou dizendo isso porque eu achei muito bom, mas não fui só eu. Não é por ser meu filho. Bom meu filho é um profissional. Ele é cineasta, de comerciais. Meus dois filhos tinham um estúdio muito grande de cinema, comercial de televisão em São Paulo. Uma firma de tão grande quebrou. Mas são do ramo.
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O filme inclusive, se eu não me engano, abriu o festival de música de Campos de Jordão. Não começou com um concerto, mas sim com um filme. Foi isso?
GILBERTO MENDES
Não de Campos do Jordão não. Foi o Festival Música Nova.
Que foi um festival que eu que inventei há 44 anos atrás.
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Que começou por acaso, não?
GILBERTO MENDES
Começou por oferecimento pelo então, não era secretário na época era Presidente da Comissão de Cultura de Santos. Ele me conhecia e perguntou se eu tinha alguma coisa de projeto para ele. A gente tinha feito em São Paulo um projeto, um concerto, muito bonito, muito importante junto à 5ª Bienal de São Paulo. Olha como o negócio está longe. E fizemos um concerto no teatro Culturas Artísticas, que foi televisionado pela TV Exelsior que também não existe mais (risos). Aí eu falei – Vamos trazer esse concerto para Santos então. Repetir ele em Santos.Já que eu sou um compositor da cidade, faço as coisas em São Paulo, mas moro aqui. – E ele falou – Mas faz mais coisa também. Não só o concerto. Aí eu fiz uma semana de música contemporânea, palestras. Eu fiz uma palestra, mas outros músicos fizeram também. Audições de discos também fizemos. E aquele concerto que foi no antigo Teatro Independência.
Mas foi para mostrar a nossa música. Porque era um movimento de São Paulo de música Nova, de uma nova música erudita, de vanguarda, que a gente batalhava por isso. Tanto que um ano depois a gente lançou um Manifesto Música Nova, na revista Invenção, que é da poesia concreta. Tudo isso aí foi uma coisa que eu fiz para mostrar a nossa música. Porque como a gente se levantou contra a música do momento, que a gente considerava estacionada. Muito atrasada em relação ao que acontecia no mundo depois da guerra, o mundo deslanchou para uma nova música, então nós tínhamos o mundo musical brasileiro contra nós. Então a gente estava batalhando por isso aí.
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E o Manifesto que você criou, um dos criadores, ele como você disse foi para dar um outro direcionamento para a música. Em que direção você acha que ela está hoje em dia?
GILBERTO MENDES
Essa direção predominou um bom número de anos. No Brasil nós fomos os representantes de movimento, que era na verdade um movimento mundial por uma música nova. Porque o mundo tinha ficado paralisado durante 10 anos por causa da guerra e pelo pós-guerra também, a reconstrução.
Aí houve uma retomada frenética de vanguarda, e houve esse movimento que foi centralizado na Alemanha. Com o compositor alemão Stockhausen e o compositor francês Pierre Boulez, ambos vivos, se tornaram monstros sagrados da música. Essa coisa era centralizava lá. A gente se informava disso por publicações de música, de revista que chegavam a nossas mãos, discos também, livros. E a gente, eu e meus companheiros que eram pessoas que assim, que depois até se destacaram depois em outros setores como Rogério Duprat, depois se tornou arranjador de música popular, ganhou prêmios tudo isso aí.
Éramos eu, Rogério Duprat, Willy Correia de Oliveira, que era um pernambucano rapazinho, tinha uns 20 anos nessa época, mas que estava morando em Santos naquele momento, o pai veio trabalhar aqui. Mais o Damiano Cozzella. Era na verdade, seria um movimento de São Paulo porque Santos é uma cidade de interior, né?
Mas como eu moro aqui, com preguiça de ir a São Paulo, eu puxo o mais possível para cá. Santos ficou um pólo internacional de música contemporânea. Santos está no roteiro dos festivais de música de vanguarda do mundo inteiro. Pode verificar, tem um anuário americano de música famoso, onde tem tudo sobre música, o Festival Música Nova está lá. O Festival de Campos de Jordão não está, por exemplo, que é mais importante em termos de dinheiro, tudo isso. Mas o nosso é original. Tem uma batalha, tem uma bandeira, tem uma coisa. Mas é roteiro desses grupos de música de vanguarda que correm o mundo, eles com certeza passam pelo nosso Festival.
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Suas obras estão muito ligadas a outras áreas da cultura como teatro, artes plásticas...
GILBERTO MENDES
Sim, sim, isso é muito da minha geração. Nós, esses meu companheiros todos que eu falei Rogério Duprat, Cozzella, Julio Medalha, nossa área era a música, do fazer, mas a gente tinha interesse em tudo. A gente tinha até mais ligações com as amizades pessoas das outras áreas, porque na área da música a gente era mal visto. A gente estava contra um estado de música nacionalista, raízes brasileiras, aquelas coisas que já foram até vanguarda do século XIX, fazer uma nova música com base no folclore. Mas não era mais a novidade, a gente estava querendo outras coisas.
Mas... O que é que eu estava falando mesmo?
(risos gerais)
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Estávamos falando sobre a sua obra estar ligada a outras áreas da cultura...
GILBERTO MENDES
Ah sim, sim. A nossa geração gostava de tudo, freqüentava tudo, galerias de arte, amigos pintores, poetas. Nós nos ligamos, o grupo ao qual a gente mais se ligou foi o grupo de poesia de vanguarda, o grupo de poesia concreta, Haroldo de Campos, Augusto de Campos, Décio Pignatari, principalmente esses três que forma um trio famoso da poesia concreta. E os outros também, que nos deram muito apoio. Porque eles tinham feito o mesmo antes de nós, em meados de dos anos 50 com a poesia concreta. Lançaram um manifesto, foi um negócio importante para a poesia brasileira.
Nós fizemos o mesmo na música, até inspirados na posição deles. E eles eram como nós éramos, eram poetas, mas sabiam muito de música. Tinham às vezes mais informação sobre música do que nós mesmos na época. Porque um deles o Décio Pignatari tinha estado na Europa e estado em contato com o Pierre Boulez, que exatamente era líder desse movimento na Europa. Ele participou de eventos do Pierre Boulez ajudando a vender entrada, coisa de começo de carreira, batalha assim na rua, panfletos.
E ele trazia essa informação aqui para gente, embora a gente soubesse disso também por outros meios.
Mas então eu e meus companheiros chegamos a ir a Darmstad, uma cidade alemã ao lado de Frankfurt, que centralizava anualmente tinha um curso e festival de Música Nova. Esse nome Música Nova a gente tirou deles exatamente. Neu Musik em alemão. Se internacionalizou esse nome, New Music em inglês, Nouvelle Musique em francês.
Não esta na música erudita do nosso tempo, mas no segmento voltado a vanguarda, ao novo.
Nós fomos lá, eu mesmo fui duas vezes, o Willy foi duas vezes, o Rogério foi uma. A gente fez o que pode.
Essa música foi uma música que ficou mundial, engraçado né? Até no Japão houve um forte movimento. E não é uma música japonesa. É uma música bem ocidental. Mas teve compositores destacados lá dentro dessa linha.
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Você acha que falta isso hoje em dia? As pessoas estão muito centradas em especialização... (Nesse momento Gilberto interrompe para falar sobre o bem-te-vi que aparece sempre em sua janela, pois o maestro coloca pão para o mesmo).
... Você acha que está faltando isso hoje dia as pessoas estão muito centradas em...
GILBERTO MENDES
Tá, tá muito! Hoje em dia é uma especialização muito grande das pessoas. Modéstia a parte, qualquer um de nós poderíamos sentar e improvisar uma palestra sobre literatura, sobre pintura ou sobre cinema, a gente era muito ligado ao cinema também. A gente curtia tudo, curtia assim de conhecer. Hoje em dia as pessoas são especializadas, se é sobre banditismo só entende de banditismo. Se é sobre política agrária é só sobre política agrária. Não tem mais aquele espírito universalista. Espírito que vem do Iluminismo, espírito que vem de três séculos atrás. As pessoas assim, os humanistas, estavam por dentro de tudo. Não é que não existam mais pessoas assim, existem. Eu tenho encontrado jovens, que já têm isso vai muito da pessoa. Mas antigamente mesmo que a pessoa não fosse assim por natureza, ficava por todo mundo pendia para ser assim. Então era um modelo, agora...
Mas você falava da música, a Música Nova passou por um, esse envolvimento tem, só de festival são 44 anos. Mais uns dois anos que a gente já vinha batalhando isso, uns 46 anos nessa trilha, então passou por muitas transformações. A Música Nova de hoje não é aquela mais. É até contra ela de certo modo. Porque aquela foi muito radical, combateu muitas coisas que se fazia na música clássica tradicional que levou uma enorme perda de público da parte da gente. O freqüentador normal de concerto não queria ouvir a nossa música, achava difícil. “Bom aquilo é para eles. É para o grupinho deles, não vamos ver isso”. E ficou um estigma, e até hoje a gente faz esse programa, tem pessoas que me conhecem bastante, me desejam felicidades, boa sorte no festival, mas não vão. Porque acham que é só para mim, para os meus companheiros. Mas a música deixou de ser isso há muito tempo. Ainda tem esse estigma, está perdendo um pouco agora, mas tem.
E depois como o Brasil tem uma música popular muito forte, muito famosa, que cria celebridades e tudo isso aí, a própria intelectualidade acabou preferindo eles.
Assim se você perguntar para um intelectual brasileiro hoje sobre seus gostos ele vai dizer James Joyse,poesia concreta, para nós da música eles falavam em Caetano Veloso e Chico Buarque, para eles são os compositores eruditos, que eles não são, mas para eles são, porque fazem uma música popular mais intelectualizada, por isso aí.
Então nós fizemos uma música e pagamos o preço. Pagamos um preço caro por isso. Não viramos nem celebridades, nem ricos. Celebridade e riqueza são para a música popular e não para a música erudita.
PROGRAMA PAINEL
Mas ganharam o respeito.
GILBERTO MENDES
Ah! O respeito muito grande. Já dei aula em duas universidades americanas, recebi todo tipo de homenagem. Sou tocado no mundo inteiro. Mas naquela medida, né? Nos meios da alta costura, aquela coisa toda. Até que dos compositores da minha área eu sou o mais conhecido. Porque embora aminha música tenha bastante caráter experimental eu na verdade me sinto três compositores. Tenho o compositor que é bem dessa parte da Música Nova, mas tem um compositor mais clássico dentro de mim e um também quase popular. A minha música então ela, na verdade, mesmo certos experimentos de vanguarda que eu fiz, foram populares. Eu fiz uma musiquinha para coro, uma musiquinha simplesinha um coral eu chamava Beba Coca-Cola que é adorada no mundo inteiro. Já foi tocada nos cinco continentes ela, corre o mundo inteiro. É super celebrada nos meios populares de corais que cantam. E também nos meios intelectualizados.
Outra música que é para orquestra e público Santos Futebol Music, para orquestra, é também muito apreciada pelo grande público porque é uma grande farra.
PROGRAMA PAINEL
O senhor chegou a acompanhar o conturbado Primeiro Concurso Internacional de Piano Villa-Lobos, marcado por denúncias, promovido pela OSESP (Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo). Aonde chegou a ser demitido o primeiro organizador..?
GILBERTO MENDES
Não só sei o que eu li no jornal.
PROGRAMA PAINEL
Como o senhor avaliou isso mesmo pela imprensa?
GILBERTO MENDES
Não sei o que dizer, sinceramente, porque eu li de um e de outro. Eu até tive um contato íntimo com eles porque eu ensaiei com eles uma obra minha que foi estreada agora lá. Aliás, recebi ontem o cd com a gravação do programa.
E eu dei uma cutucada lá pela informação, mas não consegui. Não consegui saber. Não sei o que houve. Deve ter havido alguma coisa, alguma coisa houve, agora não sei se teria vazado alguma informação de saber quem era tal pessoa. Aquelas coisas de concurso, né? Mas depois eles corrigiram.
Aliás, esse concurso teve uma repercussão mínima de mídia.
PROGRAMA PAINEL
Teve mais repercussão pelas denúncias do que pelo concurso.
GILBERTO MENDES
É porque no Estadão saiu o resultado numa notinha desse tamanho (Gilberto mostra com as mãos o tamanho da nota).
PROGRAMA PAINEL
É na Folha chegou a sair uma nota um pouco maior do chinês que ganhou.
GILBERTO MENDES
Ganharam dois chineses. Um chinês de 16 anos. Os chineses estão mandando no mundo. Uma chinesa de 20 anos, depois um francês parece, de 28 anos e uma da Letônia de 30 anos, os quatro primeiros.
PROGRAMA PAINEL
O concurso não teve muita repercussão, mas as denúncias chegaram até o New York Times.
GILBERTO MENDES
É porque foi um concurso internacional, então o negócio corre. É foi ruim. Começar assim? Mas essas coisas acontecem nas melhores famílias (risos).
PROGRAMA PAINEL
Em 2003, você recebeu a medalha de Ordem do Mérito da Cultura. Como o senhor recebeu esse fato?
GILBERTO MENDES
Eu recebi com grande emoção. Recebi das mãos de um presidente em quem eu votei. E vou votar de novo, apesar de tudo. Fiquei muito emocionado, um homem que veio lá do sertão, vendeu laranja e amendoim aí no cais de Santos, chega à presidência da República, bonita carreira, né? Ele se envolveu com essa trapalhada toda. Mas faz parte da política, isso acontece no Japão, nos Estados Unidos, na França, na Alemanha, no mundo todo.
Eles fizeram mal feito, não estou defendendo não. Foi horrível, mas o que vai fazer? Não é por isso que eu vou votar no Alckmin. Deus me livre.
PROGRAMA PAINEL
Você acha que tem alguma saída sem ser essas duas vertentes? PT e PSDB?
GILBERTO MENDES
No momento eu não vejo não, está complicado. Essa nova geração de políticos aí.
Eu voto no Lula mas nunca fui do PT. Meu partido mesmo que eu gostava era o Partido Comunista Brasileiro. Na falta de poder votar neles ou nos candidatos que eles apoiavam. Eu sempre votei nos candidatos que eles apoiavam, porque eles nunca puderam porque era um partido na clandestinidade. Mas eles apoiavam as pessoas, às vezes eram até votos estratégicos, eles votavam em bandidos. Votavam em Ademar de Barros, essa gente aí.
Mas por jogos do poder. Esses jogos do poder agora que ficou positivado que não levam a nada. Essa técnica do Dirceu é uma técnica velha do partido comunista no mundo inteiro. Eles acham que a classe dominante é tão ordinária, tão corrupta que você tem que lutar contra ela no mesmo nível. Fazendo alianças espúrias, corrupção, comprar os caras, tudo isso, porque são bandidos. Mas tudo isso leva a identificação com eles depois.
Essa é aquela teoria do Maquiavel, os fins justificam os meios, mas não, os meios condicionam os fins também. De maneira que isso não dá certo. Está historicamente provado que isso não dá certo.
PROGRAMA PAINEL
Gilberto você acha que o Brasil tem tradição na música erudita?
GILBERTO MENDES
Muita!
PROGRAMA PAINEL
Porque a gente consegue pensar em Carlos Gomes, Villa-Lobos...
GILBERTO MENDES
No pouco que você falou dois pilares dessa tradição...
PROGRAMA PAINEL
É realmente são os mais conhecidos. Então podemos afirmar que temos tradição da música erudita?
GILBERTO MENDES
Pode! Eu posso te garantir porque eu como músico e eu ando pelo mundo todo, o músico brasileiro é superbem recebido no exterior na música erudita por causa de Villa-Lobos. Eles pensam: “Ah! ele é da terra do Villa-Lobos então é bom compositor. Villa-Lobos... Eu escrevi um artigo sobre isso na revista Diapason... Conhece a Diapason? É uma revista nova, ela ta no quarto número, é uma revista de discos, de música e teve um número dedicado a Villa-Lobos, que é até o Villa-Lobos na capa e tem vários artistas escrevendo sobre Villa-Lobos e eu escrevi também o meu artigo, que pediram. Eu mostro lá a importância do Villa-Lobos.
Agora a pouco no ano passado, eu estive lá em Paris e olha quem falou, foi o dono do hotel que eu estava, de uma estrela hein, hotel baratinho, só que era no coração de Paris e ele me disse: “no começo da rua aí você vai ver uma placa do Villa-Lobos que é da sua terra...”. Mas era o dono de um hotel lá em Paris, um francês que lia Machado de Assis... Brasileiros não lêem Machado de Assis. Brasileiro se estuda literatura não lê Machado de Assis e esse dono do hotel lia Machado de Assis e recomendava aos amigos. Lia porque tem produção dele em francês. E ele falava: “vai lá no começo da rua, naquela pracinha lá que começa a rua, Villa–Lobos morou lá no começo dos anos 20...”. E eu falei, não sabia disso. Tinha uma placa enorme lá: “1923 a 1930 viveu Heitor Villa-Lobos o compositor”.
Não falava nem o compositor brasileiro, falava o compositor Heitor Villa-Lobos, isso quer dizer um homem universal, em francês. Não era o compositor brasileiro, era o compositor Villa-Lobos. A importância dele né. Então ele abre as portas para a gente. A gente é conceituado como bom compositor por causa do Villa-Lobos.
Então tem uma tradição. Além do Carlos Gomes, o Carlos Gomes menos que é século XIX é mais para trás, foi no âmbito da ópera italiana, já pensou as óperas dele serem cantadas no Scala de Milão? Que é o templo da ópera né? Ele conseguiu esse feito né.
É um excelente compositor, mas Villa-Lobos é que é o grande, a grande base do sucesso da gente no exterior. Tem uma tradição. A gente é tocado bastante no exterior. É que o que a gente faz não tem aquela repercussão né da música popular...
PAINEL:
Infelizmente!
GILBERTO MENDES:
Não tem, não é comentado, é dificultado. Por exemplo, no ano passado. Um dos dois melhores grupos de música contemporânea de Paris fez um programa em homenagem ao Brasil, por causa do ano do Brasil lá né...
Com obras nossas, com uma obra minha e de mais quatro compositores brasileiros. Uma delas era uma moça até, mais ou menos assim da idade de vocês, aluna nossa lá em São Paulo, uma menina fantástica, que vai se tornar uma grande compositora. E nós propusemos isso ao ministério, apesar de eu ter sido indicado lá, entrei pro ministério com a ordem do mérito cultural no grau de comendador, eu sou comendador agora. Mais respeito. E não deram atenção. Eles não tinham que fazer nada, o concerto eles iam fazer de qualquer jeito, como fizeram. Não precisava o Brasil dar dinheiro, foi produção francesa. Era só botar o nome do Brasil ali. Nós é que estávamos fazendo um favor para eles, que a nossa música ia ser tocada. Eles não estavam precisando do Brasil apoiar aquilo. Mas eles podiam ter botado na programação geral e não puseram.
Mas isso é porque o Gilberto Gil, ele viu isso muito do ângulo da música que vende, de dinheiro. Botou isso na mão de empresários. Os empresários não têm interesse na música erudita. Nenhum, porque não é música que dá dinheiro. Ele botou um empresário, que está acostumado a lidar com celebridades da música popular para organizar aquela mostra brasileira, logo, só teve música popular. Só teve música popular.
Foi chamando o ano do Gilberto Gil na Europa ao invés de ser chamado o ano da música brasileira. Teve um pouquinho só, mas de música clássica só. Teve Villa-Lobos, acho que até ele cantou, ele Gilberto Gil que é um grande cantor realmente, mas não tem técnica vocal pra cantar Villa-Lobos, parece que ele cantou Villa-Lobos.
PAINEL:
Como é que o senhor avalia o trabalho do Gilberto Gil no ministério da cultura?
GILBERTO MENDES:
Por um lado eu acho legal, porque ele deu muita visibilidade ao ministério, deu popularidade, fala-se muito em cultura, e tudo isso. Mas têm esse lado ruim para nós músicos. Ele falou da “enorme diversidade da música...”. Eu to pra me encontrar com ele um dia, e vou jogar isso na cara dele: “quero só que você me explique como é que isso, essa enorme variedade, diversidade da música brasileira, que você fala, por que você não inclui esse segmento que você sabe que existe, tanto que me indicou para o prêmio...”. Não sei o que se passa na cabeça dele. Acho que é desleixo.
Tem muita coisa para fazer, põe na mão de um cara lá e foi embora. O cara lá nem tomou conhecimento. Põe um pouquinho de Villa-Lobos lá pra tapar o sol com a peneira e só teve música popular. Agora na teve agora na Alemanha, por causa do futebol, teve uma espécie de um ano do Brasil na Alemanha e uma compositora do Rio, amiga minha, propôs um concerto brasileiro que ela conseguiu a sala da filarmônica de Berlim pra esse concerto. Não a orquestra, seria uma outra orquestra, mas um local privilegiado para um concerto e ela botou o meu “Santos Futebol Music” que é uma música que mexe com futebol. É a única música do mundo que mexe com futebol. Não existe outra que eu saiba. E não apoiaram. Esse precisaria de uma grana, mas não é nenhuma fortuna, é contribuir. E não aprovaram também. E o projeto falava: “vamos apresentar obras que se relacionem com futebol...”. Eu entendo de literatura também, mas a música se chama “Santos Futebol Music”, inclusive foi feita na Alemanha já duas vezes, uma obra até conhecida lá. São dessas coisas que acontecem que paciência fazem parte da vida.
PAINEL:
E como que você classifica a música brasileira em pleno século XXI? Quem pra você são os principais compositores?
GILBERTO MENDES:
Ah, ainda são os mesmos né, do final do século XX. Não aconteceu nada de novo na música. Eu até diria que o mundo entrou numa nova fase após a derrubada daqueles dois prédios lá, em Nova Iorque, que equivalem no século 20 à primeira guerra mundial. Realmente abriu uma etapa nova pro mundo, no campo da política, das relações, uma espécie de guerra oriente-ocidente, árabes contra ocidentes. Mas na música continua o mesmo quadro, os mesmos compositores...
PAINEL:
Agora um assunto que a gente já passou, mas eu vou pedir você reforçar: com uma música popular tão forte, o Brasil não deveria ter uma força equivalente na música erudita?
GILBERTO MENDES:
Deveria é claro! Eu até diria que tem, porque a música erudita não pode pretender ser popular, porque ela não é popular, então ela não pode pretender ser popular... E nem deve haver assim, revolta da nossa parte, que nada impede que eu vá ser um compositor popular, se o compositor erudito está tão aborrecido com a sua situação faça música popular. De repente é bem sucedido também. A gente tem que saber o que quer fazer né.
Eu até expliquei que eu me sinto bem três compositores: um deles bem aproximado da música popular por um lado. Eu poderia desenvolver só esse lado. O Jobim foi um cara assim, ele tem a formação culta sabia? Ele se preparou para ser um compositor erudito. Assim como eu e outros aí. Mas ele foi desviado para ganhar a vida na música popular e se saiu muito bem.
Qualquer um de nós pode mudar de campo. De certo modo é natural que isso aconteça. Música que não é popular não pode pretender ser popular. É como em literatura você querer que o James Joyce fosse da poesia concreta para poesias populares, literatura popular. Não é por natureza então, vai querer que seja? Não adianta fazer a campanha educacional que é uma coisa como ciência. Quem sabe muito de ciência, que descobre a teoria do quântico é uma coisa, outra coisa é fazer um trabalho de preparar o laboratório pro cientista trabalhar, de maneira que... A pergunta qual era mesmo?!
PAINEL:
Se o Brasil não deveria ter uma força equivalente na música erudita...
GILBERTO MENDES:
Eu acho até que tem. Não tem em termos de mídia, compreende? Assim, de você estar todo dia com o teu retrato em jornal, em revista, aquela coisarada. Você encher um estádio pra tocar, isso não é com a música erudita. A música erudita não tem e nunca terá. Que a música não é para esse fim. Não têm elementos que atraiam a grande massa né? Então nas devidas proporções, vamos ver ela têm...
Eu, meus companheiros somos devidamente conhecidos na nossa área, compreende? Não podemos querer ser populares. Até que eu, na minha área sou um pouco privilegiado, porque eu faço umas músicas um tanto exóticas às vezes, que por razões não só do seu possível valor artístico, mas pelo escandaloso delas, elas ficaram populares, como “Santos Futebol Music”, o “Beba Coca-Cola” e várias outras obras minhas. E algumas obras até normais para instrumentos que eu tenho quando eu não faço vanguarda, que elas são mais neoclássicas, elas agradam muito o grande público de concerto, não o popular. Porque o que a gente tinha perdido era o público da música, compreende?
Esse que vai normalmente ao concerto, que gosta de Bach, Chopin, e que gostava de Stravinsky, mas achava estranha a nossa música. Mas agora eu faço música que agrada também, que agrada o público de concerto, ou seja, estreei essa obra da Osesp, que foi uma encomenda da Osesp foi um bruta sucesso na sala São Paulo. Gostaram muito, principalmente os músicos. Eu gosto quando músico gosta de mim. E os próprios músicos não gostam de música de vanguarda. Não gostam quando a gente faz música assim. Tocam porque é profissão deles. Mas a gente sente que eles não gostam. Mas dessa gostaram muito. A turma lá da orquestra gostou muito e o público também e o próprio mestre. Falei: “Como é ta gostando da minha música? Você que pediu...”. Ele falou: “Muito. E quanto mais eu toco mais eu gosto”.
Porque é uma música acessível. Eu mexo com novidades e tal, mas de uma maneira... Tem muitos ingredientes na música de todos os tempos que a pessoa reconhece né... Que a comunicação só é possível com base num sistema comum de referência né, então se você está num negócio muito seu, dentro de um sistema pessoal, é como falar japonês pra uma platéia que só sabe falar inglês. Então não tem como.
Agora eu tenho um lado muito de comunicação porque eu gosto muito de música popular também e isso eu acho que está assim, por mais que eu seja experimental no que eu faço. Sempre tem uma pontezinha que o público gosta né.
PAINEL:
Agora para finalizar, até que ponto as novas tecnologias influenciaram e modificaram a música erudita contemporânea?
GILBERTO MENDES:
Ah, profundamente né! Profundamente. Inclusive pra uma área que até eu mesmo, embora seja considerado num relatório oficial da França, como eu, o Willy e mais um outro compositor do norte, um dos pioneiros da música concreta no Brasil, mas isso foi há muitos anos atrás, fomos realmente os primeiros a fazer música com fita gravada, colar fita, essas coisas assim, mas aquilo era muito precário, a gente fazia com gravador comum, com durex essas coisas assim, porque não existia estúdio de música eletrônica no Brasil.
Mas a música eletrônica concreta trouxe um novo material para a música impressionante e uma nova dimensão pra música também, só que uma música extremamente inacessível ao público de concerto.
Mas curiosamente, os elementos, a máquina de fazer aquilo chegou à música popular, chegou por que eles usam aparelhagem... Você não fala em música eletrônica hoje em dia? A música eletrônica tem 70 anos, não foi e nem é essa que fazem pra dançar: ali são canções comuns, misturadas com som eletrônico dos aparelhos, não é música eletrônica a ponto da linguagem da chamada música eletrônica, mas chegou à música popular.
Então houve uma enorme transformação, depois da guerra, exatamente o avanço da tecnologia mexeu muito na perfeição do som gravado e depois a invenção do sintetizador trouxe um avanço fenomenal para a música, possibilidades fenomenais de mexer com a música.
Eu sempre desejei isso, mas acabei não fazendo por falta de aparelhos... Esperei tanto isso e quando se tornou à coisa mais possível, eu perdi a vontade (risos). Até hoje eu não fiz. Então agora o artista brasileiro, o Flo Menezes, que é um dos melhores compositores de música eletrônica do Brasil ele montou um senhor estúdio, na UNESP em São Paulo onde ele dá aula. Eu sou muito amigo dele, ele é da nova geração né e ele ofereceu, ele faz questão que eu vá lá compor. Agora eu vou lá qualquer dia compor uma música eletrônica pra justificar o nome que eu peguei de uma área em que eu, na verdade, não fiz nada. risos.
PAINEL
Seria uma boa...
GILBERTO MENDES
Eu vou lá fazer uma música eletrônica qualquer dia. Hoje eu tenho uma preguiça de mexer com a música eletrônica, porque aperta botão aqui ali... É que nem mexer com computador né.
PAINEL
Mas vale a pena...
GILBERTO MENDES
Valer vale. E eu vou!
PAINEL
Vamos trazer a vanguarda pra música eletrônica?!
GILBERTO MENDES
A música eletrônica nasceu na vanguarda. Não é trazer isso pra música...
PAINEL
Não, mas a sua música na música eletrônica...
GILBERTO MENDES
Ah, a minha sim! Eu fiz o equivalente a isso né, eu o Willy a gente fazia muita música para teatro assim, gravava barulhos e coisas... Mas eram gravadores antigos, acho que vocês nem ouviram falar... AK e aquelas marcas...
Tinham três rotações, você gravava, por exemplo, uma coisa na rotação média e podia ouvir aquilo acima ou abaixo né: se você ouvia acima, fica que nem desenho animado (Gilberto imita voz de desenho animado) e se punha lá embaixo (Gilberto imita um som atrasado).
Agora, se você gravava na voz um ruído, ficava muito interessante. Igual uma peça que eu fiz, do Plínio Marcos até aqui no teatro, no tempo que ele fazia teatro amador aqui em Santos, peguei um piano, pus vários materiais nas cordas do piano e mudei o timbre do piano né, coloquei bem no grave, no mais grave, em uma melodia meio assim, meio religiosa e eu ouvi no gravador ainda uma oitava abaixo e ficou um som [Gilberto imita novamente o som]. Pelo meio mais precário, eu obtive um resultado muito interessante, que impressionou bastante a Pagu, lembra da Pagu?
PAINEL
Lembro.
GILBERTO MENDES
Ela até comentou, que acho que eu e o Willy somos os únicos compositores brasileiros que têm uma crítica musical da Pagu que eu saiba, porque ela não era nem crítica de música, mas ela morava em Santos né, ela morreu aqui. E ela acompanhava o trabalho da gente, ela gostava, era uma mulher curiosa, ela queria saber, me pegou no teatro: “como é que você fez aquilo?”. Ela queria saber como é que eu fiz aquilo, aí eu expliquei conforme eu fiz aqui agora, tudo para ela. Ela escrevia para A Tribuna, botou lá uns elogios pra mim e pro Willy, esse outro compositor.
A gente fazia música assim, uma vez eu peguei uma tampa de uma manteigueira, mas era de prata e raspei uma colher dentro, e aquele ruído... Aí eu ouvi em um som mais abaixo e fica muito esquisito o negócio, e com um gravador comum, colava com durex, porque os verdadeiros estúdios você faz com máquinas né, tem aparelhos que pegam um som qualquer e tiram os formantes do som.
Todo timbre é a soma de vários formantes, então um som de piano [Gilberto imita o som] você vai tirando os elementos e isso vai virando outra coisa o som, com esse filtro você tira e aí os geradores, os geradores vão criando barulhinhos que geram freqüência aí você soma aquele, mais aquele lá e você cria timbres né. A música eletrônica e a concreta começaram assim né, com ruídos, timbres eletrônicos, mas era sempre por aparelhos complexos, gravadores da altura de um armário, coisas caríssimas, complicadíssimas e hoje em dia, um simples sintetizador tem tudo isso.
Mas até chegar esse tal de sintetizador, esperei tanto que, enveredei pela música instrumental mesmo. Mas fiz muito assim, desse jeito. Aí eu, essa música assim nasceu na França, num estúdio ligado à rádio e televisão francesa com um grupo de pesquisa lá e depois da guerra eles começaram a pesquisar o que eles chamaram de música concreta.
Concreta em oposição à abstrata, que considerava o som musical abstrato. Porque o som musical é um som que é baseado num condicionamento acústico que dá aquele som né do piano, do violino. Então o som é regular, se eu for ver esse som no gráfico ele é assim, ele é periódico. O ruído ele é aperiódico, assim, então eles começaram a explorar esse som aperiódico, que eles batizaram como concreto e o outro musical que é condicionado: forma do instrumento, tamanho da corda é abstrato. Então música concreta era isso.
Depois começaram a gerar sons também por aparelhos que geravam isso aí, os geradores de som, ver aqueles filtros que tiravam e fazia o contrário, tirava os elementos aí nasceu à música eletrônica. Mas nasceram juntas, concreta e eletrônica. E esse mesmo estúdio lá, alguns anos depois, lançou um livro que eles quiseram registrar como nasceu à música concreta e eletrônica no mundo mesmo em seu estado mais precário e quem fez esse levantamento foi um chileno que trabalhava lá que se encarregou da América do Sul e ele nos conhecia e eles foram com a gente lá, mas eu falei: “aquilo lá a gente fazia na cozinha, com aparelhos comuns, gravadores comuns, com durex”. Mas é que estava nascendo.
A estética está certa, a estética era essa, as coisas é que eram precárias, mas ta dentro do espírito, que eles querem saber como nasceu e foi com vocês, por bem ou mal, eu Willy e um cara lá do norte, nós três fomos os primeiros que fizemos música com fita, mexendo a fita. Então nós fizemos muito teatro, porque isso funciona muito em teatro, que usa uma música mais de ruído, soturno e tal...
PAINEL
Eu agradeço a sua paciência, o seu tempo e obrigada por ter dado essa aula de música para gente. Muito obrigada.
GILBERTO MENDES
Quando é que eu vou ver isso, é na Internet?
PAINEL
Isso na Internet. Se o senhor tiver paciência de mexer no computador, rs, eu deixo o endereço... Muito obrigada!