Colunistas
O SUBVERSIVO
Autor: Lucas Peña Vasques
Data: 08-12-2006 17:40
 
 

Saudações!


Há muitas maneiras de ser um subversivo. A mais conhecida e, portanto, a que alcança eficiência maior é a que se refere ao aspecto ideológico (a que mais me agrada). No entanto, outras vertentes dessa mesma característica fazem parte da personalidade de algumas pessoas e são não menos importantes para que a vida fuja desesperada e teimosamente da monotonia.


O subversivo, em questão, é o jogador Rogério Ceni. Afinal de contas, seria muito simplista chamá-lo apenas de goleiro, por todas as suas virtudes no campo de jogo. Pois bem! O camisa 1 do São Paulo Futebol Clube é um daqueles personagens imprescindíveis ao mundo do futebol.


Não só pelo que realiza dentro das quatro linhas. Aliás, sobre isso, o mestre Armando Nogueira, com seu habitual talento, já de decretou: ‘‘O Rogério Ceni, sem dúvida, meteu os pés pelas mãos. No melhor sentido da expressão’’, referindo-se, é óbvio, à incrível vocação do atleta em fazer gols de falta. Fora dos limites do campo, em consequência de sua personalidade forte, há muito já fez por merecer deixar sua marca como um dos principais destaques do futebol brasileiro.


Futebol pobre, pelo menos em relação aos jogadores que ainda permanecem atuando nos campos tupiniquins. Pobre de talentos, grandes jogadores que contagiam a massa e, sobretudo, de ídolos que mantenham uma identidade com a torcida de seus respectivos clubes.


Rogério foge à regra que domina o esporte mais popular do País, sempre tradicional e avesso a mudanças. Por isso, é um subversivo. Talvez seja o único jogador em atividade no País que defenda as cores do mesmo clube há 15 anos. Além disso, se tornou tão valorizado pelas defesas que faz quanto pelos gols que assinala — até agora foram 68, em mais de 700 partidas pelo Tricolor. Suas opiniões a respeito do tema que mais conhece — o futebol — nem sempre causam boa impressão à maioria das pessoas que militam no esporte. Não faz média e não procura agradar ninguém.


Rogério está longe de ser unanimidade. Como toda personalidade interessante, provoca idolatria, principalmente em boa parte da torcida são-paulina. Em contrapartida, é acusado, constantemente, de ser arrogante, dissimulado e marqueteiro.


Aparentemente, não se abala com nenhuma das duas situações. Coloca-se sempre acima das críticas e alheio aos elogios. Contudo, goste-se ou não dele, é inquestionável seu virtuosismo como jogador. Desde 1997, quando marcou seu primeiro gol e deu início a uma das trajetórias mais vitoriosas do esporte nacional nas últimas décadas, Rogério inventou uma posição no futebol. Ele não é um simples goleiro. Hoje, o camisa 1, além de defender, deve fazer gols e ser participativo. Interagir com os demais atletas durante a partida.


Trabalha com o pé direito com mais habilidade do que muitos jogadores de linha, se especializando, inclusive, em lançamentos precisos que, invariavelmente, desaguam em gols. Exerce uma liderança positiva nos companheiros de time. E, sem dúvida, está entre os melhores cobradores de falta do País, se não for o melhor.


Quem já assistiu a uma partida com Rogério Ceni em campo e teve o privilégio de vê-lo marcar um de seus muitos gols, entende bem o que escrevo. É uma emoção diferenciada observar um goleiro sair de sua área solitária, caminhar lentamente para o campo adversário e cobrar a infração com maestria. São momentos de expectativa, nos quais a torcida prende a respiração, seja a são-paulina ou a da vítima em questão. É, sem dúvida, uma atração à parte.


Presidente


Comenta-se que, logo que terminar sua carreira, o que deve ocorrer ao final de 2010, Rogério Ceni pretende alçar vôos mais altos no futebol. Inteligente e articulado, vai se preparar para ocupar um cargo diretivo no São Paulo. Quem sabe até a presidência. A torcida tricolor só se contentaria em ver Rogério pendurar as chuteiras caso seja para assumir a função mais importante do clube. E como se costuma dizer lá pelas bandas do Morumbi: ‘Desejo de Rogério é uma ordem’. O ofício de treinador, segundo ele próprio, está totalmente descartado. Afinal, o camisa 1 já revelou que um atleta que passou quase duas décadas em um mesmo clube, não se acostumaria jamais a mudar de casa frequentemente, como ocorre com os técnicos no Brasil.


Enfim, Rogério Ceni, muitas vezes injustiçado na Seleção Brasileira, é a fiel e exata representação do torcedor dentro de campo. É como se o são-paulino vestisse a camisa tricolor e participasse do jogo. E o melhor. Quando Rogério faz um gol, não é gol de goleiro. É gol de torcedor.


Até a próxima!

 
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