Qualquer Coisa ou a Ilha de Creta
Autor: Sérgio Pardal Freudenthal
Categoria: Política
Data: 18-04-2006 0:00
 
 

Há algum tempo eu carrego a vontade de escrever uma coluna periódica, com artigos que poderiam ser sobre direito previdenciário ou qualquer outra coisa que desse na telha. Então o amigo de longa data, companheiro de lutas e credos, Olavo Neto – com a anuência do Mohamed-, convida para expor algo neste “Painel”. E lembrando dos tempos que ainda podíamos filosofar – sempre contra a ditadura –, tecendo muitas considerações sobre as coisas mais importantes, como a beleza, o amor e o prazer.


Assim eram os parâmetros da deliciosa sociedade micênica ou minóica, a primeira civilização que teria existido na ilha de Creta; antes da chegada dos outros povos helenos, gregos de outras paragens, navegadores e bem mais belicosos. E justamente aí, na falta de belicosidade, é que estava o encanto daquele povo cretense.


Sem nem a mínima intensidade de conhecimento sobre o assunto, dá para se divertir e conjeturar acerca do que seriam os autóctones da ilha de Creta. Tanto quanto os tupiniquins de nossa ilha de São Vicente, vivendo no litoral, com a enormidade do mar na sua frente, os cretenses primevos sabiam, pressentiam, que muita coisa existia do lado de lá; e assim, tudo que aparece é bonito e interessante. Ocupados pelos navegantes guerreiros formadores da Grécia, sucumbiram sem perder a alegria, restando apenas bonitas histórias.


Já cá no porto de Santos, Creta é uma loja encantada de presentes, para viajantes de todo um mundão. Atualmente encravada na Rua João Otávio, junção da General Câmara com a João Pessoa, representa todo o caráter internacional destes índios litorâneos que somos: hospitaleiros e curiosos. Era sentados na calçada e proseando do alheio, ainda quando a Casa Creta era na General Câmara, bem próximo da esquina da rua dos Estivadores, que a gente tomava conhecimento e imaginava.


Imaginávamos mundos melhores, habitados pelos cretenses de origem, miscigenados com os donos iniciais da nossa ilhota do pau-brasil. Talvez com toda a evolução industrial sem desservir ao meio ambiente; mundos em que o avanço tecnológico se refletiria em maiores exigências enquanto necessidades humanas, e em seu total atendimento para e por toda a sociedade, com igualdade de oportunidades para qualquer maior desenvolvimento.


Naquelas épocas a zona do meretrício no quadrilátero da General Câmara tinha fama: era o descarrego dos bons meninos e a vitrine das lindas meninas de reputação internacional; o 410, mais perto da ponta do cais, das boates com show erótico, apresentava xoxotas mais caras, e o 275, talvez por maior distância, trazendo preços mais populares.


O combate à ditadura, de todas as formas e até mesmo em sonhos, reunia pessoas e fazia amigos, pela coincidência das excelências morais, unidos por princípios. Princípios que não se perdem; não são dogmas ou mera falácia, e sim conceitos sólidos de modos de vida, de dignidade e honra.


Na ilha de Creta, nos tempos d’antanho, o evento mais importante era o concurso anual de beleza. Concurso de todas as belezas, homens ou mulheres, e sempre ao natural, sem nada, sem qualquer pano que pudesse obstruir a visão do belo. Que ninguém me pergunte onde foi que eu li sobre o que conto...


Importa mesmo é tirar algum proveito da lembrança, moral da história ou coisa assim: no lugar da guerra, da inveja ou da disputa, o que move o mundo na forma que todos verdadeiramente querem é a beleza, o amor e o prazer. Basta sonhar com a ilha de Creta e sua primeira civilização.


Sérgio Pardal Freudenthal é advogado previdenciário


 

 
 
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