| O Último dos Malditos | ||||
| Autor: Lucas Peña Vasques | ||||
| Categoria: Esporte | ||||
| Data: 18-04-2006 0:00 | ||||
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Saudações! Nelson Rodrigues, Plínio Marcos, Jorge Mautner, Glauber Rocha, Augusto dos Anjos e Romário. Vocês devem estar perguntando o que esses personagens fundamentais no nosso cenário cultural têm em comum? Eu diria que muito. Mas, essencialmente, todos foram —em algum momento de suas trajetórias— ou ainda são considerados malditos. Evidentemente que o estigma não se refere à definição literal (perverso e maligno, entre outras). Mas, às características únicas, polêmicas e, em certas oportunidades, dúbias de cada um. Ou seja, todos eles vivem ou viveram à margem da maioria dos integrantes de sua tribo. Esse tipo de perfil comportamental (sem querer invadir a área dos psicólogos) é encontrado, especialmente, em pessoas que desenvolvem atividades artísticas (aí eu incluo o futebol), necessitadas de uma grande dose de criatividade e sensibilidade. Outro fator comum a todos é a longevidade de suas obras. Quem é capaz de duvidar que a arte de Plínio Marcos e Nelson Rodrigues está condenada a se perpetuar? E há dúvida de que a introspecção de Augusto dos Anjos e seus poemas ainda povoam os corações dos mais sensíveis? Jorge Mautner, por sua vez, assim como um vampiro (uma de suas canções mais conhecidas), parece não sentir o efeito do tempo, devastador para alguns, e continua a espalhar os acordes de seu violino aos quatro cantos. E o que dizer do legado de Glauber Rocha no cinema? É nesse momento que entra em cena o protagonista de hoje: Romário e seus eternos gols. Perdoem-me os puristas, que devem achar uma verdadeira heresia incluir no rol de tantos letrados e formadores de opinião um jogador de futebol. Mas, devo me defender. É evidente que o aspecto que pretendo comparar não é o intelectual. Romário é um personagem em extinção no futebol. Aliás, um futebol carioca que nunca foi tão carente de ídolos e bons jogadores (não vou sequer pensar em craques). Sobre ele flutua a aura dos que não inspiram meio termo. Alguns o odeiam; outros o amam. O Baixinho não consegue despertar o consenso, o que é louvável. Afinal, toda a unanimidade é burra, como disse um dia o já citado Nelson Rodrigues. Fruto do futebol do Rio de Janeiro, que já produziu tantos craques e figuras interessantíssimas fora das quatro linhas, como Heleno de Freitas, Garrincha, Paulo César Lima, Didi e Zico para citar apenas alguns, Romário tem reservado seu espaço em muitos capítulos definitivos da história recente do esporte. Brigou dentro e fora de campo, tornou-se artilheiro em quase todos os times por onde passou, foi cortado da Seleção às vésperas de uma Copa do Mundo (chorou diante do País inteiro, o que comoveu poucos, devo admitir), assumiu o papel principal em outro Mundial. Passeou com desenvoltura por três dos quatro clubes (outrora) grandes do futebol do Rio. E, hoje, logo após completar 40 anos de idade e ainda em atividade (afinal, não é todo dia que um jogador de 39 anos torna-se artilheiro do Campeonato Brasileiro), volta às discussões obcecado pelo objetivo de chegar aos mil gols. Romário tem muitas virtudes. Fala o que pensa (nem sempre algo que mereça um destaque positivo, é verdade), conhece como poucos os atalhos que levam ao gol, sabe levar a vida, o que já lhe valeu alguns problemas. Mas, infelizmente, como o aspecto intelectual não é o ponto forte na maioria dos jogadores de futebol (por isso, a comparação é outra, como disse acima), o Baixinho tem como eterno companheiro e comandante uma pessoa que representa o que há de pior, não só no futebol, mas na vida pública brasileira: o capo Eurico Miranda. Mas não vou perder meu tempo e o generoso espaço com esse indivíduo. Seu nome vem à tona na medida em que ele está patrocinando essa verdadeira cruzada de Romário para chegar ao milésimo gol. Sinceramente, acredito que ele não precisa disso. Marcar bate-bolas com times de várzea ou equipes de praia do já falido futebol do Rio, travestidos de jogos oficiais, com o objetivo de acelerar a escalada de gols de Romário é, ao meu ver, a banalização de uma marca importante: 1.000 gols. Que diferença faz se o camisa 11 marcou 900, 947, 956, 999 ou 1.000 gols em sua longa e vitoriosa carreira? O que ele realizou no futebol já está gravado na história. Para sempre. E essa busca insana pele façanha pode acabar ofuscando uma trajetória bonita do último dos malditos de nosso futebol. Afinal, contabilizar gols marcados em autênticas peladas cai em total descrédito para as pessoas sérias que amam e acompanham o futebol. Definitivamente, você não precisa disso, parceiro. Até a próxima!
Lucas Peña Vasques é jornalista e Editor de Esportes de "A Tribuna" |
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