| Arquitetura em Santos | ||||
| Autor: Raimundo José Pimenta Araújo Filho | ||||
| Categoria: Cidades | ||||
| Data: 03-04-2006 0:00 | ||||
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“Dinhêro tresnsforma tudo dinhêro é quem leva e traz eu nem quero nem dizê tudo o que o dinhêro faz apenas aqui eu conto que pra ele tudo ta pronto ele é cabrêro e treidô é carras e é vingativo só presta pra sê cativo não presta pra ser senhô.” Patativa do Assaré
Para entendermos e analisarmos o tipo de arquitetura praticada em nossa cidade é imprescindível termos uma visão clara do poder do capital e da sua influência no desenvolvimento urbano. A sociedade capitalista moderna criou uma forma de democracia de cima-para-baixo, onde as estruturas tradicionais do poder foram mantidas. Ou seja, basicamente, as empresas e seus aliados detêm o controle do poder político e, a cada dois anos, solicita-se que a população – a “horda perplexa”, segundo Walter Lippmann – compareça às urnas, no que comumente chamamos de “eleições”, para ratificar as decisões tomadas ou que selecionem seus representantes dentre os membros dos setores dominantes da sociedade. Para dar uma cara mais amigável ao conhecido monstro chamado de especulação imobiliária, o neoliberalismo introduziu um charmoso termo: o turismo de negócios, com a clara intenção de justificar algumas atrocidades cometidas. Temos, então, um quadro bastante claro do que vem acontecendo há anos em nossa cidade: o poder econômico, servindo fielmente ao seu amo e senhor, o lucro, altera, segundo seus interesses, Planos Diretores, Códigos de Posturas etc. Chegamos a um ponto onde ouvimos das bocas dos nossos concidadãos que “Santos é um exemplo de desenvolvimento”, devido ao fato de “possuirmos vários shopping-centers e prédios altos”. Qualidade de vida? À merda com ela! Queremos mais é fazer compras! Que se dane o resto! Temos hoje, provavelmente, o maior número de pet-shops por habitante da América do Sul. Templos de pedágio divino e shoppings -verdadeiras louvações ao mau gosto e ao consumismo- rompem a paisagem todos os dias. Botamos abaixo, recentemente, em 2002, uma das poucas obras representantes da arquitetura moderna existente em Santos (e da dita Escola Paulista Brutalista, no dizer da Profa. Dra. Arqta. Ruth Verde Zein): o Clube XV, projeto dos grandes Pedro Paulo de Mello Saraiva e Francisco Mario Lucio Petracco, 1963. Os donos do poder não ligam para o fato de que foi a arquitetura moderna que deu ao Brasil status de grande expoente arquitetônico no século passado. Assim, no lugar da sede daquele clube, foi erguido o primeiro representante do turismo de negócios em nossa cidade. Em tempo: no dia que me apresentarem, simultaneamente, um turista que veio fazer negócios e um homem de negócios que veio fazer turismo aqui, retirarei o que disse. Fora isso, há os problemas inerentes à arquitetura e à construção civil propriamente dita. Arquitetonicamente, sendo benevolente, creio que 99% do que se faz em Santos não possui o menor senso estético muito menos opção por determinado partido arquitetônico. Para ser justo, há opções – temerárias – pelos modismos estéticos em voga, como o neocolonial e o mediterrâneo, além da já venerada e consagrada “seita da litocerâmica santista”. Há ainda o problema da qualidade nas execuções das obras, pois, aqui, adota-se o princípio de que o que é caro e suntuoso é bom. Há exemplos óbvios em nossa cidade. Mas não vou deter-me neste assunto para não fazer ainda mais inimigos. Claramente, o problema reside nos seguintes temas: a falta de partido arquitetônico, o abandono da qualidade de vida do cidadão e a exploração idiota do meio urbano. A incidência de ventilação natural na parte interna da cidade é hoje praticamente nula devido aos enormes mausoléus de cerâmica e granito erguidos ao longo das quadras mais próximas da orla da praia. Recuos, ao contrário de generosos, são mínimos, para maior aproveitamento dos terrenos e, obviamente, obtenção de maior lucro. A elite que agride nossa cidade tem meios de contornar este problema: muda-se para o litoral norte. São eles, sempre, os primeiros a pularem fora. Mas não foi sempre assim? Outro grave problema é a questão da acessibilidade. Malgrado algumas intervenções do poder público, inexiste uma preocupação do setor privado neste sentido. Aqui, entende-se por acessibilidade a construção de uma simples rampa. E, pior, nossas faculdades pouco ou nada trabalham na formação dos profissionais neste sentido. Uma historinha: recentemente participei de uma banca graduação numa faculdade aqui em Santos, e, para a minha surpresa, todos os seis trabalhos dedicaram diversas páginas ao discurso da importância da acessibilidade na arquitetura; porém, todos, simplesmente, projetaram algumas rampas para justificar tal discurso –o deficiente visual que se dane!– e, para piorar, havia o projeto de um condomínio com vários sobrados que só possuíam escadas como meio de acesso ao pavimento superior. Daí, cadeirante jamais lá poderia morar. Placas, luminosos e outdoors de gostos duvidosos também se espalham pela cidade. Não há controle, não há diretrizes, não há respeito. A paisagem urbana foi entregue ao mercado e este senhor a modifica de acordo com suas conveniências e seu apetite especulativo. As ruas foram tomadas por carros, calçadas encolhem a cada dia e o pedestre é o último na lista de prioridades. Esquecem que a arquitetura deve ser contemplativa, deve ser bela. E, principalmente, esqueceram o essencial -como sempre enfatiza o gênio Niemeyer: “que o importante é o homem”. Mas o que mais me preocupa é a total ausência da busca por uma identidade arquitetônica e o relegar do ser humano a uma condição secundária. Infelizmente, a culpa é nossa. Fechamos nossos olhos e desistimos de sonhar. Cruzamos os braços, adotamos a triste condição de espectadores e nos deixamos guiar por cabeças errantes, acéfalas e gananciosas rumo a um futuro nada promissor. Raimundo José Pimenta Araújo Filho é arquiteto & urbanista nascido em Santos e Corinthianíssimo
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