Tempos Modernos (Leandro Rodrigues)
Autor: Leandro Rodrigues
Categoria: Economia
Data: 02-08-2006 0:00
 
 

José Silveira ficou pasmo com os comentários do vidente, que disse, na TV, que o mundo acabará em 2012. Ao longo de seus noventa anos ele teve oportunidades suficientes de ver várias previsões não se concretizarem, mas alguma coisa o incomodava.


Acima da descrença, estava a tristeza em saber que possivelmente seus netos e bisnetos não viveriam nem a metade do que ele viveu. E, pior, ele vivera quase um século pra terminar afogado num maremoto. Já não tinha mais idade pra isso. Perdido em pensamentos desligou a TV, bebeu um copo de vinho e decidiu dar uma volta pelo bairro pra pensar sobre o assunto.


Quantas saudades o invadiram nesse passeio! Saudades de Zé, seu xará, artista das artes de fazer sapatos. Saudades da época em que sapatos eram arte. Saudades dos sapateiros e das conversas nas sapatarias. Os automóveis passavam por ele, alguns o acenavam com um buzinar, sem reconhecer, ele simplesmente acenava com a mão em direção ao veículo. Não haveria conversas nessa manhã, seu passeio seria solitário em meio a carros apressados. Passou pelo endereço de Margarida, a casa, por onde todos os dias ele passava na esperança de encontrá-la na janela, dera lugar a um prédio de quinze andares. Mesmo se houvesse alguém nas janelas, a conversa seria impossível. ”Hoje, as janelas, são as da internet”, ponderou Silveira lembrando de Fabinho, o bisneto de quinze anos, que arrumara uma namorada via MSN.


- Ela mora em Miami –dizia o menino ao bisavô.
- Mas, como você namora uma menina que mora tão longe?
- Ahhh...o senhor não vai entender. Não é do seu tempo. –diante do argumento, o bisavô sorria enquanto pensava: ”Cada qual com a sua janela...”.


Quantos anos viveu Margarida? Estaria ela viva ainda? Quantos netos? Quantos bisnetos? Quantas Margaridas viveriam naquele prédio sem ninguém prá esperar passar?


No cigarro, a saudade da Tabacaria do Fernando. E junto com ela a saudade do Rossi  Barbeiro, do George da avícola e do Ney do Secos & Molhados. Onde estavam seus filhos e netos?  Que profissão exerceriam?


Silveira seguiu entre prédios e avenidas, passou pela Igreja onde casou com Mariana. Saudades de Pedro Santeiro que, com um canivete e um pedaço de tronco, esculpiu uma imagem de São Judas que media dois metros de altura. Saudades do tempo em que os artistas tinham tempo pra esculpir. Saudades dos escultores. Parou ali na porta da igreja lembrando do dia do casamento; seu nervoso, sua emoção, a emoção daquele dia só não foi maior que a do dia em que conduziu Isabela, sua filha ao altar; e, depois, à lua de mel, Mariana trêmula, insegura, o amor e o medo. Como foi boa a lua de mel! Foi também naquela igreja que ele tocou seu piano em público pela última vez. Ah,o piano!


O piano sempre foi seu grande amor. Sempre foi pianista. Começou nos cinemas. Quando os cinemas exilaram os pianos, foi para os cassinos, quando os cassinos foram assassinados foi para os cafés e quando os cafés entraram em extinção foi para piano bares e igrejas. Levou tempo para se livrar do aluguel, mas nunca se separou do piano. Se recusava a ter o triste destino de alguns amigos que enforcaram seus talentos e criatividades em fábricas, repartições ou mesas de escritórios. Ele era pianista. Sua missão no mundo era essa,  levar beleza e arte aos corações e ouvidos que o procuravam. E assim foi. Nos últimos anos, devido à idade, tocava somente em casa, para as visitas ou quando estava a sós com Mariana. ”La Vie en rose” era a música deles. Infelizmente, nenhum filho ou neto sentiu despertar o mesmo dom, o bisneto Duda de 19 anos é que se dizia músico. Mas,ele não contava. Música feita no computador não é música.


Com lágrimas nos olhos decidiu caminhar pela praia.


Sentou num banquinho olhou os carros passando e alguns atletas de calçadão que corriam de um lado para o outro, com tênis de mola, de cronômetro nos pulsos tentando superar algum recorde. Sozinho no banco Silveira cantarolou “Carinhoso” lembrando de Dora, uma mulata faceira que ele conheceu na praia e toda noite ia ao cassino vê-lo tocar e dançar com ele. Ah, Dora, seu perfume, suas canelas, seus cabelos encaracolados. Saudades dos cabelos encaracolados da mulata.


-...”E os meus olhos ficam sorrindo e pela rua vão te seguindo...” -parou de cantar, a poesia estava morta e enterrada. Até o poeta sentado no banco virou pedra.


Silveira se revoltou, não havia mais poetas, sapateiros, escultores, nem arte havia mais. O que havia eram mulheres de plástico e homens infláveis. Macunaímas com ares de Henrique V que nunca serão estrelas.


- O mundo mudou, seu Silveira.-dizia o jovem Fabinho -vai fazer o quê? Essas suas idéias estão ultrapassadas, nós hoje vivemos num mundo globalizado, a coisa é diferente.
            Sim, é verdade. Estavam agora na época da aceitação. Época do “é assim, o que se há de fazer?”.


- O sistema venceu! – disse o rebelde de quase um século ao poeta de pedra, enquanto a juventude moderna, com cabeça raspada e caras e corpos  pintados, pedia ,de carro em carro, dinheiro para comprar cervejas. ”Nenhum Heitor, Nenhum Andrade. Onde está a modernidade?”; pensou confuso o pianista.


- E agora José? – perguntou o poeta.


Silveira, envergonhado, levantou-se do banco, olhou as placas, outdoors, hipermercados, fast foods e motoboys e se retirou sem dizer uma palavra.


Desde esse dia José Silveira espera ansioso pelo maremoto.


Leandro Rodrigues é jornalista, escritor, pesquisador musical, colaborador do jornal  Página Dois e das revistas Poetizando e Escritos. Atualmente dedica-se ao livro de contos “Desconstrução” que será lançado em 2007 pela editora Omega

 
 
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