Evolução (Leandro Rodrigues)
Autor: Leandro Rodrigues
Categoria: Cultura
Data: 28-07-2006 0:00
 
 

 A aldeia era a praia.E a praia era a aldeia,tanto faz.Os habitantes passavam o tempo todo, recebendo a energia do Sol, descarregando os maus fluídos no mar,hipnotizados pelo reino de Yemanjá.


 Os que gostavam de cantar, cantavam. Outros gostavam de tocar instrumentos musicais e tocavam para os que gostavam de cantar, cantarem.Havia os que gostavam de dançar. Alguns gostavam de inventar estórias e as contavam para aqueles que gostavam de ouvir. Outros gostavam de contar fatos acontecidos com eles ou com outrem.Os que gostavam de ensinar, ensinavam aos que gostavam de aprender.e havia também os que gostavam de nadar, os que gostavam de correr, os que gostavam de lutar e os que gostavam de brincar. Os que não gostavam de fazer nada eram deixados à vontade, para, assim, poderem perceber uma aptidão. Nunca se viu um povo tão criativo e feliz. Havia amor.


 A alimentação eram as frutas e os grãos. Também comiam peixes que os que gostavam de pescar distribuíam para todos. Amavam a natureza e os animais.


 A união se dava através de afinidades. Os casais se formavam com o objetivo de  juntar  o grau de evolução de ambos e dar vida a um outro ser -que receberia suas orientações e teria como ponto de partida um grau de evolução que ele buscaria elevar na sua existência. As pessoas também passavam por provações, sabiam que estavam no planeta para evoluir através do controle dos instintos do corpo e das fraquezas da alma. Por isso, lutavam contra a inveja, a ira, o sentimento de perda, de superioridade, a insegurança e o orgulho. Sabiam também que a evolução total só seria atingida quando todos evoluíssem por isso se ajudavam nas fraquezas e falhas. Não havia críticas, nem julgamentos. Havia amor.


 Todos trabalhavam no objetivo da evolução do grupo. Acreditavam na força Superior, mas não temiam a morte. Aproveitavam a vida através do culto aos sentimentos nobres. Trabalhavam com afinco pela arte, cultura, o bem estar social e a educação. Mas não possuíam relógios, nem chefes. Havia amor.


 Um dia, a História não conta como e nem porque, um sorveteiro chegou nessa praia. Ao sentir o calor, e perceber ser aquela a maior  praia do Planeta, decidiu comercializar seus sorvetes por lá. Não obteve sucesso, já que os habitantes nem sabiam o que era comércio. Então decidiu distribuir seus sorvetes gratuitamente para as crianças e jovens que ficaram encantados com a novidade. Pediram mais. O sorveteiro negou. Daquele momento  em diante, para tomarem sorvetes teriam de pagar. Os adultos ao verem a tristeza das crianças ofereceram trocas pelo sorvete. Não tinha jeito. A única maneira seria pagando e para conseguir o dinheiro bastava eles trabalharem para ele na fábrica que ele tinha aberto próximo dali.


 Os que gostavam de pensar não viram sentido. Teriam de passar dias inteiros na fábrica e no final de um período, que o sorveteiro chamou de “mês”,  receberiam uma quantia insuficiente para comprar um quarto do que tinham produzido. E, além do mais, teriam de ir mesmo quando não quisessem e o sorveteiro ainda estipulou um tempo para eles ficarem lá. Ao invés de pensar, fabricariam. E só para o sorveteiro que cobraria dos outros. E, ainda por cima , o produto fabricado era algo que se não fosse experimentado nunca faria falta. Em nada colaborava com a evolução. Os pensadores concluíram que o sorveteiro era um daqueles que gostavam de contar piadas. E riram muito. Ele era realmente engraçado.


 Mas as crianças continuavam tristes. E alguns, para fazer a alegria das crianças, aceitaram e trabalharam um mês inteiro na fábrica. No final desse mês, só algumas crianças comeram sorvetes, pois os pais, ouvindo os conselhos do chefe, começaram a achar injusto eles se matarem de trabalhar para o filho dos outros ficarem felizes. As outras crianças ficaram ainda mais tristes.


 Os que gostavam de pescar resolveram também cobrar pelos peixes. E os que gostavam de semear fizeram o mesmo com os grãos. Logo, todos estavam cobrando pelo que faziam. Os que gostavam de fazer colares e pulseiras, os que gostavam de pintar, os que gostavam de desenhar, os que gostavam de limpar. Até os que gostavam de curar resolveram cobrar para livrar seus  semelhantes das moléstias do corpo.


 Um dos que não gostava de fazer nada decidiu administrar a aldeia e contou com o apoio do sorveteiro, chamaram outros que também não tinham nenhuma aptidão e montaram uma equipe. Eles decidiriam o que era necessário aprender e o que se podia ensinar. Seriam os responsáveis pelas Leis que definiriam quem estaria dentro da comunidade e quem deveria ser afastado. O certo e o errado seriam decididos por eles.


 A equipe de governo, junto com o sorveteiro, decidiu chamar alguns amigos que gostavam de contar os fatos acontecidos e deu a eles a concessão de um jornal. O sorveteiro montou a gráfica e eles agora também podiam cobrar pelos seus serviços. Só não poderiam noticiar nada contra a fábrica de sorvetes e nem criticarem as medidas tomadas pelo governo.


 Os casais também passaram a se unir pelo interesse. Alguns passaram a visualizar o lucro financeiro que obteriam com a união, outros o poder de enriquecimento ou a influencia social do parceiro. E outros apenas pelo destaque que a beleza física do parceiro poderia lhes dar. Até nos casamentos por amor passou a ser assinado um contrato antes da união.


 Hoje, naquela praia, só existem turistas que se divertem enquanto os habitantes do local tentam vender-lhes alguma coisa. Nem que seja o prazer proporcionado por seus corpos. Grande parte da população passa fome e a desigualdade social está provocando uma guerra civil.


 A cultura é ditada pelo poder econômico que decide o que a população vai assistir, cantar, dançar e até ler. Não há mais nenhum interesse pela educação e poucos sabem o significado da palavra evolução.


 Os descendentes dos pensadores não nasceram. E, na praça central, há uma estátua do sorveteiro. Até Deus, hoje em dia, cobra dos fiéis pela proteção.


 E o amor e a felicidade que havia lá estão enterrados em um tempo distante. Um passado tão remoto que eles, na sua luta para “vencer” na vida não têm tempo de pesquisar.


Leandro Rodrigues é jornalista, escritor, pesquisador musical, colaborador do jornal  Página Dois e das revistas Poetizando e Escritos. Atualmente dedica-se ao livro de contos “Desconstrução” que será lançado em 2007 pela editora Omega

 
 
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