Cartas do Pardal ao Olavo (Sérgio Pardal Freudenthal)
Autor: Sérgio Pardal Freudenthal
Categoria: Educação & Ensino
Data: 24-07-2006 0:00
 
 

Prezado amigo Olavo,


Escrever ao amigo é um daqueles prazeres que exigem um tanto de esforço e concentração (como tantos outros tão bons) Mas, além disso tudo, ainda é preciso eleger um mote, definir do que ou de quem vamos falar mal.


Eu estava com umas idéias sobre a minha tese sobre Judas – seria um revolucionário equivocado e não um traidor, como pintam por aí – ou sobre os tempos de empinar pipa na cidade de Santos ainda com ruas de terra, e você me aparece cobrando um texto sobre educação; e, ainda por cima, na Quinta-feira de noite, depois de ter tomado todas, você exigia o artigo para o dia seguinte. Pois aqui vai, atrasada como sempre, a missiva com um desastrado berro sobre a educação:


Pela forma como estão debatendo por aí, ficou parecendo que a exata divisão de águas está na aceitação da cota de vagas na universidade, determinada pela cor da pele ou mesmo pela classificação econômica. Pois o problema está mesmo é onde todo mundo concorda e ninguém apresenta solução, na base educacional, em especial nas escolas públicas.


Nem precisa ficar relembrando o quanto sou mais velho que você, amigo Olavo, mas eu ainda estudei nas boas escolas públicas: Grupo Escolar Azevedo Júnior, quando então fiz o meu primário; Ginásio Estadual Professor Primo Ferreira, para os quatro anos que fechavam o primeiro grau; e no Colégio Técnico Industrial de Santos, tantas vezes chamado Escolástica Rosa, formei-me técnico mecânico de máquinas e motores.


A ditadura militar, especialmente em sua segunda metade, destruiu com violência o ensino público; destruiu porque apenas o regime democrático permite a cobrança da cidadania e assim os tempos de arbítrio não tiveram como responder às necessidades de uma população crescendo e migrando para as áreas industriais. O péssimo resultado dos desmandos foi bastante evidente, com o professorado vilipendiado, mal remunerado e despreparado.


Outra coisa que todo mundo concorda é que é preciso pensar em um sistema prisional mais seguro e mais justo, isolando o que há de pior e ressocializando o possível, mas enquanto a máquina chamada sociedade continuar produzindo o que não presta, sem oportunidades de formação para o bom cidadão, nunca haverá presídios suficientes.


Olavinho, meu mano gorducho, ainda bem que o espaço acabou. Nem eu tenho resposta para as perguntas que se apresentam, nem meu fígado agüenta misturar bucho de bode com cachaça de má qualidade.


Fica aqui um carinhoso beijo em suas bochechas – esperando manter com alguma assiduidade estas cartinhas carinhosas, algumas com o necessário veneno e sempre com respostas às suas provocações,


do amigo Pardal.


Santos, 24 de julho de 2006.


Sérgio Pardal Freudenthal é advogado previdenciário, professor de Direito e comentarista do PROGRAMA PAINEL


 



 
 
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