| Crônicas Esquecidas (Hugo Paulucci e o “Agora Vai” ) | ||||
| Autor: Osmar Gomes da Silva | ||||
| Categoria: Cultura | ||||
| Data: 27-06-2006 0:00 | ||||
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Crônicas Esquecidas (Hugo Paulucci e o “Agora Vai” ) Naquela sexta-feira, depois do Ano Novo acertando os últimos preparativos para o Carnaval com a turma da Borges, Lorde Cartuchinho revelava: “Meus camaradinhas, lamento, mas este é meu último carnaval com o ‘Agora Vai’!”. Sim, senhor! 50 anos de Carnaval! O “Agora Vai”, o bloco do vai quem quer, o mais democrático carnaval de rua, que no sábado, antes da “Dona Dorotéia, vamos furar aquela onda?”, enchia as ruas do centro da cidade com foliões de todos os bairros, todas as cores e estandartes tinha sua morte anunciada nada mais nada menos pela boca do seu criador, o folião e primeiro Lorde Ugo Paulucci! A noite que estava quente, a cerveja rolava e o papo da rapaziada era, até então, contagiante e animado na Taberna da Glória (“Na Glóriaaa! ...panananananam!, Na Glóriaaa!....”). Arildo, Bacalhau, Badalhoca (este último, depressivo, foi logo puxando um pacau) e Peixe-Galo ficaram atônitos e emudeceram. O garçom Burduega, com seus olhos de coruja, que naquela noite estava fazendo a folga do Cascarrabia, pela primeira vez tremeu na base. E a mágica bandeja prateada cheia de Brahmas casco verde bamboleou e quase acontece outra tragédia. Ato contínuo, Careca saiu desesperado em direção ao Café D’Oeste, do outro lado da Praça José Bonifácio, esquina com a São Francisco, ao encontro do Paixão e o Bicudo. A noticia se espalhou rápido. Tanto é que no Baile do Nacional, detonando na parte superior do Teatro Coliseu (ali em frente à Taberna da Glória), a Orquestra do Mario Folganes parou de tocar uma rodada de sambas, para Leila Silva anunciar ao microfone o ocorrido. Cartuchinho gesticulava (lamentando a saúde precária, as varizes das pernas, o enfisema e a idade) cercado por uma dezena de sambistas, notívagos, batuqueiros, cabrochas, maloqueiros, damas da noite e fumetas. “Faltavam as luzes dos refletores, os flashes das câmeras e uma roda de imprensa. Mas deixa isso pra lá”. -Licença maladragem! Vamu afastá! Abrindo caminho com os cotovelos e empurrando quem ficava na frente, se apresentava Paixão, com sua voz de baixo (-era um vozeirão!), trazendo junto Bicudo, Pescadinha, Sarará e Pedrinho. Não deu outra. Arrastaram Lorde Cartuchinho para o reservado da sala lateral, onde conversavam assuntos do coração de Nego Orlando- leão de chácara do Samba Danças- e a mulata Madalena. Sarará, Pescadinha e Pedrinho argumentaram que o carnaval Santista, sem o “Agora Vai”, poderia ser o começo do fim. (-Eles tinham razão). Paixão não vacilou, colocou à disposição do “Agora Vai” seu trombone maravilhoso e a bateria da Rua Borges. Inclusive, sem consultar a musa-madrinha Guiomar com compromisso de liderar a bateria usando as sandálias cor de prata (dignas de uma rainha, segundo o Rei Momo Waldemar 1º e Único). Nego Orlando abriu as portas do Samba Danças para uma apresentação especial da bateria “Agora Vai”, com a participação de Neuzoca, da musa-passista Guiomar e da mulata Madalena, “crooner” da orquestra do Cabral e seus Cubancheros. Não faltou o apoio do Lorde Brilhantina e a escola de Samba Império do Samba em abrir, no Brooklin Santista, as portas do Sambão do Cine D.Pedro da rua Campos Melo para uma “palhinha” da bateria “agoravaina”. A molecada e os marmanjos da Borges, como não podia deixar de ser, disseram “presente”. “Como meu camaradinha pode notar, a rapaziada -batuqueiros, sambistas e a malandragem- se solidarizou com o moribundo “Agora Vai”, em nome do Reinado de Momo. E... Deu certo!” Naquele ano, Lorde Cartuchinho, com enorme sacrifício e apoio total, levou o “Agora Vai” para o centro da cidade. Foi um desfile memorável. A multidão de foliões foi engrossando desde a concentração diante do H. Quintas. Engrossando, aumentando, engrossando, desfilando pelo centro com a parada tradicional na General Câmara nº94, prédio do jornal A Tribuna. Depois, percorrendo aquelas ruas estreitas de pedras. Os bondes parados e iluminados. Pés descalços, paralelepípedos, confetes, serpentinas e lança-perfumes. O carnaval inesquecível do “Agora Vai” encheu de alegria o centro da cidade. Agora Vai nossa turma O nosso bloco não tem preconceito de profissão Tudo isto agitava a “Terra da Caridade e da Liberdade”, para uns. Também conhecida como a “Cidade Vermelha”, para outros. Osmar Gomes da Silva é autor de ”Rumo ao Paraíso e outras histórias”. |
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