O Operário e o Sacerdote
Autor: Luiz Paulo Neves Nunes
Categoria: Educação & Ensino
Data: 27-06-2006 0:00
 
 

Houve um tempo em que os professores eram respeitados, que suas presenças eram a certeza de credibilidade, que seus comentários eram considerados e tinham grande peso. Eram formadores de opinião.


Os professores eram figuras que poderiam ser comparadas aos sacerdotes, pois buscavam a verdade e a justiça, mas tinham o diferencial de procurar essa verdade através das ciências. Sua consciência era plena de que estavam construindo os alicerces do futuro da sociedade, os futuros cidadãos.


 Atualmente, a docência tem uma preocupação mais imediata e materialista, novos tempos, onde o “ter” está suplantando o “ser” de forma inegável. Logo, o magistério fica enquadrado como uma atividade profissional comum e assim é possível exigir deste profissional, o professor, metas de produtividade, como se fosse um operário em uma linha de montagem. O aluno passaria por cada professor e receberia os conhecimentos básicos necessários para sua inserção no mercado de trabalho.


 E como operário de chão de fábrica, o professor não teria domínio, ou mesmo conhecimento das outras atividades desta linha de montagem, alienando-se cada vez mais, ficando assim à mercê dos administradores desta “fábrica”. Para alguns, este modelo fordista seria ideal, pois teríamos professores alienados e alunos que seriam apenas reprodutores de técnicas.


Mas e a produção de tecnologia? O pensamento crítico? Isso seria para os centros irradiadores da cultura, e não para os locais de montagem. No limite, estamos agindo como se o aluno fosse um jarro vazio, e a medida de produtividade seria como um nível: se este “jarro” atingiu o nível mínimo, continua na linha de montagem, se não, volta para trás. É o princípio da tábula rasa.
 Ora, a pedagogia moderna não admite tal atitude do educador. Este tem que considerar as experiências anteriores do estudante, adequar o conteúdo às realidades deste estudante e trabalhar como facilitador do acesso às informações, fazendo com que o estudante descubra por si, valorizando e fixando assim o que foi aprendido. E mais: tem que se ter a preocupação de conectar os conhecimentos, fazendo com que as diferentes disciplinas cursadas sejam, sempre que possível, complementares para uma formação universal do cidadão.


 Aliás, deve-se ter mais cuidado com as nomenclaturas, como por exemplo, a palavras aluno, que é derivada do vocábulo latino Alunmini, que significa sem luz. Com efeito, o professor seria o responsável pela chama do conhecimento, com o poder de conceder, ou não, uma fagulha do saber. É preferível que se use a palavra estudante.


 Mas se antes os professores eram respeitados e considerados e hoje não o são mais na mesma medida, então os professores de antes erraram e são culpados pela atual situação? Na realidade, não. O que ocorreu foi uma dinamização muito grande das informações, sem um preparo para podermos lidar com o contato tão íntimo com tantas culturas diferentes, gerando dessa forma um choque de valores e uma conseqüente crise dos valores da nossa sociedade, que só foi agravada pelas questões de desigualdade social e pelo estímulo à competição e concorrência selvagens.


 A grande vilã é a Globalização, alguns diriam. Mas é preciso analisar outros pontos. De fato, o processo de Globalização é muito antigo: Marco Pólo, Vasco da gama, Cristóvão Colombo, James Cook, Adolf Vernhagem, Marechal Rondon seriam símbolos da Globalização, mas num processo que diminuía as distâncias, preservando as especificidades locais.


 Com a revolução tecnológica dos últimos 30 anos, o mundo ficou ainda menor, e com as possibilidades de acesso (às informações e às pessoas) cada vez rápidas, gerando choques, descrédito e frouxidão dos valores culturais e morais de nossa sociedade, em favor do American Way of Life, de uma sociedade materialista, individualista e cínica com relação aos seus problemas e arrogante quanto às sua limitações, seguindo a lógica protestante do capitalismo, que pouco ou quase nada tem a ver com o Brasil.


  Se quisermos nos firmar, neste século XXI, como potência do mundo, temos que resgatar os nossos valores culturais, étnicos, morais e mesmo religiosos, e incentivarmos uma cultura de valorização dos costumes locais, mas conscientes da existência do resto do mundo. E trabalharmos para que as diferenças sejam respeitadas e, ao contrário do que vem ocorrendo, apenas toleradas.


 A forma de conseguirmos operar essa transformação é o investimento. Não apenas de dinheiro, mas de atenção, de compromisso com a educação, no sentido amplo, desde a responsabilidade da família até o preparo consciente dos professores.



Luiz Paulo Neves Nunes é Professor e Geógrafo, autor do livro “Aspectos Geográficos das Toponímias Tupi, Hebraica e Árabe do Litoral Paulista”, é especialista em Política e Estratégia pela USP e mestrando em Educação pela Unimonte. É representante em Guarujá da Associação dos Geógrafos Brasileiros, membro da Diretoria Executiva da Sociedade Brasileira de Heráldica, Diretor de Relações Públicas do Rotary Club Guarujá – Vicente de Carvalho, membro do Conselho Municipal para Assuntos da Pessoa Portadora de Deficiência Física da Ilha de Santo Amaro, Segundo-Secretário do Clube dos 21 Irmãos Amigos de Santos

 
 
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