| Viva o rádio | ||||
| Autor: José Geraldo Couto | ||||
| Categoria: Esporte | ||||
| Data: 23-05-2006 0:00 | ||||
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Uma das frases mais citadas de Nelson Rodrigues é a que diz que “o videoteipe é burro”. Mas pouca gente se dá conta do sentido profundo desse aparente disparate. Um videoteipe é burro porque liquida, ao menos momentaneamente, uma das mais belas faculdades humanas: a imaginação. Enquanto não vêm o videoteipe, o tira-teima, a câmera lenta, o “ângulo invertido” e outras armas de destruição da fantasia, o que temos é a imagem que formamos na cabeça, em parte fotografia da realidade, em parte investimento da nossa imaginação e do nosso desejo sobre essa mesma realidade. Por isso o rádio, num sentido muito preciso – o do estímulo à fantasia -, é superior a televisão. Analogamente, o cinema mudo é superior ao sonoro (porque nos força a “ouvir” com a imaginação) e a fotografia em preto-e-branco é superior à colorida (porque nos faz imaginar as cores, pintar com os olhos da mente). Como muita gente da minha geração, ouvi muito jogo pelo rádio na infância e na adolescência. Não havia a inflação de transmissões televisivas que existe hoje. O rádio nos trazia um futebol vibrante, dramático e misterioso, feito menos dos fatos reais ocorridos em campo do que do talento expressivo dos locutores. Autênticos artistas da representação, os narradores criavam seus bordões pitorescos, infundiam ao jogo uma velocidade que ele não tinha, modulavam a voz à perfeição para criar atmosfera. Até os silêncios dos locutores eram expressivos. No crescendo emotivo da narração de um lance de ataque, algumas brechas do discurso deixavam-nos ouvir ao fundo o rumor da torcida, pelo qual sintonizávamos a nossa expectativa. Um segundo antes de o desfecho ser narrado, sabíamos se havia sido gol ou não, dependendo do alarido. Entrávamos no clima da partida horas antes do apito inicial, quando soava o prefixo esportivo da emissora escolhida (Jovem Pan, Tupi, Bandeirantes) e começavam a ser transmitidas informações sobre os times, flashes do estádio, hinos, perfis de craques, reprises de jogos históricos etc. Da mesma forma, o drama e a comédia ocorridos em campo continuavam durante as horas posteriores, nas entrevistas, nos comentários e nos programas especiais, entre os quais o mais memorável era o “Show de Rádio”, comandado por Estevem Sanginardi na Jovem Pan e, posteriormente, na Bandeirantes (parece que hoje, bastante modificado, está na Capital). A imaginação é um músculo, dizia Luís Buñuel. Para que não atrofie, é preciso exercitá-la como exercitamos qualquer outro músculo. O rádio, para milhões de brasileiros, representou – e para outros tantos ainda representa – um meio de exercitar a imaginação e a sensibilidade. A TV registra a verdade, e a verdade é o seu dom de iludir. O rádio, o rádio não. O rádio inventa a verdade junto com a gente.
José Geraldo Couto é colunista da Folha de S. Paulo (o artigo acima foi originalmente publicado pelo jornal Folha de S. Paulo, em 13 de maio de 2006, e graciosamente cedido para reprodução no www.programapainel.com.br pelo autor) |
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