| O Mar Vai Virar Sertão | ||||
| Autor: Jorge Lampa | ||||
| Categoria: Cultura | ||||
| Data: 18-04-2006 0:00 | ||||
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Começo a escrever este texto com uma certa verve causada pela leitura de artigos sobre a comemoração próxima em torno dos cinqüenta anos da publicação de “Grande Sertão: Veredas” e a frase de efeito acima me parece sintetizar uma série de coisas sobre as quais eu vinha querendo escrever. É sobre isso que vamos conversar. A primeira coisa que vinha embatucando minha cabeça é a tal da relação entre cultura popular e erudita (?), oficial (??), cultura culta (!!!! – esta última expressão é para explicitar por completo o desconforto que a noção de uma norma culta para artes, língua, etc. causa; pelo menos em quem sabe das qualidades dos conteúdos de ambas as culturas). Nesses campos, ninguém melhor que Seu João Rosa desvelou-se em revelar os fossos e as superfícies de contato entre uma e outra: aflorando um falar clássico em bocas de jagunços e matutos que nada mais é do que a própria língua do sertão transcrita. Além disso, outra coisa que vinha coçando dentro da cabeça é anterior a essa: as outras tais concepções de cultura, uma muito usada, como sinônimo de produção simbólica, principalmente artística e a outra ligada ao conjunto todo de crenças, visões de mundo, jeitos de ser e universo de valores, transmitidos de geração a geração. Neste último sentido, tanto o próprio romance como o jeito do jagunço Riobaldo se escanchar na sela meio de lado e fumar o cigarro de palha são cultura.
E, em relação a isso, me incomodam particularmente duas coisas: que uma seja mais valorizada que a outra (obviamente, me refiro à cultura dos livros, músicas; das obras e dos gênios tendo a precedência) e que, nesse processo, não se fique lembrando o tempo todo que uma está imersa (e portanto, faz parte e é formada por ela) na outra. Explicando melhor: mesmo “Grande Sertão”, esse monumento, é parte de um contexto cultural em que a obra foi gerada e continua sendo avaliada e relida, de certa forma, recriada. E isso vale para tudo: para “Águas de Março” (principalmente com Tom e Elis), para a “Sagração da Primavera”, para Seu Zé Coco do Riachão e Moacir Santos. Só falei de coisas musicais, monumentais e que adoro, mas fico o tempo inteiro obsessivamente dizendo a mim mesmo: “lembre-se sempre que são frutos de seus contextos históricos e culturais, aqueles em que foram criados e que os vão atualizando constantemente”. Vale mesmo para tudo, para o Davi (ou é o Moisés?) que sonho ver um dia e dizer “parla!” e para os poemas perfeitos de Arnault Daniel, as provocações de Leminski e outros lavores capitais. Para tudo. Tudo que é cultural. Tudo. De novo, Seu João: ao conceber sua coleção de obras-primas ele também realizou uma espécie de “antropologia literária” do Sertão (sim, com maiúscula!). Mas, veja lá: o título aqui do artigo não tem nada a ver com João Guimarães Rosa. Tudo bem, o Sertão, logo: “Os Sertões” e o Conselheiro e Euclydes etcetera. Mas fica por aí. Não para mim, por que é exatamente onde a outra das coisas que mais me encafifam se materializa. Agora, tenho que inspirar que o treco é confuso. Quando a gente teve há uns anos atrás o bafafá em torno dos 100 anos do massacre de Canudos (não dá mesmo para dizer “as comemorações”), eu parei para pensar em sertão, Sertões e tudo mais do seguinte jeito: sertão é um lugar (seja em Minas, no nordeste, nos pampas) onde a civilização um dia passou muito de passagem, esqueceu uma gente lá que foi se calcinando ao sol e cozinhando costumes e falas e rezas e tudo. Esse é tal do sertanejo (o verdadeiro!) que é antes de tudo um forte e fala a fala de pedra. Um dia, por vários motivos alguém se lembra desse povo desse país longínquo: o Sertão... Os motivos são mesmo vários: alguém grava um aboio de vaqueiros e uns malucos ouvem naquilo um canto mavioso de cores exóticas; ou ouve-se falar que uma gente está fazendo uns reboliços e querendo restaurar a monarquia. Não importa. O que importa é que o sertão está sempre longe, sempre oculto, mudo em relação às vozes oficiais. Ele pode estar ali, depois daquela avenida em que se chega por um ônibus que a gente nunca toma. Ele pode estar aqui, vendendo caneta no ônibus que eu tomo. Mestre Rosa dizia: “o Sertão está em toda parte...”, não é? E está. Para o bem e para o mal. Para quando a favela desce ao asfalto pela notícia de algum bacana queimado no microondas (termo cunhado pela barbárie bandida para o processo de carbonização dos inimigos com pneus) ou pelos barbarismos gritados ao som do funk, agora inclusive em carros de playboys. Aliás, a palavra favela, convém lembrar, primeiro foi nome de planta nordestina e depois de um morro na cercania de Canudos, de onde os soldados a trouxeram para rebatizar o morro da Providência (santa coincidência: a providência virou favela!). E agora, como o sertão, a favela está em toda parte: Alagados, Favela da Maré, México 70... Opa, chegamos ao começo do fim, Uróboro comendo a própria cauda. Se o sertão está em toda parte está aqui, também, à beira da praia ou, pelo menos, a algumas quadras dela. Pois não tem por aí um tanto de gente esquecida pelo Brasil oficial, quase como se esqueceram um dia os bisavós de tanto vaqueiro e jagunço? Nem parece, principalmente nos dias mais bonitos de sol. Mas o sertão uma hora aparece. A profecia é clara: “o sertão vai virar mar!”. Se o sertanejo vai para o aboio ou para o cangaço, às vezes nem é tanto por opção dele. Aí é bom a gente ler mesmo os clássicos, que contam estas histórias todas de escolha e destino. Seu Rosa, o cego Homero cantador, aqueles russos. Uma coisa esquisita está acontecendo na nossa cultura (nos dois sentidos comentados acima). Antes, mesmo com todas as desigualdades que havia parece que a circulação de elementos de umas para as outras era mais fluido. A gente vê isso nas obras de Tom Jobim, destes escritores citados e mesmo no próprio fazer de grandes mestres da cultura popular, em sentido geral (ouçamos alguns doutos repentes e a fina flor de Cartola, ouçamos João Pernambuco e João do Vale para atestar essa afirmação). A gente lê isso, também, em obras que comentam esses processos, como as do Hermano Vianna e outras. Com a banalização e a mercantilização excessiva dos bens simbólicos, parece que se criou (ou se ampliou) um fosso também entre as produções culturais das diferentes classes (sendo que as “elites” pouco ou nada têm produzido de bom). E que o que volta do “povão” nada mais é do que o refluxo do que se permitiu que eles tivessem acesso como referência. E aí, para os predadores de topo ganhar dinheiro com bondes e apês, fica uma beleza! Escolha ou destino? O mar vai virar sertão. Já foi profetizado, estou só lembrando. Como será? Não sei, pode ser com aboios, com fandangos, com batuques importados de leste e norte ou com aqueles sons esquecidos em algum canto, de quando isso aqui tudo era caiçara e não cais ou balneário. Com o novo, que para ser mesmo novo, a gente nem sabe como poderá ser. Pode ser com algum tipo de ignorância, física, verbal, musical. Pode ser com viola e rabeca; pode ser com estilete e pistola. Agora eu é que pergunto: Que arrastão vocês preferem? Jorge Lampa é músico (compõe, canta, toca violão), graduado em Música Popular, mestre em Artes e Doutorando em Música, tudo pela UNICAMP (Instituto de Artes).
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