Quimeras do Esporte
Autor: Lucas Peña Vasques
Categoria: Esporte
Data: 03-04-2006 0:00
 
 

Saudações!


            Sempre tive a mais absoluta convicção de que o futebol brasileiro é a extensão exata do País, com suas virtudes e mazelas. Reflete a identidade do povo. Nota-se isso com clareza quando surgem à mente as qualidades, especialmente quando o assunto é dentro de campo. Contudo, em enorme escala, percebem-se os paradoxos no momento em que se pensa em aspectos administrativos e de gestão.


            Atualmente, o exemplo mais evidente das incoerências que dominam o futebol ocorre com um dos times mais populares do Brasil. Vamos analisar com atenção. O que se espera de um clube com as seguintes características? Pertence ao principal centro do País, tem a segunda maior torcida do território (talvez, a primeira), um currículo mais do que invejável de títulos, uma história rica de grandes craques e uma perspectiva extremamente positiva no quesito exploração (no bom sentido) da imagem, um dos ícones do capitalismo atual.


            Para isso se viabilizar com facilidade, nada mais providencial do que a união desse clube a uma empresa de capital internacional, ainda mais em tempos bicudos na economia brasileira. Isso, certamente, alavancaria (outra palavra da moda) os projetos e sonhos de uma verdadeira nação de torcedores. Portanto, nada mais perfeito para o futuro poderia ser vislumbrado, certo?


            Errado! Todos já perceberam que o alvo do tema aqui descrito é o glorioso Sport Club Corinthians Paulista. Na mesma proporção em que dentro de campo o sucesso é indiscutível, fora das quatro linhas é absolutamente indecifrável o que ocorre nos bastidores da parceria, se assim podemos chamar o dueto MSI-Corinthians.


            Pois bem, vamos recorrer a quem entende. No Aurélio, a palavra parceria está assim definida, entre outros conceitos: ``Reunião de pessoas para um fim de interesse comum, sociedade, companhia”. É isso, justamente, o que não observamos no caso. O capítulo mais recente das desventuras dessa união atende pelo nome de Marcelinho Carioca.


            Nada mais justo que os clubes brasileiros tenham por prática valorizar sempre seus ídolos, do passado e do presente. Mas, não me parece o objetivo. Se fosse, seria mais interessante ressaltar as façanhas do jogador com uma marcante homenagem no Memorial do clube.


             Há, na verdade, uma intensa disputa de poder, desde que a parceria foi concretizada. De um lado, o presidente Alberto Dualib quer o jogador, para fazer média com a torcida e com os conselheiros, responsáveis por eternizá-lo no clube (como a maioria). Do outro, Kia Joorabchian, homem-forte da MSI, que investe prioritariamente em jogadores que podem gerar retorno financeiro, o que não é a situação atual do Pé de Anjo. Dualib e mister Kia se encontram na Inglaterra há mais de meio mês para resolver a questão, não se sabe como.


             A meu ver, não se trata de analisar, com a sanha investigativa que alguns preconizam, a origem do dinheiro da MSI. Para mim, existem outras fortunas circulando pelo País que deveriam ser pesquisadas com mais rigor.


  Aliás, é imperioso que se abra um parênteses. O momento mais vitorioso de um clube de futebol no País nos últimos anos foi o da parceria Palmeiras-Parmalat. Ninguém, à época, fez questão de estudar os meandros financeiros da empresa italiana. Todos só cantavam em prosa e verso as inúmeras conquistas da equipe no início da década de 90. Pois bem! A Parmalat, assim como a Cirio, sua concorrente no país da bota (que também arriscou algumas investidas pelo futebol), vive um irreversível processo de insolvência, com inúmeras denúncias de fraudes.


  Voltando ao principal objeto de reflexão. Também não acho que seja tão fundamental discutir a relação do misterioso iraniano Kia Joorabchian com o dito mafioso russo Boris Berezovski. Afinal, Roman Abramovich, compatriota de Berezovski seu companheiro de profissão, é o homem-forte do Chelsea, time que vem dominando o futebol inglês nos últimos anos.


            Mesmo assim, é no mínimo estranho um homem que ninguém nunca havia ouvido falar, de origem tão desconhecida quanto o dinheiro da MSI, transitar com tanta liberdade no mundo do futebol brasileiro, dando autógrafos e gozando de muito poder. Os torcedores, por vocação, não estão preocupados com essa briga. Afinal, o fanatismo turva a visão e as conquistas, às vezes, também.


             Portanto, é curiosa essa situação vivida pelo Corinthians. Vamos aguardar os desdobramentos e conferir quem vai se dar bem no braço-de-ferro entre os dois extremos do poder. Lembrando, apenas, que o Parque São Jorge já viveu, não há muito tempo, o projeto mais interessante de gestão que o futebol já ofereceu: a Democracia Corinthiana.


  Até a próxima!


Lucas Peña Vasquez  é jornalista editor de esportes de A Tribuna


 


 

 
 
Mkt Virtual